segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

FERNANDA MONTENEGRO E SIMONE DE BEAUVOIR


" Viver sem tempos mortos, gozar a vida sem entraves"

Revista BRAVO! Maio/2009

“A vida é um Demorado Adeus”

Às vésperas de comemorar 80 anos,
Fernanda Montenegro leva para os palcos
o legado da escritora Simone de Beauvoir
e reflete e reflete sobre a morte recente do marido, o ator Fernando Torres
Armando Antenore

Passava um pouco das 21 horas quando, naquele sábado de Aleluia,
Fernanda Montenegro disse as últimas frases do monólogo Viver sem Tempos Mortos.
Por 60 minutos, a atriz carioca interpretara Simone de Beauvoir (1908-1986) .
Entre os que aplaudiam, destacava-se Wilson Ademar, negro de 93 anos,
sapateiro aposentado, que nunca presenciara uma peça antes.
Tão logo tomou conhecimento do espectador inusitado,
Fernanda se comoveu e indagou publicamente:
"O que o senhor imaginava toda vez que pensava num palco?".
Wilson, tímido, respondeu: "Eu não imaginava".
Pois é sobretudo com a imaginação da plateia que a atriz parece contar
enquanto incorpora a filósofa e escritora parisiense,
ícone do feminismo e parceira de outro célebre filósofo,
o existencialista Jean-Paul Sartre.
Na mais despojada produção que estrelou em seis décadas de carreira,
Fernanda vira Simone sem lançar mão de elementos
que remetam fisicamente à personagem.
Não há sotaque, não há trejeitos característicos,
não há nem mesmo um figurino afrancesado.
Com uma camisa social branca e uma calça preta,
a atriz senta-se numa cadeira igualmente preta, único objeto em cena,
e permanece lá durante toda a montagem, sob um persistente foco de luz.
Narra, então, os principais momentos da intensa trajetória de Simone.
Fala sempre na primeira pessoa, usando depoimentos da própria romancista,
extraídos de livros e cartas.
O monólogo dirigido por Felipe Hirsch, desembarca agora em São Paulo
como parte de um evento maior, batizado de Caminhos da Liberdade.
A iniciativa prevê que, antes do espetáculo, o público assista a Uma Mulher Atual, documentário de Dominique Gros sobre Simone, e, depois,
participe de um debate conduzido pela socióloga Rosiska Darcy de Oliveira,
especialista no legado da filósofa.
A atriz, que completa 80 anos em outubro, no percurso, perdeu o marido,
o também ator Fernando Torres.
Quem vê Simone discorrer sobre Sartre ao longo do monólogo
dificilmente deixa de cogitar que talvez exista um subtexto ali
— que talvez Fernanda esteja refletindo sobre o próprio companheiro,
um modo delicado de absorver e superar a morte dele.
No domingo de Páscoa, a artista recebeu a equipe de BRAVO!
para uma conversa de quatro horas.
BRAVO!: Quando você entrou em contato com Simone de Beauvoir e os existencialistas?
Fernanda Montenegro : Logo depois da Segunda Guerra, no fim dos anos 40 e início dos 50.
Era um período em que Simone e Jean-Paul Sartre despontavam como celebridades,
como popstars. Todo mundo do meio artístico e intelectual queria entender o que pensavam. Eu, à época, trabalhava para a Rádio Ministério da Educação,
a lendária Rádio MEC, que já se localizava no centro do Rio de Janeiro.
Ingressei ali em 1945, ainda adolescente, por causa de um projeto
que recrutava novos locutores, redatores e atores.
Fiz o teste, uma leitura de poema, sem botar fé que me chamariam.
Mas me chamaram e acabei passando uma década na emissora.
Jamais imaginei que encontraria por lá um universo tão rico culturalmente.
Tínhamos aulas de português e de declamação,
além de palestras sobre os assuntos que abordávamos no ar.
Por longo tempo, desfrutei do privilégio de apresentar
o programa dominical Douce France (Doce França).
Em função disso, pude me aproximar ainda mais das teses de Sartre e Simone.
Qual o primeiro livro dela que você leu?
Foi O Segundo Sexo, que saiu em 1949
e se transformou num clássico da literatura feminista,
sobretudo por apregoar que as mulheres não nascem mulheres, mas se tornam mulheres.
Ou melhor: que as características associadas tradicionalmente à condição feminina
derivam menos de imposições da natureza e mais de mitos disseminados pela cultura.
O livro, portanto, colocava em xeque a maneira como os homens olhavam as mulheres
e como as próprias mulheres se enxergavam.
Tais ideias, avassaladoras, incendiaram os jovens de minha geração
e nortearam as nossas discussões cotidianas.
Falávamos daquilo em todo canto, nos identificávamos com aquelas análises.
Simone, no fundo, organizou pensamentos e sensações que já circulavam entre nós. Contribuiu, assim, para mudar concretamente as nossas trajetórias.
De que modo alterou a sua?
Sou descendente de italianos e portugueses, um pessoal muito simples,
muito batalhador, e me criei nos subúrbios cariocas.
Desde cedo, conheci mulheres que trabalhavam.
E reparei que, entre os operários, na briga pela sobrevivência,
os melindres do feminino e as prepotências do masculino se diluíam.
Era necessário tocar o barco, garantir o sustento da família
sem dar bola para certos pudores burgueses.
Nesse sentido, a pregação feminista de que as mulheres deviam ir à luta profissionalmente
não me impressionou tanto.
Um outro conceito me seduziu bem mais: o da liberdade.
A noção de que tínhamos direito às nossas próprias vidas,
de que poderíamos escolher o nosso rumo e de que a nossa sexualidade nos pertencia.
Eis o ponto em que o livro de Simone me fisgou profundamente.
Lembro-me de quando vi pela primeira vez a cena da bomba atômica explodindo.
Ou de quando me mostraram as imagens dos campos de concentração nazistas.
O impacto negativo que aquilo me causou foi parecido com o impacto positivo
que O Segundo Sexo exerceu sobre mim.
Garota, já suspeitava que não herdaria o legado de minha mãe e de minhas avós,
que não caminharia à sombra masculina.
O livro de Simone me trouxe os argumentos para levar a suspeita adiante.
Sua mãe trabalhava fora?
Não. Era uma ótima dona de casa, uma administradora emérita do lar.
Cuidava com carinho e eficiência de meu pai, um modelador mecânico, e das três filhas. Quando ficou viúva, caiu em depressão.
Tinha mais de 80 anos e procurou uma psicanalista.
Expôs as angústias à terapeuta e depois a ouviu, ouviu, ouviu.
De repente, interrompeu a conversa e revelou:
"Doutora, sabe do que gostaria mesmo? De liberdade".
Veja bem: minha mãe precisou chegar à extrema velhice
para conseguir expressar o que de fato almejava.
Escutei testemunhos similares — e tardios —
de outras mulheres idosas, como a minha sogra.
Elas integravam uma geração que suportava a dor em silêncio, sem reclamações.
"Caráter e espinha", proclamava minha mãe
quando lhe indagavam quais os principais atributos femininos.
Espinha para se curvar, compreende?
Os existencialistas teorizaram bastante sobre a liberdade humana.
Diziam que "o homem será antes de mais nada o que desejar ser".
Você concorda?
Concordo. Somos os senhores de nossos atos, de nossas opções.
"Deus ajuda quem cedo madruga", ensina o ditado popular.
Se o homem não inventar o próprio destino, Deus não irá interferir.
Você crê em Deus? Simone não acreditava.
Ora acredito, ora desacredito.
Ninguém me demonstrou a presença de Deus.
Tampouco demonstrou o contrário.
Eu talvez cultive uma fé imensa em meio à dúvida.
Por outro lado, creio plenamente no acaso.
O homem nasce livre, mas o acaso tem a última palavra, dizia Simone.
Exato. O acaso se põe acima de qualquer teoria.
É o grande mistério e a principal razão para a misericórdia.
Os homens deveriam se irmanar justamente porque se sujeitam, todos,
às leis insondáveis do acaso.
O que me fez entrar na Rádio MEC com 15 anos?
O que me fez superar a timidez juvenil e concorrer às vagas de locutora e atriz?
Foi o acaso, em parte. Havia a minha vontade e havia o imponderável.
Se tomasse outro rumo naquela ocasião, em quem iria me transformar? Não sei.
Sei apenas que hoje me encontro onde sempre quis. Vivi sem tempos mortos.
Um slogan de maio de 1968: "Viver sem tempos mortos, gozar a vida sem entraves". Você pinçou um trecho dele para batizar sua peça, não?
É que realmente vivi sem tempos mortos, algo de que me orgulho.
Mergulhei com avidez na existência que ganhei de Deus, da natureza ou do acaso.
Realizei uma profissão que considero importantíssima —
subir no palco para converter meu corpo em instrumento de discussões.
Nunca roubei, nunca matei.
Se impedi alguém de alcançar a felicidade,
não me dei conta e peço desculpas. Peço perdão até.
Não me julgo perfeita. Longe de mim!
Tenho as minhas zonas escuras.
Que zonas escuras?
Sou rancorosa. Lógico que rejeito o sentimento e me policio: "Vamos largar de besteira!".
No entanto... Ressinto-me igualmente de não ter mais disponibilidade para os amigos e a família. Às vezes, exagero na reclusão. Distancio-me de meus afetos.
Quando penso nos colegas que se foram e na atenção insuficiente que lhes dediquei...
Flávio Rangel, Renato Consorte, Paulo Gracindo, Lélia Abramo, Zilka Salaberry,
Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Autran...
Convivi tão pouco com o Autran... Sorte que, às vésperas de morrer,
ele me mandou uma carta, comovido. Falava de coisas doces.
Foi provavelmente a última carta que redigiu.
A vida não passa disso, de um demorado adeus.
Em setembro de 2008, você assistiu à morte de seu marido, o ator e produtor Fernando Torres, companheiro de quase seis décadas. Como lidou com o fato?
Não lidei. Continuo lidando...
Jamais a sensação do absurdo se mostrou tão palpável, tão nítida.
Você não aceita aquele virar de página. Você nega a partida.
O engraçado é que só me toquei de minha finitude depois de perder o Fernando.
Claro que, antes, me observava no espelho e acusava a passagem dos anos.
Mas não percebia que meu tempo está se esgotando, uma constatação terrível.
Experimentar o desmonte psíquico, o desmonte muscular, o desmonte existencial...
Não me parece fácil. Por enquanto, tudo vai bem.
Disponho de vitalidade e ânimo para prosseguir.
Consigo trabalhar 14, 18 horas por dia.
Noto, porém, que algumas pessoas já me olham com assombro:
"Ainda fala! Ainda se locomove!".
Tornei-me um estranho fenômeno de resistência, como outros de minha idade.
Mesmo assim, acho que a pior tragédia é morrer jovem.
Não há nada mais triste do que a vida interrompida precocemente.
Fernando concordava com as ideias defendidas por Simone em O Segundo Sexo?
Sim, totalmente. Era um homem de tutano, de fibra,
um homem libertário que recusava o machismo.
Enfrentou meu sucesso e minha personalidade forte à maneira de um gigante.
Em nenhum momento me castrou.
Pelo contrário: me incentivou muito e, na função de produtor,
buscou criar as melhores condições para meu progresso como atriz.
Certas vezes, me vendo no palco, chorava de emoção.
Se minhas conquistas o incomodavam, não deixou transparecer
— atitude que considero de uma grandeza absoluta.
Infelizmente, sofreu por 20 anos em razão de uma isquemia cerebral que, primeiro,
lhe trouxe depressões violentíssimas e, depois, lhe prejudicou os movimentos.
Um quadro tão terrível quanto inesperado. Uma armadilha do acaso.
Meses antes de morrer, fez questão de me aguardar no aeroporto
quando retornei de uma viagem à Itália.
Estava contente e me acenou da cadeira de rodas.
Segurava um buquê de flores. Perguntei: "Por que as flores, Fernando?".
E ele: "Porque nosso terceiro neto acabou de chegar".
Recebi a notícia do nascimento de Antônio assim, com flores.
Simone e Sartre protagonizaram uma relação aberta e se cercaram de vários parceiros sexuais. Você e Fernando viveram um casamento semelhante?
Não. Firmamos um pacto de fidelidade, que deveria se manter até onde desse. E deu!
No meu caso, deu. Todas as minhas fantasias extraconjugais resolvi em cena,
sem amargar qualquer frustração.
Se por ventura não deu para o Fernando, respeito.
Fomos transgressores à nossa moda, percebe?
Qual a maior subversão que um casal pode praticar nos dias de hoje? Permanecer junto!
Nós permanecemos — com altos e baixos, mas permanecemos.
Simone não teve filhos. Você gerou dois, a atriz Fernanda Torres
e o cineasta Cláudio Torres. Maternidade e feminismo combinam?
Certamente. Mesmo orbitando em torno do ideário feminista,
sempre desejei uma família. Nunca desprezei "o orgulho da carne".
E não me arrependo: acima de tudo, sou a mãe de meus filhos.
Mais que atriz, mais que a viúva do Fernando, sou a mãe de meus filhos.
Por que você resistiu à plástica, seguindo na contramão de tantos artistas?
O feminismo a influenciou nesse terreno?
Não me oponho às cirurgias estéticas nem condeno quem as faça,
mas receio perder minha cara.
Óbvio que, à beira dos 80, gostaria de exibir um pescoço maravilhoso,
eliminar as bolsas abaixo dos olhos, implodir a papada sob o queixo.
O problema é que não me reconheceria sem tais "defeitos".
Fora que, aderindo à plástica, ganharia uns dez anos e,
em vez de ostentar 80, recuaria para 70. Qual a vantagem?
Você se julga bonita?
Ultimamente, quando espio fotos em que apareço jovem,
enxergo certa graça ali.
Eu fugia muitíssimo do padrão.
Não me equiparava às beldades daquele momento: Doris Day, Marilyn Monroe,
Tônia Carrero, Maria Della Costa.
O curioso é que nem por isso me sentia inferior.
Numa ocasião, a companhia de Henriette Morineau
me contratou para assumir o papel de uma feiosa em um espetáculo
— não lembro o nome da peça.
Minha personagem rivalizava com uma prima linda e fogosa,
um anjo exterminador, um furacão que seduzia o tio,
os namorados alheios, o diabo.
Num dos ensaios, arrumei coragem e confessei que não queria interpretar a feiosa.
Queria encarnar o anjo exterminador.
O resto do elenco me chamou de louca.
Pois acabei pegando o papel e afirmo, com enorme alegria,
que ninguém protestou na plateia.
Ninguém ousou dizer que aquele estrepezinho não seria capaz de enfeitiçar deus e o mundo.
Já idosa, Simone declarou que não se deixaria escravizar pelo passado.
Você também parece não se prender às glórias de outros tempos
e abdica de títulos que a colocam em pedestais,
como o de "primeira dama do teatro brasileiro". Por quê?
Entenda: prezo tudo que realizei, mas o passado é o passado. Terminou.
Não pretendo me entregar às divagações do tipo "ah, meus verdes vales...".
Rechaço a melancolia nostálgica e, à semelhança de Simone, frequentemente me pergunto: "Que espaço o passado reserva para a minha liberdade hoje?".
Quanto à classificação de "primeira dama", não me ofendo. Em absoluto!
Só avalio que o rótulo não me cabe. Vi e vejo atrizes extraordinárias na estrada.
Não é possível que apenas uma envergue a coroa. Precisamos dividir os louros.
Sem contar que a mídia e os críticos mencionam sempre as damas e nunca os lordes.
Cadê os lordes? Nossos palcos estão repletos deles.
Na verdade, títulos do gênero são a herança de um teatro romântico, heroico
— um teatro que jamais busquei.
Uma vez, a Nandinha, minha filha, filmou no México com o Anthony Hopkins
e me escreveu de lá: "Mamãe, ele é igualzinho a gente".
Correto! O ofício não nos tira do âmbito humano.
Continuamos falíveis como qualquer indivíduo.
Mesmo as divas tropeçam em cena, sofrem acessos horríveis de tosse,
esquecem o texto, temem não dar conta do recado.
Você teme?
Muito! Desde moça, temo que me falte o sopro, o mistério da criação.
Há artistas que perdem a chama de repente, sem saber o porquê.
Não tenho consciência se já a perdi. Sinceramente não tenho. E talvez nem deseje ter.

A PEÇA Viver sem Tempos Mortos.
Monólogo sobre Simone de Beauvoir.
Direção: Felipe Hirsch.
Direção de arte: Daniela Thomas.
Com Fernanda Montenegro.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

LIVROS

"Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem".
Mário Quintana

"Nós mudamos incessantemente.
Mas se pode afirmar também que cada releitura de um livro
e cada lembrança dessa releitura renovam o texto." Jorge Luis Borges


Como é prazeroso fazer a lista dos livros que se quer ler.
Mais ainda é recebê-los na volta a casa,
e parecer criança na noite de Natal.

Ai vai a lista dos meus livros:

- "A solidão dos numeros primos", Paulo Giordano - Ed. Rocco

- "Por mais um dia", Mitch Albom - Ed. Sextante

- "Que cavalos são aqules que fazem sombra no mar?", Antonio Lôbo Antunes - Ed.Alfaguara

- "Clarice", Benjamin Moser - Ed. Cosacnaify

- "O clube do filme", David Gilmour - Ed. Intrínseca

- "No teu deserto", Miguel Souza Tavares - Ed. Cia das Letras

- "A Educação Sentimental", Gustave Falubert - Ed. Martin Claret

- "A Dupla Chama", Octavio Paz - ed. Assírio e Alvim

- "A Luz da Noite", Edna Obrien - Ed. Record

- "Coisas da Vida", Martha Medeiros - Ed. LPM

E ainda lerei "Evocação a Sophia" , sugerido por Joaquim Duarte.

Aqui fica a crónica sobre o livro, por laurinda Alves.
Belíssima!

Tive uma vida maravilhosa,
disse Sophia de Mello Breyner Andresen pouco antes de morrer.
Alberto Vaz da Silva, autor de “Evocação de Sophia”,
diz que esta foi uma das últimas coisas que se lhe ouviu dizer.
O prefácio do novo livro foi escrito por Maria Velho da Costa
e o posfácio é de Tolentino Mendonça, que evoca assim a poesia de Sophia:
“poema a poema somos remetidos para o ‘limpo’, o ‘intacto’, o ‘inteiro’, o ‘puro’”.
Neste livro cabem memórias de viagens espantosas pela Grécia e Sicília
mas também fragmentos de escritos inéditos sobre as casas habitadas por Sophia.
Sobre a sua viagem com Agustina à Grécia,
Sophia escreveu a Jorge de Sena:
“não tento descrever-lhe a Grécia nem tento dizer-lhe o que foi ali a minha total felicidade.
Foi como se eu me despedisse de todos os meus desencontros, todas as minhas feridas.”
Muitos anos mais tarde escreveria sobre a memória dos templos,
das estátuas, das praias, das praças e dos cafés da Sicília,
bem como das tardes e das noites vividas no maravilhoso jardim de Taormina,
na companhia dos amigos Ana Maria e João Bénard da Costa,
Helena e Alberto Vaz da Silva.
Por tudo isto e também pela caligrafia de Sophia vale a pena
ler e guardar este livro para sempre.


ACEITO SUGESTÕES PARA LEITURA!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

IEMANJÁ

FOTOS DE ONTEM..........

"Dia 2 de fevereiro,
Dia de festa no mar,
Eu quero ser o primeiro,
A saudar Iemanjá..."

Aos amigos de cá e os de além mar..............

"Você já foi a Bahia? Não?
Então vá............


VOCÊ JÀ FOI A BAHIA?
(Dorival Caymmi)

Você já foi à Bahia, nêga?Não?
Então vá!
Quem vai ao "Bonfim", minha nêga,
Nunca mais quer voltar.
Muita sorte teve,
Muita sorte tem,
Muita sorte terá
Você já foi à Bahia, nêga?Não?
Então vá!
Lá tem vatapá
Então vá!
Lá tem caruru,Então vá!
Lá tem munguzá,Então vá!
Se quiser sambar, Então vá
Nas sacadas dos sobrados
Da velha São Salvador
Há lembranças de donzelas,
Do tempo do Imperador.
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito,
Que nenhuma terra tem!
Lá tem vatapá,Então vá!
Lá tem caruru,Então vá!
Lá tem munguzá,Então vá!
Se "quiser sambar"Então vá!
Então vá...!

http://www.youtube.com/watch?v=DT6pdJtkNys

http://www.youtube.com/watch?v=7RNUgDkw11M&feature=related



















O LUGAR NO TEMPO...

SAUDADES DE ONDE FUI.......

Lisboa, Caldas da Rainha, Sintra, Porto, Torres Vedras, Santa Cruz,
São Martinho, Nazaré, Ericeira, Cascais, Oeiras, Foz do Arelho, Óbidos,
Troia, Setubal, Aveiro, Douro, Batalha, Alcobaça, Palmela,
Peniche, Sesimbra....e tantos outros que me dão saudades,
e a certeza de voltar!

CINEMA

"O FILME FALADO" , Manuel de Oliveira

Tive o prazer de assitir e recomendo.
Mesmo com atraso, já que foi lançado em 2003,
Quem não viu deve fazê-lo.
Uma verdadeira aula de história, política, tolerância e civilidade.


“Um filme falado” afirma a sabedoria das palavras
A mais recente obra de Manoel de Oliveira

pode parecer uma defesa da civilização branca e ocidental.
Mas é possível chegar à conclusão oposta.
O filme alerta para a necessidade de que a ação
seja orientada pela sabedoria da fala.
Seja ela ocidental ou oriental.

O filme descreve um cruzeiro marítimo de Rosa Maria (Leonor Silveira)

e sua filha, a menina Maria Joana (Filipa de Almeida),
por cidades do Mar Mediterrâneo.
Além de mãe, Rosa também é historiadora.
O que possibilita que também o espectador aprenda
através dos lugares históricos por que passam as personagens.
Além disso, muitas das perguntas da menina Joana
são daquelas que nos esquecemos de nos fazer mais vezes:
O que são lendas? O que é mito? O que é contemporâneo?
O recurso também é uma forma de nos provocar
e transmitir o recado do diretor.
O problema é que o recado corre o risco de ser mal interpretado.
Vejamos porque.
O início do filme, por exemplo,

passa pelo perigo de ser considerado uma defesa da visão européia de mundo.
O nevoeiro que dificulta avistar os monumentos no porto de Lisboa
simboliza o desaparecimento no passado das glórias de um Portugal imperial. Muitos podem enxergar na cena
a saudade dos antigos navegadores portugueses.
Aqueles que mais do que descobrir terras distantes,
abriram caminho para os massacres de quem nelas vivia pelos europeus.
Essa idéia também está perigosamente combinada

com a cena da leitura da placa, em Marselha.
Trata-se de uma placa fixada no chão,
assinalando a chegada dos gregos à cidade,
sete séculos Antes de Cristo.
As palavras gravadas afirmam que a vinda dos gregos
é a inauguração da própria civilização por aquelas paragens
e ponto de partida de sua difusão pela Europa.
Parece a tese hoje bastante combatida de que fora
e antes da civilização ocidental há um vazio.
Na melhor das hipóteses, habitado por bárbaros.
Aprendendo com pessoas normais e atravessando idiomas
Essa impressão fica mais moderada

quando a viagem estende-se até o Egito,
o que desloca a viagem para o continente africano,
ainda que continue perto do berço mediterrânico da sociedade ocidental.
É nesta cena também que Rosa explica a Joana
que trabalho escravo foi utilizado na construção das enormes pirâmides.
E que, portanto, as maravilhas ali presentes custaram vidas humanas.
E que a civilização é assim mesmo, contraditória e cheia de erros.
Essa consideração melhora a situação do filme.
O passeio por Istambul também ajuda,
quando a mãe explica à filha que os muçulmanos
têm o direito a sua religião,tal como os cristãos.
Outro aspecto do filme é a recuperação da idéia da viagem

como momento de conhecer pessoas e outras tradições
e não apenas ruínas, monumentos e curiosidades.
O fato de ser historiadora permite a Rosa Maria
passear pelos lugares turísticos sem precisar integrar
os rebanhos de turistas levados por seus guias tagarelas.
Mais uma vantagem da professora é seu domínio do inglês e do francês.

Isso também lhe dá a chance saber o que ignora com pessoas normais,
como o pescador em Marselha, o padre ortodoxo na Grécia
e o ator português no Egito.
Sem isso, o viajante fica como a pequena Joana,
excluída de algumas conversas.
Aliás, é como ficaria o público de muitos lugares do mundo
se o filme não trouxesse legendas. Até do Brasil.
Pode parecer exagero, mas há um razoável distanciamento

entre o português de vogais fechadas e consoantes ásperas dos lusitanos
e o modo brasileiro de falar.
Influenciados pelos indígenas e negros,
expandimos as vogais e suavizamos as consoantes.
Essa situação dá ao filme de Manoel de Oliveira
um sabor diferente para nós, que falamos português do lado de cá do oceano.
É o que ocorre, por exemplo, na tradução da frase
"o vulcão deitou lava e cinzas", mais literária,
pela forma mais técnica presente em "o vulcão expeliu lava...".
Esquemas não dão conta da riqueza simbólica das línguas
A sucessão de paisagens dá lugar

a um debate travado durante um jantar no restaurante do navio.
Envolvidos nele estão o comandante da embarcação (John Malkovich)
e três senhoras. Uma é italiana (Stefania Sandrelli),
outra é grega (Irene Papas) e a terceira é francesa (Catherine Deneuve).
O capitão é norte-americano,
como calha a quem representa a nação que dirige o mundo.
Falando cada um em sua língua natal,
eles se entendem perfeitamente.
Discutem amor, profissões, sonhos, frustrações etc.
A conversa é inteligente e delicada,
que é dominada por mulheres cultas e européias.
O momento que nos interessa é aquele em que Maria e sua filha

juntam-se ao grupo, convidadas pelo capitão.
Desta vez, as mulheres poliglotas admitem não dominar o português.
Talvez, a cena tenha como objetivo mostrar a marginalização de Portugal
em relação ao restante da Europa.
Algo que outro português procurou fazer na literatura.
Estamos falando de "A Jangada de Pedra", de José Saramago.
De qualquer maneira, Maria se dispõe a falar inglês.
Fica clara a atual condição universal do idioma inglês.
O incidente leva Helena, a senhora grega,

a lamentar a situação de sua língua natal,
fazendo uma comparação com o idioma português.
Esta última é falada pelos que dominaram o mundo nos séculos 16 e 17,
diz ela, tal como os gregos o fizeram na Antiguidade.
Mas, a língua lusitana está presente em vários continentes,
ao passo que o uso do grego ficou restrito a sua terra de origem.
No entanto, Helena consola-se com o fato de que palavras de seu idioma
estão presentes em praticamente todas as línguas ocidentais.
E lembra alguns exemplos como "telefone" e "quilômetro".
não lembrou de dizer "cinema" e "televisão".
Esta conclusão alegra a todos,

mas também serve para nos lembrar que a língua
e outras esferas da vida cultural são muito mais ricas e dinâmicas
do que querem alguns esquemas.
Não há uma relação mecânica entre a economia, por exemplo,
e a criação simbólica presente na linguagem.
É verdade que o inglês impera porque impera
a dominação anglo-americana no planeta há uns 200 anos.
No entanto, nos próprios Estados Unidos, já surgiu o "spanglish".
Uma mistura entre espanhol e inglês
que apareceu devido à enorme presença dos hispânicos em território ianque.
O fenômeno já está assustando os conservadores norte-americanos.
Um deles chegou até escrever um livro,
preocupado com a corrupção dos valores ianques
por elementos culturais que lhes seriam estranhos.
Trata-se de "Quem Somos: Desafios à Identidade Nacional Americana",
de Samuel P. Huntington.
É a força-de-trabalho barata e superexplorada
vindas dos sul que se vinga de seus exploradores
"contaminando" sua poderosa língua.
Se a vingança dos debaixo em terras americanas
vai ficar apenas na ameaça cultural ainda é uma questão em aberto.
A ação sem palavras é bruta e cega
Voltando ao filme, seu trágico final

corre o perigo de provocar uma leitura equivocada das intenções do diretor.
Há o risco de que a destruição do navio apareça
como mais uma ação bárbara contra os "civilizados".
Uma condenação do fanatismo oriental,
incapaz de reconhecer o saber
e a moralidade superiores do Ocidente.
Por outro lado, durante o debate entre as três senhoras e o capitão,

a União Européia também é lamentada por seus próprios defeitos.
E nem poderia ser diferente.
Nobre e culta como aparenta ser,
a Europa foi palco para monstros como Hitler, Mussolini, Franco e Salazar.
A tão decantada Grécia foi governada por uma ditadura sanguinária
em plena década de 60.
Hoje, a união do Velho Continente acontece
em um ambiente cheio de racismo e intolerância.
Tudo sob os olhos conservadores de Tony Blair
e a careta fascista de Berlusconi.
Além disso, a cena final do filme

também permite uma conclusão crítica às pretensões ocidentais.
Trata-se da cara assustada do capitão ao contemplar a explosão.
O rosto congelado do norte-americano
enquanto passa o letreiro final parece dizer algo para o imperialismo ianque
e seus apoiadores na Europa.
O capitão olha assustado, como devem fazê-lo muitos norte-americanos
e europeus ao observar seus governos
colocando em marcha a máquina da guerra.
Combatendo aqueles que consideram selvagens, imorais e diabólicos,
Bush e aliados tornam o mundo bárbaro à sua própria imagem e semelhança.
O contrário disso é a relação bonita entre mãe e filha

através de palavras cheias de sabedoria, amor e respeito.
Elas simbolizam o que a humanidade pode ser.
A bola de fogo que destruiu essa possibilidade no filme
é uma ameaça concreta na vida real.
É preciso agir contra ela. Mas a ação sem palavras é bruta e cega.
Sem o verbo não há ação criativa contra o silêncio da destruição e do caos.
É o que ensinam textos antigos do Oeste e do Leste.
Sérgio Domingues integra a equipe do NPC e escreve

para as páginas Mídia Vigiada e Revolutas

Em 2009 participei pela primeira vez da FLIP,
me prometi não mais faltar, sempre que for possível.
Além da feira, dos livros, dos autores, da música,
da poesia, da festa, dos lançamentos,
PARATI (Rio de Janeiro) nos põe cativos dos seus encantos!
(vejam postagem em 2009)


FLIP 2010: Sai Bandeira, entra Freyre

A FLIP (Feira literária Internacional de Parati)
chega ao final de 2009 com importantes definições para o próximo ano:
a 8ª edição acontecerá entre 4 e 8 de agosto de 2010
e homenageará o sociólogo Gilberto Freyre.
Com a crescente atuação do Brasil no cenário internacional,
bem como o bom desempenho da economia
e a seleção do país como sede da Copa do Mundo de 2014
e das Olimpíadas de 2016, a escolha de homenagear o autor
que primeiro analisou a constituição da sociedade brasileira
sob perspectiva positiva promete incentivar acaloradas discussões em Paraty.
Fique atento às atualizações do site para obter mais informações
sobre a homenagem e sobre a programação da FLIP 2010,
acesse o blog da FLIP e ouça o podcast
com o diretor de programação comentando a escolha do autor homenageado.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

CANÇÃO ÓBVIA

Escolhi a sombra desta árvore para
repousar do muito que farei,
enquanto esperarei por ti.
Quem espera na pura espera
vive um tempo de espera vã.
Por isto, enquanto te espero
trabalharei os campos e
conversarei com os homens
Suarei meu corpo, que o sol queimará;
minhas mãos ficarão calejadas;
meus pés aprenderão o mistério dos caminhos;
meus ouvidos ouvirão mais,
meus olhos verão o que antes não viam,
enquanto esperarei por ti.
Não te esperarei na pura espera
porque o meu tempo de espera é um
tempo de que fazer.
Desconfiarei daqueles que virão dizer-me,
:em voz baixa e precavidos:
É perigoso agir
É perigoso falar
É perigoso andar
É perigoso, esperar, na forma em que esperas,
porquê êsses recusam a alegria de tua chegada.
Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me,
com palavras fáceis, que já chegaste,
porque êsses, ao anunciar-te ingênuamente ,
antes te denunciam.
Estarei preparando a tua chegada
como o jardineiro prepara o jardim
para a rosa que se abrirá na primavera.
Paulo Freire, Genève, Março 1971.



















Farol da Barra, Salvador-Bahia