quarta-feira, 17 de março de 2010

Candura!!!

Leio "CLARICE" e tenho escrito sobre Chico Buarque.
Encontro a esse tempo, bilhete escrito por ela,
cheio de candura.

significados de candura:
qualidade de cândido;alvura;inocência;ingenuidade;pureza;
simplicidade.


Chico,

Eu poderia dizer isso pessoalmente, mas tive medo de me emocionar.
Você sabe que não me seria difícil convidar
o que se chama de personalidades para a minha casa .
Mas não foi por você ser uma personalidade que chamei.
Convidei porque, além de ser altamente gostável,
você tem a coisa mais preciosa que existe: candura.
Meus filhos têm.
E eu, apesar de não parecer, tenho candura dentro de mim .
Escondo-a porque ela foi ferida .
Peço a Deus que a sua candura nunca seja ferida
e que se mantenha sempre.

Clarice (1971)

terça-feira, 16 de março de 2010

TEMPO





Santa Cruz/ Portugal










*****************************

....TEMPO

O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...
Mário Quintana

O tempo não só cura, mas também reconcilia.
Victor Hugo

O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada,
o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções.
Martha Medeiros


Tempo, tempo, tempo, tempo........
Hoje faz exatamente um ano que cheguei a Lisboa.
Dei-me conta do quanto rapidamente passou esse ano.
Outro dia, outras horas, outros momentos.
Apreciava a luz do céu de Lisboa,
olhava maravilhada o por do sol tardio,
e encantava-me com as praias e suas águas frias,
Luminosas e cheias de esperanças.
Apreciava a Lagoa de Óbido
E a Foz do Arelho,
Apreciava as falesias de Santa Cruz,
Vistas do alto,
E a beleza da Praia Azul,
Onde a mim pertencia tanta imensidão.
Apreciava os pinheirais,
as praias desertas da costa portuguesa,
Apreciava o tempo correndo,
E antevia o fim..............

terça-feira, 9 de março de 2010

CHICO BUARQUE na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

"Você não gosta de mim, mas sua filha gosta......" (Chico Buarque)


Quando estive no Rio de Janeiro, em janeiro deste ano,
encontrei uma preciosidade na livraria da Biblioteca Nacional:
o livro "Chico Buarque, o Tempo e o Artista".
Uma edição bem brasileira,dificilmente encontrada fora do Brasil.
O SESC (Serviço Social Comercio) publicou,
com a curadoria de Zeca Buarque Ferreira,
edições e textos Regina Zappa.
(Posto novamente sobre o livro)

Meu pai foi um amante da boa música.
Proporcionou-me o conhecimento da música clássica,
as valsas, as grandes orquestras, o jazz, o som do sax,
os tangos, boleros, a música internaciional,
as grande melodias do cinema, óperas,
além da grande música popular brasileira da época,
principalmente a música romântica.
Apreciava a música na sua essência;
as palavras, os sons e o rítmo,
diziam mais que simplesmente o gênero musical.
Assim começava a minha grande paixão pela música,
diversificada, diferente do que ouvia a maioria dos amigos.
Entretanto a música romântica, era a mais ouvida por meu pai.

Depois veio o Iê-Iê-Iê, a Jovem Guarda, os Beatles
a Bossa Nova, a tropicália, e toda música popular brasileira dos anos 60, 70.
Inusitadamente meu pai não aderiu a ela.
Os novos registros, rítmos, sons, as dissonantes,
as canções de proteto, os grandes festivais, marcavam época.
Predominavam os temas sócio-políticos.
A música popular brasileira, a partir daí,
seria grande instrumento de denúncia da falta de liberdade.
Os nossos poetas se especializaram na metáfora.
Chico Buarque entre outros, cultivou a metáfora.
O que o verso dizia não era exatamente o que o verso dizia.
Chico foi o meu primeiro ídolo.
Dele também foi o primeiro disco presenteado por uma amiga, aos 15 anos,
onde Chico posava ao lado do violão,
na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.
No meu quarto um grande poster do cantor, com a camisa do Fluminense,
levou-me a aprender o hino do tricolor e tornar-me fã do time carioca.
Foram também de Chico todas as letras memorizadas detalhadamente,
admiradas e sentidas com emoção.

Não consegui tornar meu pai fã do Chico,
costumava dizer que meus cantores prediletos não "possuíam voz".

Falando em música, lembrei-me de um acontecimento insesquecível,
apesar da música não ser do Chico.
Em 2008, no som do meu carro, meu pai ouviu "Fascinação".
Creio que foi a última conversa que tivemos sobre música.
Ele confidenciou-me que era sua música predileta,
e ouviu repetidamente com emoção.


Fascinação

Os sonhos mais lindos, sonhei
De quimeras mil, um castelo ergui
E no teu olhar tonto de emoção
Com sofreguidão mil venturas previ
O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria, entontece
És fascinação
amor
Vivo com o passado, a sonhar
Vendo-te, ainda, em meu coração,
Mas, tudo, promessas, quimeras, mentiras,
Da tua Fascinação









Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro/Brasil
Suntosidade e beleza!

AOS AMIGOS QUERIDOS, UM TEMPO DA DELICADEZA..........


Todo Sentimento
(Chico Buarque)

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado seu
Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado seu

sábado, 6 de março de 2010

ANTÓNIO LÔBO ANTUNES

Ó pastorinha de vitral e bruma

agora, que ela tem noventa anos, olho-a e não a vejo com a sua idade,
vejo uma rapariga, igual à dos retratos antigos,
alguns mais antigos que eu, às vezes contente, às vezes séria,
ainda menina, ainda adolescente, ainda jovem mulher

4:50 Quinta-feira, 4 de Mar de 2010

A minha mãe diz que na altura em que eu era bebé lhe doía a boca de me dar beijos.
Não me lembro deles mas alguma parte minha deve ter saudades
desse tempo porque sinto a falta de qualquer coisa que não sei exprimir,
qualquer coisa leve e doce, um contacto, palavras, cheiros,
uma espécie de ninho de que eu fosse o ovo feliz, um ovozito de nada, pintalgado, minúsculo.
É curioso: agora, que ela tem noventa anos, olho-a e não a vejo com a sua idade,
vejo uma rapariga, igual à dos retratos antigos, alguns mais antigos que eu,
às vezes contente, às vezes séria, ainda menina, ainda adolescente, ainda jovem mulher.
Um desses retratos, não sei bem qual, foi tirado num fotógrafo que pôs uma cópia na montra.
Ao passar pela montra, tempos depois, o meu avô não deu com ele.
O homem da loja acabou por confessar tê-lo vendido a um estudante
que se apaixonara por aquela imagem.
Resultado: cena do meu avô ao fotógrafo e atrapalhadas explicações do sujeito
que prometeu recuperá-lo.
Semanas depois apareceu a devolver o papel, desfeito em desculpas,
no medo que o meu avô o devorasse à dentada.
Nas costas, a lápis, o rapaz escrevera uns versos de António Sardinha

Ó pastorinha de vitral e bruma
Que sobre mim a tua graça entornes

e, ao repetir estes versos, a minha mãe iluminava-se, de tão feliz.
Nunca o disse mas estou seguro de haver sido o que de mais bonito lhe aconteceu na vida
(o meu pai nem sequer tocava ao entrar em casa) e que,
toda a sua existência, este episódio a acompanhou,
e acompanha ainda, como uma lâmpada secreta.
De quando em quando recito-lhe poemas de António Sardinha

Seguem-te os alicornes mansamente
Pastando neve na montanha azul

e ela, de pálpebras descidas, a sorrir.
Este episódio, quando a minha mãe era pouco mais que uma criança,
ficou-lhe para sempre na alma, e o tal estudante tornou-se
como que o halo de um ideal que não chegou a viver.
Trazia uma assinatura por baixo, contava ela, mas o teu avô apagou-a,
e a lembrança da assinatura apagada ensombrecia-a.
A voz tornava-se-lhe mais lenta
- Nunca soube quem era
e depois vieram muitos filhos, desgostos, o casamento com um homem difícil,
meia dúzia de coisas boas, espero, e as palavras de António Sardinha
a mostrarem-lhe o que devia existir e não viveu nunca:

Se eu te pintasse posta na tardinha
Pintava-te num fundo cor de olaia;
Na mão suspensa, nessa mão que é minha,
O lenço fino acompanhando a saia
a minha mãe, depois de silêncios compridos, um
- Pois é

baixinho com um mundo inteiro dentro, cheio de tudo o que não sucedeu.
Seriam para mim, mãe, os beijos que lhe faziam doer a boca?
Seja sincera, eu não me importo.
Ou então, se calhar, só uma parte me cabia.
A outra destinava-se a uma assinatura apagada pelo meu avô,
um estudante que a ajudou a sonhar anos e anos

Deixa cair dos lábios de medronho
A perfumada voz do nosso sonho
Mas tão baixinho que só eu entenda

diante da injusta dureza dos dias. Ao pensar nisto, sabe,
acho que a compreendo melhor: o desejo de ser idealmente amada,
a magra consolação

- Valeu a pena casar-me pelos filhos que tive
e a possibilidade de se aproximar de um rapaz tão romântico, tão sensível, e que,
segundo o fotógrafo, se desfez em desculpas aflitas. Como seria ele, não é, mãe?

Vejo-te assim, ó asa de andorinha,
Com ar de infanta que perdeu a aia
Envolta nessa luz que te acarinha
Na luz que desfalece e que desmaia

Sabe, não se preocupe, continua a ser a pastorinha de vitral e bruma,
a palpar o caminho quase cega, ou numa cadeira da sua saleta, à espera de nada.
Ou, então, na esperança oculta que o estudante que comprou o retrato na loja, lhe chame,
ao ouvido, pastorinha de vitral e bruma e os seus olhos tornem a ver,
os membros difíceis se desatem, não precise de remédios nem de médicos para nada e,
envolta numa luz que a acarinha, se dirija não sei para que sítio,
onde um júbilo sem manchas a espera.
De uma das últimas vezes perguntei
- Como se sente?
uma espera difícil
- A desfazer-me aos bocados
e, palavra de honra, tive ganas de ser eu o estudante,
rodeado de alicornes a pastarem neve na montanha azul:
nesse caso, percebe, podia pegar-lhe na mão,
nessa mão que é minha entornava a sua graça sobre mim e partíamos os dois

Linda menina ingénua de Velásquez
A flutuar num mar de seda e renda

sem tocarmos no chão, desprovidos de peso, no sentido do lugar onde está o seu pai,
a sua mãe, os seus manos, tudo aquilo que desejou e não teve, que quis e não lhe foi dado.
Claro que sou apenas seu filho: mas talvez que se lhe doer a boca de me dar beijos valha a pena. Guardo alguns no bolso para o caso do rapaz que comprou a fotografia aparecer.
Então entrego-lhos
- A minha mãe manda isto
e aposto que os seus olhos, por um momento que seja, o conseguirão ver,
enquanto eu fico, um pouco à parte, tão comovido com a sua beleza,
a repetir não para si, para mim

Se eu te pintasse posta na tardinha
Pintava-te num fundo cor de olaia

e nunca mais ninguém a torna triste.

ANTÓNIO LÔBO ANTUNES, publicado em Visão, PT, em 4/03/2010

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

NATAL - RIO GRANDE DO NORTE - BRASIL

NATAL, UM DESEJO......

Um dia Natal,
Por do sol, luar e mar aberto.
Praias largas, longas e barcos sem vela,
A balançar e convidar ao amor.
Um dia Natal,
Lembranças, saudades,
Tempo que não houve,
sonhado, esperado....
Natal, um desejo!

Natal é uma cidade brasileira, capital do estado do Rio Grande do Norte.
A cidade nasceu as margens do rio Potengi e do Forte dos Reis Magos,
no extremo-nordeste do Brasil numa região chamada "esquina do continente" .
É conhecida como a "Cidade do Sol" ou "Noiva do Sol"
por ser uma das localidades com o maior número de dias de sol no Brasil.
É a capital brasileira mais próxima do continente europeu,
estando situada numa espécie de triângulo natural
com um vértice para o norte,
que é banhado de um lado pelo Ri Potenji
e de outro pelo Oceano Atlântico, recebendo ventos constantes,
condição que lhe concedeu o título, segundo a NASA,
de cidade detentora do ar mais puro e renovável do continente sul-americano.
Está localizada no litoral do estado,
numa região essencialmente cercada de dunas
com uma altitude média de trinta e três metros acima do nível do mar.
Fundada num dia de Natal, em 25 de dezembro de 1599,
o nome do município tem origem do latim natale e,
segundo escritores, tem ligação direta com a data de fundação da cidade.
Duas teses para o fundador da cidade:
a primeira diz que o sítio primitivo da cidade
foi demarcado por Jerônimo de Albuquerque no dia 25 de dezembro de 1599.
Outra tese, é que um capitão chamado Manuel de Mascarenhas,
chegou aqui com a missão de construir um forte e uma cidade para que assim fortalecesse a posição de Portugal e afastasse qualquer possibilidade de invasão.























Carmen e Regina,
grande parceria, ótimos momentos!




















Praia de Pipa, Natal,
beleza extasiante!!!!































Morro do Careca, Natal.







quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

ENVELHECER, A ARTE!

TOSHIKO ISHII

Nasceu em Kyoto, no Japão em 17 de janeiro de 1911.
Ceramista autodidata.
Transferiu-se para o Brasil em 1931,
vindo morar em Minas Gerais em 1970,
onde começou sua atividade com cerâmica.

Inverno de 2005, Junho!

Ouvíramos falar de Toshico,
Sua arte, sua beleza, a mulher forte e tenaz.
Sabíamos da sua fragilidade física,
Da idade avançada.
Queríamos conhecê-la,
E partimos para Minas Gerais.
Visitar Toshico, conhecer sua cerâmica, sua obra,
Certamente mudou nosso olhar. (Fotos na próxima postagem)

Em 2007, morre Toshico!


Aprendizes da humildade e da beleza
OLHAR

A artista japonesa Toshiko Ishii viveu no Brasil por várias décadas,
deixando marcas na arte da cerâmica e da convivência humana
Em 30 de julho, a arte perdeu uma de suas figuras humanas mais admiráveis.
A pequena Toshiko Ishii, ceramista dona de técnica milenar,
depois de muitas décadas vivendo no Brasil, morreu aos 96 anos.
Discreta como sempre foi, apenas amigos próximos
acompanharam os últimos momentos da artista.
Além de peças de beleza única, Toshiko foi mestre de uma geração de artistas mineiros.
Em Piedade do Paraopeba, na região de Brumadinho,
Toshiko montou seu ateliê em meio às montanhas, pedras e plantas.
Toda a matéria de sua arte, todas as cores de suas peças,
toda a motivação de sua vida se dispunham à sua volta.
Toshiko trazia para a cerâmica a memória de sua gente,
as lições de seus mestres (ela conviveu com a artista Tomie Ohtake em Kioto)
e a ética exemplar de não separar a utilidade da beleza.
Em busca de suas lições, como seguindo uma tradição mística,
vários artistas seguiram seu exemplo e, num tropismo esteticamente orientado,
trataram de montar ateliês na vizinhança de Toshiko.
Foi assim que as ceramistas Inês Antonini, Erli Fantini e Adel Souki
se estabeleceram nas curvas das mesmas serras,
sob a luz do mesmo horizonte, para aprender com o ritmo das mãos de Toshiko.
Não se tratava de uma comunidade acadêmica, mas de um falanstério artístico.
As ceramistas procuraram estar perto de Toshiko,
que chegou à região em meados dos anos 1970.
Até o fim da vida, a artista nipo-brasileira falava português com dificuldade.
A comunicação, como em suas peças, se dava de alma para alma.
A proximidade com Toshiko traduzia outra via para o ensino: a ética dos mestres.
Em Grande sertão veredas, Guimarães Rosa escreveu que mestre
não é o que ensina, mas o que, de repente, aprende.
Ensinar, de certa maneira, é exercitar a dúvida em companhia de pessoas próximas.
O ensino só é possível para quem se dispõe a aprender.
A arte pedagógica de Toshiko se dava a partir dos elementos da natureza, como o barro.
Sua mestria era dar voz ao fogo.
A técnica de Toshiko exigia um forno tradicional japonês,
aparentemente frágil, mas capaz de chegar a 1.300 graus.
A alta temperatura exige atenção e cuidado.
O forno precisa ser alimentado com método e carinho.
A queima, que pode durar muitos dias, colocava a frágil Toshiko em guarda,
com suas colaboradoras, em torno dos caprichos dos elementos.
Imaginar a cerimônia de moldar as peças, escolher os pigmentos,
acender o fogo e tratá-lo como a uma criança,
aguardar a passagem das horas e se abrir à expectativa do resultado final
é entender um pouco da transmissão da arte de Toshiko.
Ela fabricava beleza como quem ensina ao mundo que é preciso tempo.
Ela ninava o tempo com zelo, como quem sabe que a beleza dá sentido à existência.
No trabalho de Toshiko, nada se perdia.
Suas obras trazem inclusive a marca das cinzas
que se desprendiam da lenha, criando texturas.
Era algo não controlável, como as cores que daí brotavam.
A artista era mestra do ofício da cerâmica
e por isso humilde a seus caprichos.
O que acrescentava de seu ao material era a humildade.
A atitude de suas alunas, que mudaram de vida
para compartilhar a proximidade com a mestra,
não deixa de ser uma de suas obras mais importantes.
A marca de Toshiko, mais que a matéria de que são feitos seus objetos,
está na sensibilidade que ela desenvolveu em torno de seu exemplo.
O calor de sua experiência moldou outros caminhos artísticos.
A arte existe, também, para criar mais arte.
Passamos todos nós a vida em busca de exemplos.
Quase sempre trocamos a rica experiência da proximidade com pessoas excelentes
pelo prazer da fruição de resultados de pessoas eficientes.
Somos escravos do sucesso.
A tradução da vida bem realizada em torno de índices materiais se tornou um absoluto,
um triste equívoco existencial.
Quase sempre os mestres não deixam nada que justifique sua vida.
Alguns livros, umas poucas peças de barro queimado, poemas e discípulos.
Quem não entende a beleza da vida consagrada ao aprendizado
jamais vai se emocionar ao ler Aristóteles confessar que sua vida
podia ser resumida assim: %u201CNasceu, trabalhou, morreu%u201D.
Os dois limites da vida são sempre solitários.
É no meio que se desenha nossa maior possibilidade de humanização:
somos seres para o outro, para a aprendizagem, para o compartilhamento.
Viver deve significar exatamente isto: o projeto de ser com o outro, a sede de comunhão.
Há muitos caminhos ensinados pela história.
Alguns deles dividem os homens em grupos
donos de verdades que não se misturam e geram ódios.
Outros parecem sorver a inclusividade como destino maior da nossa espécie.
O sentimento de fraternidade é o limite máximo
de nosso processo de construção como seres humanos.
Se a religião e a política parecem se nutrir do primeiro elemento,
que divide em nome de uma síntese arbitrária,
a arte parece carregar o condão do segundo caminho,
pois tem como projeto vencer pela beleza.
Toshiko foi aos elementos mais duros
e à tradição mais arcaica para reescrever essa história.
No caminho encontrou alunas e pessoas capazes de entender seu esforço,
respondendo à sua arte com a emoção e a seu ensinamento com a humildade.
João Paulo (Editor de Cultura/ Cunha)