sexta-feira, 16 de outubro de 2009

" Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas "
Mia Couto
*************
Eram 17:30,
final de um dia quente, longo, cheio de significantes, poesia,
dúvidas e certezas!
O sol estonteante, firme, sabe bem certeiro ao alvo .
Exito, olho, voltam as reminiscências,
Perto ainda, quentes, pulsam, doem,
Vem o poeta, sublime ,
inspira-me, pede a palavra,
embriaga a alma.






Por do sol, farol da Barra,
Salvador, Bahia, Brasil














DESDE SEMPRE .................

"Desde = a começar de
Sempre = em todo o tempo, eternamente, todo tempo passado ou futuro".


"Herdei uns olhos claros, sem pecado,
toda uma tradição, todo um passado,
de inocência, de amor e de perdão.
Um desejo de paz, de vida calma,
uma alma capaz de só ser alma,
E um doloroso, humano coração."
Fernanda de Castro

Tempo, Mudança,
Possibilidades,
Sempre!
"Na minha terra ..há uma estrada tão larga.. que vai de uma berma à outra..
É uma estrada..por onde não se vai nem se volta..
Uma estrada feita apenas para desaparecermos..... " MIA COUTO



Não a conheço ainda.
Íngreme talvez, escorregadia,
Pontiaguda, tortuosa,
Inevitável caminho,
Inconfundível solidão,
Não sei se vou ou se volto,
Sei que sou,
Só,
Eu.



Cabo da Roca, PT

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono".
- Guimarães Rosa

terça-feira, 6 de outubro de 2009

04.10.2009 Mercedes Sosa

Fiquei mais triste, morreu Mercedes Sosa.
Tinha exatamente desessete anos quando conhecí sua música,
e nunca deixei de ouví-la.
Depois de longo exílio, Mercedes voltou a Argentina em 1983,
após os duros anos da ditadura,
uma voz que entretanto nunca se calou apesar de tudo.
Se pudesse colocaria aqui todas as músicas
que me encantavam quando ouvia a voz de Mercedes.
Foi com "Gracias a la vida", "Volver a los 17", "Todo cambia",
"Duerme negrito" , "Alfonsina y el mar",
que compreendí a força e a poesia desta mulher.
Com ela muitas vezes aprendí o verdadeiro sentido da luta pela liberdade,
uma liberdade de sentir e de pensar,
e admirei imensamente aquela mulher forte,
tenaz e que possuía um carisma inigualável.

Em particular lembro quando em 1980
Mercedes Sosa veio a Salvador pela primeira vez
e assiti na primeira fila do Teatro Castro Alves um show inusitado,
algo que nunca havia visto antes,
uma mulher, com tamanha força e capacidade de levantar toda a platéia.
Chamou a todos para subir ao palco e fui lá.
Jamais a esquecí, e junto com Violeta Parra,
iniciei a colecionar discos e músicas.
Volto a revê-la ano passado, com a mesma força e emoção.

De tantas músicas que gosto, posto aqui
uma que me encanta particularmente
e se a ouvírem com certeza entenderão.

http://www.youtube.com/watch?v=yzUAUv16x6k&feature=player_embedded#

"Como La Cigarra"

Tantas veces me mataron,
tantas veces me morí,sin embargo estoy aquí resucitando.
Gracias doy a la desgracia y a la mano con puñal,
porque me mató tan mal,y seguí cantando.
Cantando al sol,como la cigarra,

después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.
Tantas veces me borraron,

tantas desaparecí,
a mi propio entierro fui, solo y llorando.
Hice un nudo del pañuelo,
pero me olvidé después
que no era la única vez
y seguí cantando.
Cantando al sol, como la cigarra,

después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.
Tantas veces te mataron,

tantas resucitarás
cuántas noches pasarás desesperando.
Y a la hora del naufragio
y a la de la oscuridad
alguien te rescatará,para ir cantando.
Cantando al sol, como la cigarra,

después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.


"Tinha que ser um domingo, quando tudo parece se deter
e por algumas horas o mundo fica mais reconcentrado
no que realmente importa: os afetos, os que estão e os que se já se foram.
E um domingo se foi a voz da América Latina,
a voz que sustentou punhos em alto, que acompanhou levantes,
que impulsionou esperanças, que balançou as faixas nas passeatas,
que empunhou as armas da libertação deste continente dolorido.
“La Negra Sosa”, como era carinhosamente conhecida,
foi muito mais do que uma cantora única,
com um timbre de voz inconfundível
e uma interpretação que a elevava a co-autoria das músicas
que apresentava mundo afora, foi o ícone,
a assinatura melodiosa de uma época que sem a sua voz,
perderia muito do seu significado histórico/político.
Sabemos que o Che Guevara carregava na mochila
nos seus últimos dias na Bolívia,
um exemplar do Canto General de Pablo Neruda.
Sabemos de estudantes, operários,
e intelectuais que iam para as lutas ou para os calientes debates dos anos 60, 70 e 80 munidos dos seus livros “de combate”
e as suas músicas de vanguarda revolucionária.
Pois bem, a voz de Mercedes Sosa acompanhou,
como um espírito constante e eficaz, como um anjo da guarda mestiço,
uma Virgem dolorosa do sul, uma mãe dos humildes,
uma necessária Pachamama cantora, cada momento,
cada caída e cada alegria nessa persistente luta pelos direitos humanos, impulsionando sempre a História através do seu canto de outra dimensão que quando tomava o microfone baixava à terra para fazermo-nos sentir que éramos algo mais que simples homens, motores da máquina capitalista.
O prodígio da sua voz e seu escolhido repertório
do melhor que o continente produziu
em termos de composições que afundaram suas raízes na terra americana, continuará ressoando em cada recanto do mundo e especialmente,
nesta nossa Abya Yala, do Atlântico ao Pacífico,
do rio Bravo à Terra do Fogo, até o fim dos tempos,
porque essa voz, esse som do âmbito do inexplicável,
só pode vir de algum lugar de onde agora Mercedes Sosa,
continuará cantando assim:
“Tantas vezes me mataron, tantas me morí, sin embargo estoy aqui, resucitando...”. " (Carlos Pronzato é poeta e cineasta/documentarista).

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

"Não te gosto em silêncio porque te sinto distante...
entre tua boca e a palavra mora talvez minha angústia
como entre o dia e a noite
vacila a longa dúvida do crepúsculo.
Não te gosto em silêncio, quando há em teus olhos, pousados,
dois estranhos pássaros noturnos,
e teus lábios emudecem como a fonte nos ásperos
e intermináveis invernos.
Não te gosto em silêncio quando te envolves com as coisas
que te cercam, como se fosses uma delas,
quando estás como as águas paradas, cuja beleza
é apenas o reflexo das estrelas.
Por isto te provoco e te atiro perguntas
como pedras quebrando a impassibilidade do lago,
como pancadas no gongo que estremece e vibra
e te traz à tona para mim.
Não te gosto em silêncio, porque parece que atrás de sua voz
ainda se esconde alguem tu próprio não conheces,
há alguém embuçado a ameaçar nosso sonho
e que só tuas palavras poderão expulsar.
Não te gosto em silêncio,
porque preciso ainda de tua palavra para te descobrir,
lanterna adiante de meu passo, alvorada desenterrando
na noite emaranhada meu indeciso caminho.
Porque preciso ainda que tua palavra chegue como vento forte
arrastando nuvens, limpando céus e horizontes,
levando folhas doentes, te descobrindo ao sol....
Um dia te gostarei em silêncio.
E então me recolherei em teu silêncio,
e procurarei a sombra, como o pássaro na hora da tarde,
e porque o sol estará em nós e nada turvará meu pensamento,
entre tua boca e a palavra haverá apenas um beijo".
J. G. de Araújo Jorge
Corumbau, Sul da Bahia/Brasil
Set. 2008
"Sonho Desfeito"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

"Minhas alegrias são intensas.
Minhas tristezas, absolutas.
Me entupo de ausências, me esvazio de excessos.
Eu não caibo no estreito, só vivo nos excessos." Clarice Lispector


A primeira vez que vi as glicínias estava em Óbidos,
foi amor a primeira vista.
A segunda vez foi em Sintra, confirmei o amor,
A terceira vez em Caldas, da Rainha, pois sim,
Mas não consegui nomeá-las.
Esta semana voltei a encontrá-las,
Chamo-as glicínias,
Ponho-as aqui,
divido a beleza rara destas flores,
sabem ser delicadas e fortes, vigorosas,
Suaves e evidentes, marcantes,
Continuo encantada!

Recebí muitas, mesmo que virtuais!
Tem perfume, cheiram delicadeza, sensibilidade.







Glicínias























Foto minha em Óbidos,
primeiro olhar sobre as glicínias.