terça-feira, 28 de junho de 2011

BETTY MILAN

Quero compartilhar essa crônica da Betty;
tenho na minha cabeceira alguns livros dela,
dai nao preciso dizer o quanto admiro a sua fala.


Jovem até o fim



O que significa envelhecer?
Ouso perguntar o significado desse verbo,
que a moderni­dade ocidental baniria da língua se pudes­se.
No primeiro sentido do dicionário, en­velhecer é tornar-se velho.
Leio e releio a frase, que me remete a um amigo de infância,
Francis­co, precocemente envelhecido.
Continuo, no en­tanto, sem resposta.
Volto ao dicionário.
No segundo sentido, en­velhecer é tomar aspecto de velho:
Olho a foto do psicanalista francês Jacques Lacan que está na parede
e observo seus cabelos brancos.
Só que ele não se mostra envelhecido pelas suas cãs.
A intensidade do seu olhar evidencia a juventude do homem -
que permanecia jovem aos 74 anos, quando o conheci.
Só bem depois ele per­deu o aspecto jovial.


Nos outros sentidos fornecidos pelo dicioná­rio,
também não encontro uma resposta satisfa­tória.
No caso dos seres humanos, não se pode dizer que envelhecer é perder o viço. O homem não é um fruto.
Tampouco se pode dizer que é estar em desuso.
O homem não é um objeto.


A busca de uma definição precisa, por meio da língua, se revelou estéril.
Olho de novo para a foto de Lacan e concluo que o envelhecimento físico,
por si só, não é suficiente para caracteri­zar um velho.
Eu me pergunto, então, por que, ao contrário de Lacan,
meu amigo Francisco en­velheceu aos 60.
Citando - e comparando-se a - Pablo Pi­casso, o pintor espanhol,
Lacan dizia que não procurava as suas ideias, simplesmente as acha­va.
Um dia, declarou em um dos seus seminá­rios:
"Eu agora procuro e não acho".
Com essa frase, anunciou que a sua vida se apagava.
Pou­co depois, tomei o avião de volta para o Brasil.
Naquele período, a única razão para eu ficar na França
era a oportunidade de trabalhar com ele.


A juventude de Lacan, como a de Picasso, estava ligada à capacidade
de se renovar através do trabalho.
Duas vezes por mês, ele falava em público, para plateias de 1 000 pessoas, com ideias novas, uma atividade que demandava grande esforço.
Mais de urna vez, encontrei-o exausto, em seu consulrório.


Lacan foi um exemplo por nunca ter parado de começar.
Embora fosse um intelectual, meu amigo Francisco acreditou que,
a partir dos 60 anos, já não podia iniciar nada e,
por esse moti­vo, não parou de se repetir.
Não quis, inclusive, abrir mão de nenhum hábito da juventude.
Con­tinuava a comer, beber e fumar como aos 18.
Lamentava o tempo que passava, porém não aceitava o fato traduzido nas mudanças do corpo e, assim, recusava-se a encontrar soluções para a sua própria vida.
Só sabia dizer: "Na minha ida­de é assim".
Foi vítima de uma fantasia arcaica sobre o tempo e viveu na contramão, fazendo de conta que o tempo não existia.
Morreu precoce­mente por não ter sido capaz de entender que,
depois de deixar de ser natural, a juventude é uma conquista.


Revista Veja - por Milan,Betty

segunda-feira, 27 de junho de 2011

MEIA NOITE EM PARIS

Até Pensei
              (Chico Buarque)

Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia, toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre, tão pobre de carinho
Que, de tolo, até pensei que fosses minha
Toda a dor da vida me ensinou essa modinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha...


Foi por uma grande motivo que Woody Allen
abriu o festival de Cannes deste ano.
Uma ode de amor a Paris e aos seus habitantes ilustres,
através de roteiro criativo, alegre, lúdico e cheio de imaginação.

Um conto de fadas bem moderno,
aproximando-nos do cotidiano de ilustres nomes da França nos anos 20, 
como Picasso, Lautrec, Cole Porter, Hemingway, Scott Fitzgerald,
Salvador Dalí, Luís Buñuel, Matisse,T.S. Eliot e tantos outros.
Encanta-nos a boemia parisiense, a magia da noite
e a poesia nos diálogos e nas descobertas do personagem principal,
um jovem romantico e encantado com Paris.
“Se você tiver a sorte de ter vivido em Paris quando jovem,
não importa por onde ande pelo resto de sua vida,
leva isso junto, porque Paris é uma festa ambulante”,
escreveu Hemingway em Paris é uma festa, seu livro de memórias
publicado postumamente, em 1964.

No cinema esperei até conferir a trilha sonora, maravilhosa,

com belíssimos arranjos.
Cole Porter cantando "Let's do it",
abre e encerra  o filme de maneira brilhante.
Eis aqui:

Let’s do it – Cole Porter

Si tu vois ma mère – Sidney Bechet
You do something to me – Cole Porter
Ain’t she sweet – Enoch Light and the Light Brigade
Charleston – Enoch Light and the Light Brigade
La Conga Blicoti – Jospéhine Baker
You’ve Got That Thing – Cole Porter
Cancan – Offenbach
Parlez moi d’Amour – Juliette Greco

Além de tudo isso, W.Allen consegue questionar o sentido da vida.
O homem certamente vê mais poesia no tempo que passou,
achando que outro lugar e outro tempo seriam mais adequados
para a sua vida e para sua realização.
Também é inerente ao homem pensar que outras vidas
seriam melhores de ser vividas. Lêdo engano!
É muito interessante quando o personagem principal do filme,
Gil Pender (Owen Wilson), vê a personagem Adriana,
que vivia o papel da amante de Picasso,
ao voltar no tempo, fascinada pela Belle Époque,
que foi um período de cultura cosmopolita na história da Europa,
que começou no final do século XIX (1871).
Cada tempo tem seu fascinio, seu charme, sua poesia,
e traz novos modos de pensar e viver o cotidiano.



Meia Noite em Paris é para mim, acima de tudo, uma grande hstória de amor.
O amor de W.A pelo cinema, o amor por Paris,
pela música, pela literatura, pela vida! 

domingo, 26 de junho de 2011

Mas há a vida

que é para ser
intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.
           Clarice Lispector







SALVADOR - BAHIA

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Pierre Bergé & Yves Saint Laurent

Pierre Bergé a Yves Saint Laurent

"Il va falloir se quitter maintenant". "Je ne sais comment le faire parce que je ne te quitterai jamais. Nous sommes-nous déjà quittés? Même si je sais que nous ne regarderons plus le soleil se coucher sur les jardins de l'Agdal, que nous ne partagerons plus l'émotion devant un tableau ou un objet d'art, oui tout cela je le sais...". "Je veux te dire mon admiration, mon profond respect et mon amour".
No blog da Ana Clara, muitas homenagens a YSL. Belíssimo!

Não encontrei escrito na íntegra o  discurso de Pierre Bergé,
mas para quem quer apreciar a admiração e cumplicidade na voz de Bergé,
ouça a homenagem no link abaixo.

IVES SAINT LAURENT

No Blog da estilista paulista Adriana Rodrigues ( http://adrianarodriguesdesign.blogspot.com/),
encontrei esta síntese perfeita.
História e vida de YSL, escrita com muita sensibilidade e conhecimento,
de quem fala de moda com amor.
Parabéns Adriana!

POSTADO POR ADRIANA RODRIGUES



Yves Henri Donat Mathieu Saint Laurent
Se, de Nova York a Paris e de Sidney a Pequim, mais de dois milhões de visitantes admiraram suas criações no museu, seu estilo é expresso em primeiro lugar através da cor, da vida, do movimento e da história das mulheres, que ele acompanha com amor desde 1958, data de sua primeira coleção na Christian Dior, que o tornou célebre no mundo inteiro. Nascido em Oran, na Argélia, em 1956, ele tem apenas vinte e um anos quando o chamam de Christian II. Ele funda sua maison de costura em 1962 com Pierre Bergé, e lança em 1966 sua linha de prêt-à-porter "Rive Gauche", permitindo a milhares de mulheres conjugar elegância e conforto. Assim, a saharienne (1967) ou o terninho (1968) vão se tornar clássicos do guarda-roupa contemporâneo.
"Uma mulher feliz é uma mulher de saia preta, com um pulôver preto, meias pretas, uma jóia de fantasia e um homem que a ame ao lado".
Para se impor como o maior costureiro de sua época, esse esteta soube, mais do que ninguém, transcrever seus sonhos inspirados pelos pintores:
Andy Warhol, Mondrian e Tom Wesselrnan nos anos 60, Picasso nos anos 70, Van Gogh e Bonnard nos anos 80. Suas criações causaram escândalo, sejam as primeiras blusas transparentes (1968), ou o perfume Opium, lançado em 1977. Mas a sua força está também em encarnar ao mesmo tempo o classicismo absoluto, tendo como embaixatriz Catherine Deneuve. Herdeiro de Chanel e Balenciaga, ele se mantém fiel a essas linhas que não possuem qualquer detalhe em excesso:
"a elegância é urna maneira de se mover".
Grande colecionador, apaixonado por ópera, Yves Saint-Laurent é um dos últimos grandes estetas deste final de século. De Cyrano de Bergerac a A Águia de duas Cabeças, ele criou inúmeros figurinos para o teatro, sua primeira paixão. Sua arte é depurada e, de um sopro de musselina, ele recria sonhos dignos de um Botticelli, para dizer melhor:
"O mais belo ornamento de um homem ou uma mulher é o amor".


Primeiro costureiro a vestir as mulheres com transparências, Yves Saint Laurent também foi o primeiro a entrar, ainda em vida, para o museu. Foi em 1983, no Metropolitan Museum de Nova York. Seu nome é uma lenda. Sua griffe, um império. Seus desfiles, rituais.
Quarenta anos depois de sua coleção Trapézio, que lhe valeu o apelido de "o mais novo nome da alta costura", Yves Saint Laurent permanece um enigma, um anarquista bilionário capaz de declarar:
"Só lamento uma coisa, não ter inventado o jeans."
Primeiro costureiro a lançar um blusão negro (em 1960, na Maison Dior), e substituir os escarpãs por botas longas, ele é também um dos últimos a se submeter, com uma grande humildade, à obrigação que se impôs desde os anos de aprendizagem na Maison Dior...
"Todos os meus vestidos nascem de um gesto. Um vestido que não reflete ou não faz pensar em um gesto não é bom. Uma vez encontrado esse gesto, pode-se escolher a cor, a forma definitiva..."
YSL foi o primeiro costureiro a constituir sua própria coleção particular. Outro paradoxo, para aquele cujas roupas são feitas em primeiro lugar para as mulheres, e as que as vestirão: "Com Yves Saint Laurent a gente sente que existe um desenho por trás da roupa. Existe a mão, o olho, o espírito, esse gosto que encontramos nas operárias que conhecem o nosso corpo. O vestido existe porque elas observaram você, e elas sabem...", observa uma cliente.


Ex-primeira costureira do ateliê, Madame Renée desvenda, sem revelar, o mistério dos drapeados de Saint Laurent:


"A gente tenta captar o movimento de um sari, preservar o lado flexível do esboço. Quando eu experimento os modelos nas manequins, faço com que se movimentem pelo ateliê. É importante que elas se sintam ao mesmo tempo seguras e leves. O Sr. Saint Laurent detesta entraves. Ele tem horror à idéia de que uma mulher seja bloqueada ao caminhar."


Os escândalos YSL
Em 1966, sua see-through blouse provocou o maior escândalo nos Estados Unidos. Dois anos mais tarde, uma cliente que chegava a um restaurante em Nova York numa túnica-pantalona de jersey é proibida de entrar. Ela reaparece só de túnica (que virou um mini-vestido), e é aceita...


"Eu quero encontrar para as mulheres o equivalente do terno masculino", explicava ele em 1967, liberando a moda de suas histórias de comprimentos e cores, para fazê-la alcançar a época. Seu grande escândalo terá sido o de exaltar o corpo, de substituir a palavra elegância por sedução, acendendo o fogo do desejo, nos locais em que só cabiam conveniência e respeitabilidade.
A andrógina de Tom Ford não poderia ter nascido sem a amazona de YSL, declarando em 1966 o ano da coleção de prêt-à-porter Rive Gauche:


"A beleza? Nenhum interesse. O que conta é a sedução, o choque. O que se sente. É o puramente subjetivo. Pessoalmente, sou mais sensível ao gesto do que ao olhar, à silhueta ou a qualquer outra coisa..."


Foi ele quem quebrou as regras do jogo, falando de cores mais do que de "coloridos", esbanjando seus vermelhos, seus azuis e seus verdes, fazendo a costura oscilar no universo oriental dos bazares, dos souks temperados de visões. Desconhecidas, suas seis coleções na Maison Dior, entre 1958 e 1960, revelam em filigrana as obsessões de um jovem costureiro preocupado em dar continuidade à obra de seu mestre, e atraído pela época que se abre para ele, década de todas as liberações, segundo seu amigo Andy Warhol.


O vestido trapézio de 1958, que rompia com o modelo da mulher apertada, espremida do pós-guerra, anuncia a transição que será seguida por muitos outros: o caban (1962), o smoking (1966), a saharienne e os ternos masculinos (1967), o jumpsuit (macacão, 1968), e os vestidos transparentes (1969). Ela marca o fim dos diktats, cujas linhas sazonais da alta costura eram a tônica. Inspirada nos mercados das pulgas 2, a coleção de 1940 (1971), marcará a intrusão da "rua" na moda, fazendo de cada costureiro um antiquário em potencial


"O preto é meu refúgio, diz YSL, o preto é um risco numa página em branco".


Do preto, ele fez uma cor, um camaleão capaz de atravessar o dia e a noite, de romper a primavera e o inverno com a mesma força. Desse preto reservado às "cerimônias", ele fez um clássico cotidiano. Mas ele é também o costureiro da luz, aquele de quem os tons rosa - Toureiro, Magenta, Amor, Aurora - vibram e cintilam sobre a pele nua, fazendo de suas mulheres umas heroínas. Ao negro que simplifica, condensa, purifica opõem-se com ele, cor de todas as cores, esses vestidos de mil e uma noites, pousados como ornamentos sobre ídolos com corpo de ébano.


O costureiro camaleão


Aos vinte e um anos, ele parecia ter ficado velho. "Sua juventude foi completamente quebrada em 1958", diz sua mãe, Lucienne Mathieu Saint Laurent. Escondido por trás dos óculos, ele se revela nos anos 70, sob o porte de um adolescente, no papel de manequim para a coleção Rive Gauche para homem, chegando até a posar nu para as lentes de Jean-Loup Sieff, no lançamento de seu perfume. Uma estréia. Dândi em dufffle-coat à moda de Cocteau, Gatsby em terno branco, Swann em smoking, ele confunde, colorindo os cabelos, engorda, emagrece.


Primeiro a fazer da moda um espetáculo (coleção Ópera Balés Russos, 1976), ele foi o primeiro a prezar a solidão como um ídolo, a se deixar envelhecer, até mesmo para se proteger dos outros e dele mesmo. "Estou cada vez mais só. Não posso sair. Tenho medo do mundo exterior, da rua, da multidão. Só fico bem em casa, com meu cachorro, meus lápis e meus papéis..." afirma hoje YSL. Em sua solidão ele vê, critica a rua parisiense, prefere a ela "a energia de Nova York: essa maneira de misturar o esporte e a cidade, de não se desmoronar por trás de sua parka..."


As vertigens da arte


Em 1959, na Maison Dior, YSL celebra em suas coleções pintores como Goya, cujas "infantes", de rosto envolto em tule "ponto de espírito", são as heroínas. A coleção Mondrian e seus vestidos como "móbiles no espaço" (1965) será o prelúdio de uma nova aventura que faz de YSL o "Beatle da rua Spontini", criador da coleção Pop Art, inspirado por Andy Warhol e Tom Wesselman. Nos anos 70, as referências à arte, que serviam para inseri-lo na vida, o consumo dos tempos modernos torna-se um refúgio, uma espécie de ideal, território sagrado de todas as alquimias, ali onde a dor se torna beleza.


Yves Saint Laurent torna-se uma imagem, uma espécie de ícone, rodeado por uma muralha de ouro e silêncio. Da coleção Ópera Balés Russos à coleção "Picasso", a vertigem não cessará de aumentar, ali onde a moda, campo do efêmero, do transitório, roça a História, e suas obras-primas. Apresentados num clima dominado pela especulação do mercado de arte, as Iris e os Girassóis inspirados em Van Gogh, esses ternos cujos bordados farão deles os mais do mundo, mostram ainda a dupla tentação de YSL: acompanhar seu tempo, e ao mesmo tempo suspendê-lo. Ser o único capaz de ousar dizer, a propósito da mulher contemporânea:


"Eu inventei seu passado, ofereci-lhe seu futuro e isso durará até bem depois de minha morte."


A elegância segundo YSL: simplicidade e originalidade


ADRIANA RODRIGUES

terça-feira, 10 de maio de 2011

L'Amour Fou

 O Louco Amor de Yves Saint Laurent

Yves Saint Laurent - Pierre Bergé, l'amour fou
França , 2010 - 98 min.
Documentário
Direção: Pierre Thoretton
Elenco: Yves Saint-Laurent, Pierre Bergé, Betty Catroux,
Loulou De La Falaise, Jack Lang, Frédéric Chambre,
Boujemaa Lahbali, Catherine Deneuve, Laetitia Casta

Filme melancólico, sombrio, mas de uma beleza extraordinária,
principalmente pela “preciosa” coleção de obras de arte
que YSL e Pierre Bergé possuíam e que ao lado das peças
que revolucionaram a alta costura, desfilavam sob nossos olhares.



A magnífica residência em Paris e as casas da Normandia e Marrakesh deslumbram, tanto pela arquitetura, beleza, poesia,
como pelo bom gosto da decoração, das peças de arte,
desde vasos chineses, até quadros de Matisse, Picasso, Cezanne,
Mondrian, e uma rara escultura do romeno Brancusi
Com a morte de Yves em 2008, Bergé decidiu vender a coleção.
Foi arrecadado 370 milhoes de euros, o “leilão do século”,
como ficou conhecido.


O documentário foi narrado pelo próprio Pierre Bergé,
com quem YSL viveu durante cinqüenta anos.
Existem cenas emocionantes, principalmente as do último desfile de Yves Saint Laurent (janeiro de 2002, quando ele anunciou sua aposentaria), e de seu funeral, em Paris, quando Bergé faz em público a sua declaração de amor.
É uma belíssima história de amor.
Através de Bergé, conhecemos um Ives Saint Laurent mais humano, tímido, depressivo, e com a auto estima balançada.
Entretanto era homem de enorme sensibilidade, amante das artes,
da poesia, mudando após Dior, o panorama da moda em todo o mundo.

Bergé disse à rádio France Info:

"Chanel deu liberdade às mulheres.
Yves Saint Laurent lhes deu poder".

Segue abaixo a cópia na íntegra,
do discurso de Ives Saint Laurent.


Dia 7 de janeiro de 2002, Yves Saint Laurent
anunciou em Paris o seu afastamento da moda.
A imprensa mundial foi convidada a comparecer à maison do estilista,
no número 5 da avenida Marceau, onde Saint Laurent,
com 65 anos, leu o texto abaixo:


Senhoras e Senhores,


Convidei vocês para virem hoje a esta casa a fim de lhes dar uma notícia importante, que diz respeito à minha vida pessoal e ao meu trabalho.


Eu tive a oportunidade de me tornar aos 18 anos assistente de Christian Dior, de sucedê-lo aos 21 anos e de encontrar o sucesso desde a minha primeira coleção, em 1958. Em poucos dias, serão já 44 anos desde que tudo isso começou.
Depois, eu vivi para o meu trabalho e em nome de meu trabalho.
Eu quero homenagear aqueles que me influenciaram, que me guiaram na minha atividade e me serviram de referência.
Antes de todos, Christian Dior, o meu mestre e o primeiro que me levou a descobrir os segredos e os mistérios da alta costura. Balenciaga, Schiaparelli. Chanel, claro, que me deu tantas coisas e, como se sabe, liberou as mulheres. O que me permitiu, anos mais tarde, dar a elas o poder e, de uma certa maneira, liberar a moda.


Ao abrir, em 1966, pela primeira vez no mundo, uma butique de prêt-à-porter com a marca de um grande costureiro, criando sem me referir à alta costura, tenho consciência de haver feito progredir a moda de meu tempo e de haver permitido às mulheres acederem a um universo até então reservado.


Como Chanel, sempre aceitei a cópia e me orgulho muito que as mulheres de todo o mundo vistam tailleurs-pantalons, smokings, cabans e trench-coats. Digo a mim mesmo que criei o guarda-roupa da mulher contemporânea, que participei da transformação de minha época. Eu o fiz com roupas, o que é certamente menos importante do que a música, a arquitetura, a pintura e várias outras artes, mas, seja como for, eu o fiz.


Creio que serei perdoado por contar vantagens, mas, desde há muito tempo, eu acreditei que a moda não era apenas para embelezar as mulheres, mas também para lhes dar confiança, certeza, permitir que elas se assumissem.


Sempre fui contra os fantasmas de alguns que satisfazem seu ego através da moda. Ao contrário, eu quis me colocar a serviço das mulheres. Quer dizer, servi-las. Servir seus corpos, seus gestos, suas atitudes, sua vida. Quis acompanhá-las no grande movimento de liberação que conheceu o último século.


Tive a oportunidade de criar em 1962 minha própria maison de costura. Já faz 40 anos.
Eu quero agradecer àqueles que, desde o início, tiveram confiança em mim.
Michel de Brunhof, que me conduziu até Christian Dior. Mack Robinson, que acreditou no meu destino e permitiu que eu abrisse minha maison. Richard Salomon, a quem eu devo tanto.
Como poderia esquecer os jornalistas, como John Fairchild, Carmel Snow, Diana Vreeland, Nancy White, Eugenia Sheppard, Edmonde Charles-Roux, Françoise Giroud?


Mais próximo de mim, quero agradecer a Pierre Bergé, claro, mas será que vale a pena insistir nisso? Anne-Marie Munoz, Loulou de La Falaise. É impossível para mim citar todos os Premiers e Premières de ateliê que me acompanharam desde o início. Contudo, o que eu teria feito sem eles, sem o seu grande talento, que eu gostaria de saudar? Todos os operários e operárias, cujo devotamento admirável me ajudaram tanto e aos quais quero exprimir minha profunda gratidão, como também ao conjunto dos funcionários da minha maison.


Quero agradecer às mulheres que vestiram minhas roupas, as célebres e as desconhecidas, que me foram fiéis e me deram tanta alegria.
Tenho consciência de ter feito, durante longos anos, o meu trabalho com rigor e exigência. Sem concessões. Sempre coloquei acima de tudo o respeito por esse trabalho, que não é de fato uma arte, mas que precisa de um artista para existir.
Penso que eu não traí o adolescente que mostrou os primeiros croquis a
Christian Dior com uma fé e uma convicção inquebrantáveis. Essa fé e essa convicção nunca me abandonaram.


Todo homem, para viver, precisa de fantasmas estéticos. Eu os segui, procurei, persegui. Passei por muitas angústias, às vezes por infernos. Conheci o medo e a solidão terrível, os falsos amigos que são os tranquilizantes e os estimulantes. A prisão da depressão e das casas de saúde. De tudo isso, um dia eu saí maravilhado, mas desiludido.
Marcel Proust me ensinou que "a magnífica e lamentável família dos nervosos é o sal da terra". Sem sabê-lo, eu fiz parte dessa família. É a minha. Eu não escolhi essa linha fatal, contudo é graças a ela que eu me elevei ao céu da criação, que eu me aproximei dos fabricantes do fogo, dos quais fala Rimbaud, que eu me achei, que eu compreendi que o encontro mais importante da minha vida deveria ser comigo mesmo.


Apesar de tudo, eu escolhi dizer adeus, hoje, a esse trabalho que eu tanto amei.
O próximo desfile, para o qual eu convido os senhores, em 22 de janeiro, no Centro Georges Pompidou, será em grande parte uma retrospectiva de minha obra.
Muitos de vocês já conhecem os modelos que desfilarão. Eu tenho a ingenuidade de acreditar que eles podem desafiar os ataques do tempo e assegurar seu lugar no mundo de hoje. Eles já provaram isso. Outros modelos desta saison os acompanharão.


Quero agradecer igualmente ao sr. François Pinault e manifestar a ele a minha gratidão por permitir que eu colocasse harmoniosamente um ponto final a esta maravilhosa aventura e por ter acreditado, como eu, que a alta costura desta maison deveria se interromper com minha partida.


Enfim, quero agradecer a vocês, que estão aqui, e àqueles que não estão, por terem sido fiéis aos encontros que tivemos ao longo de tantos anos. Por terem me apoiado, compreendido, amado.


Eu não os esquecerei.


(Tradução de Alcino Leite neto).


                                Ives Saint Laurent e Pierre Bergé

terça-feira, 3 de maio de 2011

TEMPO BOM

Embarcação

Sim, foi que nem um temporal
Foi um vaso de cristal
Que partiu dentro de mim
Ou quem sabe os ventos
Pondo fogo numa embarcação
Os quatro elementos
Num momento de paixão
Deus, eu pensei que fosse Deus
E que os mares fossem meus
Como pensam os ingleses
Mel, eu pensei que fosse mel
E bebi da vida
Como bebe um marinheiro de partida, mel
Meu, eu julguei que fosse meu
O calor do corpo teu
Que incendeia meu corpo há meses
Ar, como eu precisava amar
E antes mesmo do galo cantar
Eu te neguei três vezes
Cais, ficou tão pequeno o cais
Te perdi de vista para nunca mais

                         Francis Hime e Chico Buarque

Existem poucas gravações no youtube desta pérola composta por Francis Hime e Chico Buarque, assim foi difícil postar e compartilhar uma música que emociona sempre!

http://www.youtube.com/watch?v=62-wnfIc_QQ