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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

De um Amor Morto

De um amor morto fica
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto não fica
Nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo
Agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto não deixa
Em nós seu retrato
De infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

LIVROS

"Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem".
Mário Quintana

"Nós mudamos incessantemente.
Mas se pode afirmar também que cada releitura de um livro
e cada lembrança dessa releitura renovam o texto." Jorge Luis Borges


Como é prazeroso fazer a lista dos livros que se quer ler.
Mais ainda é recebê-los na volta a casa,
e parecer criança na noite de Natal.

Ai vai a lista dos meus livros:

- "A solidão dos numeros primos", Paulo Giordano - Ed. Rocco

- "Por mais um dia", Mitch Albom - Ed. Sextante

- "Que cavalos são aqules que fazem sombra no mar?", Antonio Lôbo Antunes - Ed.Alfaguara

- "Clarice", Benjamin Moser - Ed. Cosacnaify

- "O clube do filme", David Gilmour - Ed. Intrínseca

- "No teu deserto", Miguel Souza Tavares - Ed. Cia das Letras

- "A Educação Sentimental", Gustave Falubert - Ed. Martin Claret

- "A Dupla Chama", Octavio Paz - ed. Assírio e Alvim

- "A Luz da Noite", Edna Obrien - Ed. Record

- "Coisas da Vida", Martha Medeiros - Ed. LPM

E ainda lerei "Evocação a Sophia" , sugerido por Joaquim Duarte.

Aqui fica a crónica sobre o livro, por laurinda Alves.
Belíssima!

Tive uma vida maravilhosa,
disse Sophia de Mello Breyner Andresen pouco antes de morrer.
Alberto Vaz da Silva, autor de “Evocação de Sophia”,
diz que esta foi uma das últimas coisas que se lhe ouviu dizer.
O prefácio do novo livro foi escrito por Maria Velho da Costa
e o posfácio é de Tolentino Mendonça, que evoca assim a poesia de Sophia:
“poema a poema somos remetidos para o ‘limpo’, o ‘intacto’, o ‘inteiro’, o ‘puro’”.
Neste livro cabem memórias de viagens espantosas pela Grécia e Sicília
mas também fragmentos de escritos inéditos sobre as casas habitadas por Sophia.
Sobre a sua viagem com Agustina à Grécia,
Sophia escreveu a Jorge de Sena:
“não tento descrever-lhe a Grécia nem tento dizer-lhe o que foi ali a minha total felicidade.
Foi como se eu me despedisse de todos os meus desencontros, todas as minhas feridas.”
Muitos anos mais tarde escreveria sobre a memória dos templos,
das estátuas, das praias, das praças e dos cafés da Sicília,
bem como das tardes e das noites vividas no maravilhoso jardim de Taormina,
na companhia dos amigos Ana Maria e João Bénard da Costa,
Helena e Alberto Vaz da Silva.
Por tudo isto e também pela caligrafia de Sophia vale a pena
ler e guardar este livro para sempre.


ACEITO SUGESTÕES PARA LEITURA!

sábado, 2 de janeiro de 2010


Mais uma vez volto a poesia de Sophia de Mello Breyner Andersen.
Cada releitura, uma surpresa e uma descoberta.
Gostaria muito de ler uma biografia sobre ela,
não sei se há. Vou a busca e depois conto.

Encontrei uma página no jornal brasileiro "A Folha de São Paulo",
onde tem a notícia de sua morte,
e onde descubro mais desta mulher forte e apaixonda,
pela vida, pelas causas, pelo país e pela poesia.

05/07/2004 - 09h29
Sophia de Mello Breyner deu vigor à poesia sobre o homem moderno

MANUEL DA COSTA PINTO

Colunista da Folha de S.Paulo

A escritora portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen
-que morreu na última sexta-feira em Lisboa, aos 84 anos-
pertencia à primeira geração de poetas que surgiram
à sombra incomensurável de Fernando Pessoa
e sob o impacto do grupo Presença
(que consolidou o modernismo em Portugal).
Isso equivale a dizer que a autora de livros como "Mar Novo" (58)
e "O Nome das Coisas" (77) deu continuidade e vigor
a uma poesia marcada pela indagação metafísica
sobre a condição problemática do homem moderno.
Porém, ao contrário de muitos daqueles autores,
que associavam a experiência de choque da modernidade
ao prosaísmo e ao sarcasmo,
Sophia imprimiu em sua poesia um tom mais solene,
em que o ofício da escrita equivale à busca do absoluto
-sem contudo se divorciar do mundo concreto,
mas buscando nas coisas elementares um tipo de sacralidade.
Como escreveu o crítico Eduardo Lourenço,
"quando se aproxima das coisas e avidamente procura "sempre" mais coisas,
não é apenas o real que pretende alcançar,
mas sobretudo a aliança primitiva (...),
a ordem simbólica onde esse real adquire sentido e verdade.
Entre a ordem simbólica e a aliança, a identidade é absoluta".
Nascida no Porto, contemporânea de nomes igualmente importantes
como Jorge de Sena, Eugénio Andrade, Mário Cesariny
e Alexandre O'Neil, manteve diálogo não só com Pessoa
(principalmente a partir de "Dual", de 72),
mas também com as celebrações órficas de Hölderlin e Rilke.
De certo modo, como observou a ensaísta Clara Rocha,
a obra de Sophia pode ser vista como uma longa
e fragmentária resposta ao célebre verso de Hölderlin:
"Para que poetas em tempo de indigência?".
Seus livros correspondem à busca de uma espécie de graal da linguagem,
de um mundo e um tempo utópico, fechado em si mesmo,
anterior à separação entre deuses e homens,
essência e substância, ser e ente:
"Exilamos os deuses e fomos/ exilados da nossa inteireza".
Ao mesmo tempo, por trás dessa nostalgia
de uma Idade do Ouro da poesia
há a consciência crítica que detecta
as causas do desencantamento do mundo no "capitalismo das palavras"
e nas "hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria"
-ou seja, na transformação do homem
e da linguagem em utensílios tecnológicos.
Tal obra, entretanto, não se limita à poesia.
Além de ser autora de livros de ficção e infanto-juvenis,
Sophia também manteve um importante trabalho de reflexão
sobre a literatura, como na série de aforismos "Arte Poética",
no ensaio "O Nu na Antigüidade Clássica" ou em artigos,
como o que dedicou em 1958 à poeta Cecília Meireles
-não por acaso, a escritora brasileira que mais se aproxima
de sua procura de um lirismo essencial.
Soma-se a essa produção uma prosa que traz ecos do surrealismo,
como "Contos Exemplares", cujo título alude explicitamente
às "Novelas Exemplares" de Cervantes
e no qual encontramos parábolas sobre o embate
entre o Bem e o Mal ("O Jantar do Bispo")
ou sobre a reaparição de Cristo, que passeia despercebido
pelas ruas do Porto ("O Homem").
Esses contos representam parcela menor
na literatura de Sophia de Mello Breyner Andresen,
mas ajudam a entender, pelo tom alegórico,
o conjunto dessa obra que recebeu em 1999
o Prêmio Camões, mais importante honraria da língua portuguesa.

"Destróis todas as pistas que nos salvam
Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas
Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam
Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança
Rejeitas a matriz
E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem"


Sophia de Mello Breyner Andresen










Porto, maio/2009

Exatamente onde nasceu Sophia,
em 1919.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Quando a dor é tão grande,
que não há remédio sequer!


"Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas".
Sophia de Mello Breyner Andresen