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domingo, 7 de novembro de 2010

A POESIA PORTUGUESA!

Este Inferno de Amar
Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembro: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...
                                       Almeida Garret

sábado, 6 de novembro de 2010

Se tu viesses ver-me...


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...
                                                                         FLORBELA ESPANCA





















 Em Tiradentes, foi essa minha poética!

Se essa rua fosse minha
Eu mandava
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas de brilhante
Só pra ver
Só pra ver meu bem passar
Nessa rua
Nessa rua tem um bosque
Que se chama
Que se chama solidão
Dentro dele
Dentro dele mora um anjo
Que roubou
Que roubou meu coração
Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
Tu roubaste
Tu roubaste o meu também
Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
Foi porque
Só porque te quero bem

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ADELIA PRADO

"Mêdo eu tenho de não ter mistério...."
                                     (Adélia Prado)


Volto a falar de Adélia; impossível seria não voltar.
A mineira de Divinópolis, lança mais um livro,
"AMAR EXIGE SACRIFÍCIO". 
Nele ela diz que que o amor é a morte do ego,
e defende: homens e mulheres precisam reencontrar
os seus papéis no mundo.

“A experiência amorosa exige sacrifício.
Não se ama para ser  recompensado.
O amor é sua própria recompensa.
Não resisto em citar Drummond falando da poesia coisa parecida:
“Poesia, o perfume que exalas é tua justificação”.
Não há amor fácil, mas todo amor é maravilha, saúde,
“remédio contra a loucura”, coisa que Guimarães Rosa ensinou.
É a experiência humana mais exigente.
Não é contrato, troca de favores, investimento,
é entrega  e compromisso..
Do “sacrificio” de amar nasce a mais perfeita alegria.
Ninguém faz cara feia quando se sacrifica por amor.
Não se trata de anulação, subserviência de quem ama,
trata-se da morte do ego, tarefa a ser feita até o último suspiro.”
(depoimento dado a Revista Lola Magazine – Outubro/10)

Entrevista Adélia Prado

SEO JOÃO - Qual é o impacto do sucesso para a pessoa e a poetisa Adélia Prado?
ADÉLIA PRADO - Acredito, e com muita alegria, que isso que você chama de sucesso
nunca foi uma meta. É um acréscimo, a sobremesa da coisa, a hora do recreio.
Sempre tive uma consciência muita aguda de que isto é uma coisa passageira,
que não é essencial e decorre do retorno da obra.
As pessoas às vezes confundem a obra com o autor.
Nunca deixei, e espero que não aconteça,
que isso interfira na minha vida de família e na minha própria produção literária.
Eu sou fiel, tento ser fiel à poesia, à literatura.
Quando vem o sucesso é como se fosse um presente,
um bom retorno que eu e minha família aproveitamos.
Mas não preocupa, não. O que eles estão querendo de mim
é realmente o exercício do meu papel de mãe e de dona de casa.
O Zé [esposo de Adélia] me acompanha sempre.
Acho muito bom viajar acompanhada.
Tudo está na medida certa.
Eu vejo como uma coisa boa, é prazeroso, não interfere.

SJ - Não mesmo?
ADÉLIA - Não. Se interferisse eu estava perdida.
Minha vida familiar ia virar uma bagunça.
Meu próprio texto ia sofrer com isso.
É uma coisa que vejo como um presente, uma coisa boa.
Estar em Montes Claros, eu devo isso a quê?
À literatura. É um presente de Deus.
Tenho sorte, devo ficar agradecida, achar bom, curtir.

SJ - Tem uma definição de poesia que você gosta muito,
segundo a qual seria a “revelação do real” ou uma “abertura para o real”.
Pode explicar melhor essa definição?
ADÉLIA - A poesia, o texto poético, verdadeiro, é puramente expressivo.
Expressa aquilo que provocou o texto.
Se estes óculos [aponta para os seus óculos sobre a mesa]
aqui me provocarem um poema verdadeiro,
o poema vai expressar a realidade deste objeto.
Então, toda a arte verdadeira é isso que você falou muito bem,
é uma abertura para o real.
Para mim, é o máximo de definição de poesia.
A poesia não é uma descrição de alguma coisa,
não é um comentário a respeito de nada.
É uma expressão. Nesse sentido, a arte me abre para a realidade.
A maravilha dela é isso. É uma epifania.
Você puxa uma cortina e enxerga. Isso em qualquer tipo de arte. De arte verdadeira.
E toda arte verdadeira só tem um objeto: a poesia.
Só quando ela acontece em qualquer forma de arte é que a arte acontece,
como o teatro, a música, o cinema, como isso, como aquilo.
A poesia é essa radiação que as coisas têm e que são percebidas através da arte. Essa radiação é como se fosse o brilho da realidade.
SJ - Tem a questão da subjetividade criadora, que também vai conseguir ver essa realidade...
ADÉLIA - Este é o papel do artista. Ele está aparelhado com uma sensibilidade
que é comum a todo mundo.
Todos nós temos a mesma sensibilidade.
A diferença é que o artista tem verbo para se expressar.
Se for som e o artista é músico, vai mostrar numa composição, ou tocando.
Se for pintora, vou pintar, sempre fazendo isso
para que o outro veja o que ele, o artista, viu antes.
Aí todo mundo olha e fala: Ah, é mesmo, eu também senti isso,
ue bom que alguém falou isso e é assim mesmo.
 Quando eu lia Guimarães Rosa, eu ficava tão espantada que eu falava assim:
“Ah, ele tá danado demais, mas tem uma coisinha que ele não lembrou”,
e guardava aquilo. Estava lendo e, de repente, estava lá a coisa.
Aí eu falava “ah, danado!” Uma sensibilidade monstruosa.
E uma arte tão monstruosa quanto o tamanho da sensibilidade,
capaz de universalizar para mim, objetivar aquele sentimentozinho mais oculto,
aquela experiência mais anônima.
Está lá no Grande Sertão. Esse é o papel do artista,
botar em existência uma coisa que está latente em todo mundo,
para todo mundo ver e falar “Ah, isso mesmo, eu não sou doido não.
Eu também senti isso, olha lá”.
Então, ele comunica para todos aquilo que já é de todos.

SJ - O que você quer dizer quando fala “Deus mora em mim. Mas a letra é minha”.
ADÉLIA - A letra é a única coisa que eu reconheço como minha.
Até rigorosamente falando, nada é nada. Nada é da gente.
Mas, se você pode dizer que alguma coisa é do artista é o registro pessoal da obra.
O sujeito que mora na Rússia vai ter um registro eslavo,
uma postura diferente da minha. O meu registro é mineiro, lá do interior
Esse registro é meu, é uma experiência pessoal.
Mas a poesia, que pousa naquele registro, é de Deus. Q
uero dizer, não é minha.
Posso chamar de Deus, posso chamar de Absoluto,
de qualquer outro nome que eu queira, mas minha não é.
Ela me perpassa, passa através de mim e vai além.
Ela está aquém e além de mim.
Os artistas são pequenos soldadinhos que têm esse dever sagrado
de corresponder a essa exigência.
É uma alegria e ao mesmo tempo um fardo.
Porque se você não faz isso, você fica doente,
fica uma pessoa muito desagradável, muito infeliz.

SJ - Interessante as colocações que você já fez, que está fazendo aqui agora.
Elas caminham na direção de uma fala sua no Seminário de Psicologia Social e Senso Religioso, realizado na UFMG em 1998,
que foi transcrito com o título Arte como experiência religiosa.
Você fala justamente nesse sentido, que a experiência artística
e a experiência religiosa convergem de certa maneira,
no sentido de que elas não dizem respeito à inteligência, ao entendimento,
às faculdades lógicas. Mas você fala também de carência, vazio.
Você aborda no livro Manuscritos de Felipa quando fala assim “Gemidos de amor/ Dizemos e não erramos/ Dói o amor em quem ama”... Então, o amor dói, a vida dói, isso é a vida?
ADÉLIA - A vida é um vale de lágrimas. A arte, como a filosofia, é uma tentativa de superar os limites. O primeiro é o corpo. Você tem de carregar o corpo para onde você vai. Olha que peleja que é sair de Divinópolis e vim parar aqui em Montes Claros? Tem de entrar no ônibus, tem de parar pra comer. Os limites e as exigências da sua situação corporal, isso já é um limite. Mas essa matéria é habitada por um desejo infinito. Tudo é pouco para mim. Não tem arte que supra o meu desejo. Para o do meu coração, o mar é uma gota. Eu quero é tudo, o infinito é o que todo mundo quer. Quando você fala em amor, você quer o amor absoluto. Você casa muito apaixonado e para que o amor e a paixão perdurem, precisa de todo o seu empenho na morte do ego. O trabalho que dá de você preservar a sua projeção amorosa, a sua paixão. Porque não posso oferecer para o outro tudo o que ele quer, nem o outro para mim. Tem de haver uma busca de um absoluto que está fora de um e de outro. O amor é uma experiência do limite. Eu amo não é por causa, é apesar de. Quando alguém fala que gosta de mim, fico espantadíssima. As pessoas amam na gente aquilo que elas projetam no amor. De fato, a gente é isso, esse limite, essa miséria. E aí põe miséria, põe doença, põe dificuldades de toda ordem, os traumas herdados, psicológicos, tudo. Nós somos pura necessidade. A gente é a necessidade encarnada. Eu vejo a superação disso, isso é um caminho de santidade, não tem outra palavra para isso não. Essa superação do ego. Os psicanalistas estão aí para tentar fazer isso. Às vezes fazem equivocadamente. Falam: “Não, tudo bem, não existe culpa não, isso é bobagem”. Essa culpa de não amar, não aceitar a condição humana. Aceitar a condição humana é que é santidade. Você pode ver que a felicidade dos santos, se você ler a biografia deles, é porque eles descansaram na condição deles. Sou criatura mesmo, e criatura humana. Aceitar isso já é criar asas. É isso que eu peço a Deus todo dia.
SJ - Aceitar a condição humana?
ADÉLIA - Sim, e é difícil demais. Sou um bicho que tem consciência de que é bicho. Ser galinha é ótimo. Todas as galinhas são absolutamente iguais. Você mata uma galinha, faz ela ao molho pardo, vem outra, vem outra, vem outra, nenhuma reclama. Então, a grande dor é saber que eu sou uma galinha... ao molho pardo. E isso é terrível! A gente passa sim. Superar isso é a hora quando a gente começa a ficar maduro e humilde. A hora em que você começa a botar salto alto e você lembra: opa, calma. E a arte é feita por pessoas assim. Olha Mozart. Pela biografia dele era uma pessoa absolutamente inconveniente, vulgar mesmo. Mas o que ele produzia, o que ele carregava, era divino. Então, uma dificuldade do artista é essa. É ver a arte que ele faz e aquilo que ele é. É uma tristeza isso. Então a gente tem que sair correndo atrás da obra, atrás da excelência da obra.

SJ - Voltando a Guimarães Rosa, Riobaldo diz que todo dia o homem aprende uma forma nova de medo.
ADÉLIA - A paixão humana mais terrível é o medo. A gente fica paralisada. As pessoas que estão em crise, depressivas ou psicóticas ficam paralisadas pelo medo. Sabe o que é mais triste? Que o medo da morte é o medo de viver, humilha ainda mais a gente. Tenho medo de entrar no ônibus, medo do ônibus cair. Mas o que eu tenho é medo de viver. Eu projeto todo esse meu medo de viver, essa economia que eu faço dos meus pensamentos, do meu amor, da minha paciência, das minhas virtudes. Economizo isso, de medo. É terrível.

SJ - E Adélia Prado já aceitou a morte?
ADÉLIA - Melhorei bastante. Não melhorei, Zé? [risos] O Zé é que sabe. [risos] É igual aquele menino a quem você pergunta “Você gosta de ovo?” e ele: “Mãe, eu gosto de ovo?” Melhorei? De verdade, nessas alturas, assim, depois de experiências mais difíceis a gente melhora. Eu acho que há um crescimento, um amadurecimento na própria fé, na confiança em Deus. Enfim, é um absurdo eu existir e esse absurdo, entre aspas, que me criou, certamente me sustenta. Quem me deu o começo vai me acolher no fim. Você é convocado a uma fé mais madura, mais confiante, fica mais alegre, mais leve. A maior alegria é um sinal de um crescimento na fé e a superação desses medos horrorosos. O medo da morte é horrendo. A gente vai ficando assim, compra bolsinha, faz recital, essas coisas ajudam a gente a caminhar. Agora, difícil mesmo é estar pronto. Dizem que Elias subiu aos céus num carro de fogo, sem passar pela morte. Nossa Senhora também, dizem, não morreu, apesar de ser ela imaculada e nós sermos maculados. Mas é bom também a gente não saber. Saber demais envelhece. Ignorância é muito bom. A gente vive é na fé.

SJ - Adélia, de todo coração, muitíssimo obrigado.
ADÉLIA - Não carece, meu Deus. Virou poesia.
Obrigada, você, viu Marcelo. Bom dia procê.

*MARCELO NILO MOEBUS é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras / Estudos Literários da Unimontes - Universidade Estadual de Montes Claros. 

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

" Saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado
à procura dos pedaços de nós mesmos que se perderam.
Rubem Alves"

Ninguém sabe, nem saberá..........

NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate,
oh não se mate,
reserve-se todo para as bodas que ninguém sabe quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você, e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas, vitrolas,
santos que se persignam, anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabede quê, pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 23 de agosto de 2010




O Tempo Seca o Amor


O tempo seca a beleza,

seca o amor, seca as palavras.

Deixa tudo solto, leve,

desunido para sempre

como as areias nas águas.


O tempo seca a saudade,

seca as lembranças e as lágrimas.

Deixa algum retrato, apenas,

vagando seco e vazio

como estas conchas das praias.


O tempo seca o desejo

e suas velhas batalhas.

Seca o frágil arabesco,

vestígio do musgo humano,

na densa turfa mortuária.


Esperarei pelo tempo

com suas conquistas áridas.

Esperarei que te seque,

não na terra, Amor-Perfeito,

num tempo depois das almas.

Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'
De um Amor Morto

De um amor morto fica
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto não fica
Nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo
Agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto não deixa
Em nós seu retrato
De infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"
“Quando as águas se juntam, o rio se forma”.
ditado chinês


Dois meses passaram-se da última postagem,
Ausência de palavras,
Dores, solidão, saudades,
Tantas guardadas,
Tantas caladas.

Os Meus Versos

Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!
Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...
Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...
Rasgas os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"


terça-feira, 13 de julho de 2010

O AMOR....SEMPRE!

O Amor
Gibran Kahlil Gibran


Então, Almitra disse:
“Fala-nos do amor.”
E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão,
e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, disse:


Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:"Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.
__________

sábado, 26 de junho de 2010

AINDA FERREIRA GULLAR!

A vida muda como a cor dos frutos
lentamentee para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro, da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda
a vida muda o morto em multidão

Ferreira Gullar. Toda poesia - Dentro da noite veloz.


terça-feira, 15 de junho de 2010

Conhecí Ferreira Gullar através de Fagner,
e encantei-me com seus versos,
tão profundos...
É bem verdade que poesia e música se completam,
e que Fagner tem grande mérito também.
A poesia é tão vida quanto arte,
e tão arte quanto vida,
dor, desespero e pranto,
e amor, sempre!
Ouça:
Cantiga para não morrer (Me leve)

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
Mar do Rio Vermelho,
um dia frio!
Sem mais palavras,
pois já se diz Ferreira Gullar!
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Ferreira Gullar recebe Prêmio Camões 2010
J Egberto Divulgação
Ferreira Gullar recebeu
a mais importante premiação literária de língua portuguesa.
O Prêmio Camões, a mais importante
premiação literária de língua portuguesa, foi concedido neste ano ao poeta brasileiro Ferreira Gullar,
anunciou nesta segunda-feira o Ministério da Cultura de Portugal.
"É para um grande homem da lusofonia
que o Prêmio Camões rende homenagem",
declarou em uma coletiva à imprensa
a ministra portuguesa de Cultura, Gabriela Canavilhas.
Nascido no dia 10 de setembro de 1930, José Ribamar Ferreira,
conhecido como Ferreira Gullar, é "poeta, dramaturgo, cronista e tradutor, considerado entre as 100 personalidades brasileiras
mais influentes na atualidade", disse Canavilhas.
A ministra falou ainda da importância
de "sua atividade cívica e política como cidadão e autor".
Ferreira Gullar publicou sua primeira coletânea de poemas em 1949.
"Dentro da noite veloz" e "Poema sujo", da década de 1970,
figuram entre suas obras mais famosas.
O Prêmio Camões, de 100 mil euros,
foi criado em 1988 por Portugal e Brasil
para homenagear autores lusófonos
que tenham contribuído para enriquecer
o patrimônio cultural e literário de língua portuguesa.
O prêmio foi outorgado antes aos portugueses
Antonio Lobo Antunes (2007) e José Saramago (1995),
ao brasileiro Jorge Amado (1994) e ao angolano Pepetela (1997).
Lista completa de ganhadores do Camões ano a ano:
1989 - Miguel Torga, Portugal.
1990 - João Cabral de Melo Neto, Brasil.
1991 - José Craveirinha, Moçambique.
1992 - Vergílio Ferreira, Portugal.
1993 - Rachel de Queiroz, Brasil.
1994 - Jorge Amado, Brasil.
1995 - José Saramago, Portugal.
1996 - Eduardo Lourenço, Portugal.
1997 - “Pepetela” - Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, Angola.
1998 - Antonio Candido, Brasil.
1999 - Sophia de Mello Breyner, Portugal.
2000 - Autran Dourado, Brasil.
2001 - Eugénio de Andrade, Portugal.
2002 - Maria Velho da Costa, Portugal.
2003 - Rubem Fonseca, Brasil.
2004 - Agustina Bessa-Luís, Portugal.
2005 - Lygia Fagundes Telles, Brasil.
2006 - José Luandino Vieira, Portugal/Angola (o autor recusou o prêmio).
2007 - Antonio Lobo Antunes, Portugal.
2008 - João Ubaldo Ribeiro, Brasil.
2009 - Arménio Vieira, Cabo Verde.
2010 - Ferreira Gullar, Brasil.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

"Só parte pratos quem lava a loiça"


E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos
E por vezes encontramos de nós em poucos meses

o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes
ah por vezesnum segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira (poeta português)
http://www.youtube.com/watch?v=oiEnNfUx6d8

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Assim como homenageio a Vinicius, Mario, Adélia, Chico, Cora, e tantos outros,
gosto de escrever e falar do que aprecio,
da poesia simples e cristalina,
da palavras que tanto me emocionam.
Parabéns Maria!
www.ocheirodailha.blogspot.com

Os dias do verbo amar

Sei dos caminhos enviezados da vida
que lentamente se desfazem no mar
dos dias sim da alegria vivida
dos dias não que teimam em não cessar
Mas já não sei dos dias do verbo amar
Sei dos escolhos que a vida nos oferece
que lentamente se desfazem no mar
das ausências que a solidão tece
e das certezas que nos fazem sonhar
Mas já não sei dos dias do verbo amar
Sei das noites amargas sem o toque da pele
que lentamente se desfazem no mar
dos corpos cansados do amor e do mel
e das lágrimas que saltam do meu olhar
Porque já não sei dos dias do verbo amar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

PARTILHANDO VINICIUS COM O MUNDO!

Toda a poesia de Vinicius de Moraes - Blog da FLIPMaio 10, 2010

Esse é o título da iniciativa da Biblioteca Brasiliana
da Universidade de São Paulo, que colocou na internet
a poesia completa de Vinicius de Moraes.
A biblioteca, feita a partir do acervo doado pelo bibliófilo José Mindlin,
está atualmente em processo de total digitalização.
A bola da vez foi o poeta, que viveu entre 1913 e 1980,

e foi um dos nomes mais significativos
da vida cultural brasileira do século 20.
O projeto só foi possível devido à liberação dos direitos autorais
pela família de Vinicius de Moraes.
Os 15 livros digitalizados são: "O caminho para a distância" (1933),

"Forma e exegese" (1935), "Ariana, a mulher" (1936),
"Novos poemas" (1938), "Cinco elegias" (1943),
"Poemas, sonetos e baladas" (1946), "Pátria minha" (1949),
"Orfeu da conceição" (1956), "Livro de sonetos" (1957),
"Receita de mulher" (1957), "Novos poemas II" (1959),
"Antologia poética" (1960) (1ª ed. 1954), "O mergulhador" (1968),
"A casa" (1975) e "Um signo, uma mulher" (1975).
Vai
.

http://www.brasiliana.usp.br/node/455

sábado, 8 de maio de 2010

"Nunca é igual
se for bem natural
se for de coração
além do bem e do mal
coisas da vida. . .”
Milton Nascimento / Fernando Brand









Por do sol
Baia de Todos os Santos
(Salvador/Bahia/Brasil)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

SAUDADE

Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.

A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.

PATATIVA DO ASSARÉ


Homenagema a uma das principais figuras da música nordestina do século XX.

Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré
(Assaré, Ceará, 5 de março de 19098 de julho de 2002),
foi um poeta popular, compositor, cantor e improvisador brasileiro.
(Wikipédia)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

"AMAMOS, E CHEGAMOS ANTES DA HORA;
AMAMOS AINDA , E CHEGAMOS NO ÚLTIMO MINUTO;
JÁ NÃO AMAMOS E CHEGAMOS ATRAZADOS".
( Diane de Beausecq - França ( 1829 - 1899)

sábado, 3 de abril de 2010

Ainda Drumomd, O POETA

Quando releio Drumond,
Releio a vida, a poesia, o amor!















TRECHOS DA ÚLTIMA ENTREVISTA

O suplemento Idéias, do Jornal do Brasil, de 22 de agosto de 1987
(cinco dias após a morte de Drummond), apresentou em suas páginas centrais
trechos da última e exclusiva entrevista do poeta mineiro
ao jornalista Geneton Moares Neto.

Dezessete dias antes de dar adeus ao mundo,
Carlos Drummond de Andrade confessava que tinha um único e prosaico medo:
o de escorregar, levar uma queda boba e quebrar o fêmur.
A confissão é exemplar do temperamento do maior poeta brasileiro.
Quem batesse à porta do apartamento 701 do prédio de número 60
da Rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana,
à procura de declarações grandiloqüentes sobre a vida,
a arte e a eternidade iria se deparar
com um homem teimosamente prosaico,
despido de todo e qualquer traço de vaidade e orgulho
diante de uma obra que começou a brotar em Itabira
para o mundo em 1918, ano da publicação de um poema chamado Prosa,
num jornalzinho que só saiu uma vez.


O Drummond que se revela de corpo inteiro na longa entrevista
que nos concedeu em duas sessões - nos dias 20 e 30 de julho -
é um homem desiludido com o mundo. Agnóstico.
Confessadamente solitário. Cético diante da posteridade.
Injustamente rigoroso no julgamento da obra que produziu.
Tinha uma íntima esperança: queria ver a filha única,
a escritora Maria Julieta, recuperada da doença.
Tanto é que tentou adiar a entrevista para ‘quando as coisas melhorassem’.
Não melhoraram. Os azares de agosto desabaram
sobre os ombros frágeis do poeta.
O câncer ósseo levou Maria Julieta.
E tirou do poeta a vontade de viver.
A imagem do Drummond cambaleante
nas alamedas do cemitério no enterro da filha única
era um mau presságio.

Menos de uma semana antes da morte da filha, Drummond,
enfim, cedera à nossa insistência em obter um longo depoimento
- não sem, antes, brindar-nos com o dúbio qualitativo de ‘implacável’.
A entrevista fazia parte do projeto de publicação
de um livro de depoimentos sobre os 60 anos
do célebre poema No meio do caminho, no próximo ano.
Drummond, naturalmente, não concordava nem de longe
com a idéia de homenagear a data.
‘Não vale a pena; a data não merece consideração alguma’.
Mas, provocado, falou como em poucas vezes:
o depoimento, transcrito, rendeu cerca de mil linhas datilografadas.
Um trecho - que antecipava a decisão do poeta de deixar de escrever
- foi publicado no Idéias há duas semanas.
Depois da morte da filha,
Drummond tentou sustar a publicação da entrevista
porque a considerava ‘muito festiva’.
Acabou permitindo, sob a condição de que o editor avisasse
que ela tinha sido concedida antes da morte de Maria Julieta.
Em poucos dias, a entrevista transformou-se
na cerimônia de adeus do maior poeta brasileiro.
Mais do que nunca, neste depoimento,
Drummond insiste que será esquecido em pouco tempo.
Não será. E não terá sido por acaso que o clima no seu enterro
não era propriamente de comoção.
Porque todo mundo ali sabia que, nos versos, Drummond vive.
E, na morte, encontrou o que tanto queria: a paz.

No dia 5 de agosto morre a mulher que mais amou,
sua amiga, confidente e filha Maria Julieta.
Desolado, Drummond pede a sua cardiologista
que lhe receite um “infarto fulminante”.
Apenas doze dias depois, em 17 de agosto de 1987,
Drummond morre numa clínica em Botafogo, no Rio de Janeiro,
de mãos dadas com Lygia Fernandes,
sua namorada com quem manteve um romance paralelo ao casamento
e que durou 35 anos (Drummond era 25 anos mais velho
e a conheceu quando ele tinha 49 anos).
Era uma amor secreto, mas nem tanto.
Lygia contaria ao jornalista Geneton Moares Neto
(a quem Drummond concedeu sua última entrevista)
que “a paixão foi fulminante”.


O MEDO
“A maior chateação da velhice é você ficar privado

do uso completo de suas faculdades.
A pessoa velha tem de moderar o ritmo do andar,
porque, do contrário, o coração começa a pular.
Não pode fazer grandes excessos.
Não tomar um pileque de vez em quando
porque isso provocará consequências maléficas.
Ela tem de ser moderada até nos amores.
“O medo que tenho é levar uma queda, me machucar,
quebrar a cabeça, coisas assim, porque, na idade em que estou,
a primeira coisa que acontece numa queda é a fratura do fêmur.
Isso eu receio”.
“...Cantaremos o medo da morte/ depois morreremos de medo/ e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”

(Congresso Internacional do Medo - trecho)

O PAÍS
“Eu lamento que haja pouco consumo de livro no Brasil.

Mas aí é um problema muito mais grave.
É o problema da deseducação, o problema da pobreza
- e, portanto, o da falta de nutrição e da falta de saúde.
Antes de um escritor se lamentar porque não é lido
como são lidos os escritores americanos ou europeus,
ele deve se lamentar de pertencer a um país
em que há tanta miséria e tanta injustiça social”.
“Precisamos descobrir o Brasil/ Escondido atrás das florestas/

com a água dos rios no meio/ o Brasil está dormindo, coitado”
(Hino Nacional - trecho)


A SOLIDÃO
“Se eu me sinto solitário?

Em parte, sim, porque perdi meus pais e meus irmãos todos.
Nós éramos seis irmãos.
E, em parte, porque perdi também amigos da minha mocidade,
como Pedro Nava, Mílton Campos, Emílio Moura,
Rodrigo Melo Franco de Andrade, Gustavo Capanema
e outros que faziam parte da minha vida anterior, a mais profunda.
Isso me dá um sentimento de solidão.
Por outro lado, a solidão em si é muito relativa.
Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos,
uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler
nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia:
a companhia imensa de todos os artistas,
todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”.
“Precisava de um amigo/ desses calados, distantes,

/ que lêem verso de Horácio/ mas secretamente influem
/ na vida, no amor, na carne/ Estou só, não tenho amigo
/ E a essa hora tardia/ como procurar um amigo?”
(A bruxa - trecho)

Postado in MEMÓRIA VIVA


AMIGOS

Aos amigos, queridos amigos!!!!!


Recado aos Amigos Distantes

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.
Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.
Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.
Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.
Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles, in 'Poemas (1951)'