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segunda-feira, 27 de junho de 2011

MEIA NOITE EM PARIS

Até Pensei
              (Chico Buarque)

Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia, toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre, tão pobre de carinho
Que, de tolo, até pensei que fosses minha
Toda a dor da vida me ensinou essa modinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha...


Foi por uma grande motivo que Woody Allen
abriu o festival de Cannes deste ano.
Uma ode de amor a Paris e aos seus habitantes ilustres,
através de roteiro criativo, alegre, lúdico e cheio de imaginação.

Um conto de fadas bem moderno,
aproximando-nos do cotidiano de ilustres nomes da França nos anos 20, 
como Picasso, Lautrec, Cole Porter, Hemingway, Scott Fitzgerald,
Salvador Dalí, Luís Buñuel, Matisse,T.S. Eliot e tantos outros.
Encanta-nos a boemia parisiense, a magia da noite
e a poesia nos diálogos e nas descobertas do personagem principal,
um jovem romantico e encantado com Paris.
“Se você tiver a sorte de ter vivido em Paris quando jovem,
não importa por onde ande pelo resto de sua vida,
leva isso junto, porque Paris é uma festa ambulante”,
escreveu Hemingway em Paris é uma festa, seu livro de memórias
publicado postumamente, em 1964.

No cinema esperei até conferir a trilha sonora, maravilhosa,

com belíssimos arranjos.
Cole Porter cantando "Let's do it",
abre e encerra  o filme de maneira brilhante.
Eis aqui:

Let’s do it – Cole Porter

Si tu vois ma mère – Sidney Bechet
You do something to me – Cole Porter
Ain’t she sweet – Enoch Light and the Light Brigade
Charleston – Enoch Light and the Light Brigade
La Conga Blicoti – Jospéhine Baker
You’ve Got That Thing – Cole Porter
Cancan – Offenbach
Parlez moi d’Amour – Juliette Greco

Além de tudo isso, W.Allen consegue questionar o sentido da vida.
O homem certamente vê mais poesia no tempo que passou,
achando que outro lugar e outro tempo seriam mais adequados
para a sua vida e para sua realização.
Também é inerente ao homem pensar que outras vidas
seriam melhores de ser vividas. Lêdo engano!
É muito interessante quando o personagem principal do filme,
Gil Pender (Owen Wilson), vê a personagem Adriana,
que vivia o papel da amante de Picasso,
ao voltar no tempo, fascinada pela Belle Époque,
que foi um período de cultura cosmopolita na história da Europa,
que começou no final do século XIX (1871).
Cada tempo tem seu fascinio, seu charme, sua poesia,
e traz novos modos de pensar e viver o cotidiano.



Meia Noite em Paris é para mim, acima de tudo, uma grande hstória de amor.
O amor de W.A pelo cinema, o amor por Paris,
pela música, pela literatura, pela vida! 

terça-feira, 10 de maio de 2011

L'Amour Fou

 O Louco Amor de Yves Saint Laurent

Yves Saint Laurent - Pierre Bergé, l'amour fou
França , 2010 - 98 min.
Documentário
Direção: Pierre Thoretton
Elenco: Yves Saint-Laurent, Pierre Bergé, Betty Catroux,
Loulou De La Falaise, Jack Lang, Frédéric Chambre,
Boujemaa Lahbali, Catherine Deneuve, Laetitia Casta

Filme melancólico, sombrio, mas de uma beleza extraordinária,
principalmente pela “preciosa” coleção de obras de arte
que YSL e Pierre Bergé possuíam e que ao lado das peças
que revolucionaram a alta costura, desfilavam sob nossos olhares.



A magnífica residência em Paris e as casas da Normandia e Marrakesh deslumbram, tanto pela arquitetura, beleza, poesia,
como pelo bom gosto da decoração, das peças de arte,
desde vasos chineses, até quadros de Matisse, Picasso, Cezanne,
Mondrian, e uma rara escultura do romeno Brancusi
Com a morte de Yves em 2008, Bergé decidiu vender a coleção.
Foi arrecadado 370 milhoes de euros, o “leilão do século”,
como ficou conhecido.


O documentário foi narrado pelo próprio Pierre Bergé,
com quem YSL viveu durante cinqüenta anos.
Existem cenas emocionantes, principalmente as do último desfile de Yves Saint Laurent (janeiro de 2002, quando ele anunciou sua aposentaria), e de seu funeral, em Paris, quando Bergé faz em público a sua declaração de amor.
É uma belíssima história de amor.
Através de Bergé, conhecemos um Ives Saint Laurent mais humano, tímido, depressivo, e com a auto estima balançada.
Entretanto era homem de enorme sensibilidade, amante das artes,
da poesia, mudando após Dior, o panorama da moda em todo o mundo.

Bergé disse à rádio France Info:

"Chanel deu liberdade às mulheres.
Yves Saint Laurent lhes deu poder".

Segue abaixo a cópia na íntegra,
do discurso de Ives Saint Laurent.


Dia 7 de janeiro de 2002, Yves Saint Laurent
anunciou em Paris o seu afastamento da moda.
A imprensa mundial foi convidada a comparecer à maison do estilista,
no número 5 da avenida Marceau, onde Saint Laurent,
com 65 anos, leu o texto abaixo:


Senhoras e Senhores,


Convidei vocês para virem hoje a esta casa a fim de lhes dar uma notícia importante, que diz respeito à minha vida pessoal e ao meu trabalho.


Eu tive a oportunidade de me tornar aos 18 anos assistente de Christian Dior, de sucedê-lo aos 21 anos e de encontrar o sucesso desde a minha primeira coleção, em 1958. Em poucos dias, serão já 44 anos desde que tudo isso começou.
Depois, eu vivi para o meu trabalho e em nome de meu trabalho.
Eu quero homenagear aqueles que me influenciaram, que me guiaram na minha atividade e me serviram de referência.
Antes de todos, Christian Dior, o meu mestre e o primeiro que me levou a descobrir os segredos e os mistérios da alta costura. Balenciaga, Schiaparelli. Chanel, claro, que me deu tantas coisas e, como se sabe, liberou as mulheres. O que me permitiu, anos mais tarde, dar a elas o poder e, de uma certa maneira, liberar a moda.


Ao abrir, em 1966, pela primeira vez no mundo, uma butique de prêt-à-porter com a marca de um grande costureiro, criando sem me referir à alta costura, tenho consciência de haver feito progredir a moda de meu tempo e de haver permitido às mulheres acederem a um universo até então reservado.


Como Chanel, sempre aceitei a cópia e me orgulho muito que as mulheres de todo o mundo vistam tailleurs-pantalons, smokings, cabans e trench-coats. Digo a mim mesmo que criei o guarda-roupa da mulher contemporânea, que participei da transformação de minha época. Eu o fiz com roupas, o que é certamente menos importante do que a música, a arquitetura, a pintura e várias outras artes, mas, seja como for, eu o fiz.


Creio que serei perdoado por contar vantagens, mas, desde há muito tempo, eu acreditei que a moda não era apenas para embelezar as mulheres, mas também para lhes dar confiança, certeza, permitir que elas se assumissem.


Sempre fui contra os fantasmas de alguns que satisfazem seu ego através da moda. Ao contrário, eu quis me colocar a serviço das mulheres. Quer dizer, servi-las. Servir seus corpos, seus gestos, suas atitudes, sua vida. Quis acompanhá-las no grande movimento de liberação que conheceu o último século.


Tive a oportunidade de criar em 1962 minha própria maison de costura. Já faz 40 anos.
Eu quero agradecer àqueles que, desde o início, tiveram confiança em mim.
Michel de Brunhof, que me conduziu até Christian Dior. Mack Robinson, que acreditou no meu destino e permitiu que eu abrisse minha maison. Richard Salomon, a quem eu devo tanto.
Como poderia esquecer os jornalistas, como John Fairchild, Carmel Snow, Diana Vreeland, Nancy White, Eugenia Sheppard, Edmonde Charles-Roux, Françoise Giroud?


Mais próximo de mim, quero agradecer a Pierre Bergé, claro, mas será que vale a pena insistir nisso? Anne-Marie Munoz, Loulou de La Falaise. É impossível para mim citar todos os Premiers e Premières de ateliê que me acompanharam desde o início. Contudo, o que eu teria feito sem eles, sem o seu grande talento, que eu gostaria de saudar? Todos os operários e operárias, cujo devotamento admirável me ajudaram tanto e aos quais quero exprimir minha profunda gratidão, como também ao conjunto dos funcionários da minha maison.


Quero agradecer às mulheres que vestiram minhas roupas, as célebres e as desconhecidas, que me foram fiéis e me deram tanta alegria.
Tenho consciência de ter feito, durante longos anos, o meu trabalho com rigor e exigência. Sem concessões. Sempre coloquei acima de tudo o respeito por esse trabalho, que não é de fato uma arte, mas que precisa de um artista para existir.
Penso que eu não traí o adolescente que mostrou os primeiros croquis a
Christian Dior com uma fé e uma convicção inquebrantáveis. Essa fé e essa convicção nunca me abandonaram.


Todo homem, para viver, precisa de fantasmas estéticos. Eu os segui, procurei, persegui. Passei por muitas angústias, às vezes por infernos. Conheci o medo e a solidão terrível, os falsos amigos que são os tranquilizantes e os estimulantes. A prisão da depressão e das casas de saúde. De tudo isso, um dia eu saí maravilhado, mas desiludido.
Marcel Proust me ensinou que "a magnífica e lamentável família dos nervosos é o sal da terra". Sem sabê-lo, eu fiz parte dessa família. É a minha. Eu não escolhi essa linha fatal, contudo é graças a ela que eu me elevei ao céu da criação, que eu me aproximei dos fabricantes do fogo, dos quais fala Rimbaud, que eu me achei, que eu compreendi que o encontro mais importante da minha vida deveria ser comigo mesmo.


Apesar de tudo, eu escolhi dizer adeus, hoje, a esse trabalho que eu tanto amei.
O próximo desfile, para o qual eu convido os senhores, em 22 de janeiro, no Centro Georges Pompidou, será em grande parte uma retrospectiva de minha obra.
Muitos de vocês já conhecem os modelos que desfilarão. Eu tenho a ingenuidade de acreditar que eles podem desafiar os ataques do tempo e assegurar seu lugar no mundo de hoje. Eles já provaram isso. Outros modelos desta saison os acompanharão.


Quero agradecer igualmente ao sr. François Pinault e manifestar a ele a minha gratidão por permitir que eu colocasse harmoniosamente um ponto final a esta maravilhosa aventura e por ter acreditado, como eu, que a alta costura desta maison deveria se interromper com minha partida.


Enfim, quero agradecer a vocês, que estão aqui, e àqueles que não estão, por terem sido fiéis aos encontros que tivemos ao longo de tantos anos. Por terem me apoiado, compreendido, amado.


Eu não os esquecerei.


(Tradução de Alcino Leite neto).


                                Ives Saint Laurent e Pierre Bergé

sábado, 28 de agosto de 2010

O CINEMA E A POESIA


Brilho de uma Paixão (Bright Star - Reino Unido/Austrália/ França/2009)

Em 1819, o poeta John Keats inicia um romance com Fanny Brawne.
O relacionamento dura apenas três anos,
sendo subitamente interrompido
pela morte prematura de Keats, aos 25 anos.
Uma história de amor real,
narrada sob o ponto de vista da jovem Fanny.

A poesia de Keats, a magia do cinema,
Eis um raro momento de beleza,
Tão raro e ao mesmo tempo tão presente.
E a vida segue repleta de contrastes.

John Keats nasceu em outubro de 1795 na Inglaterra,
sem imaginar que se tornaria um dos maiores poetas do romantismo inglês.
Estudou medicina mas abandonou a carreira
para buscar na poesia "a verdade da imaginação".
Suas "odes" se tornaram uma grande influência
para escritores e críticos do século XXI
- como os versos finais de "Ode sobre uma urna grega" ,
considerados enigmáticos e ainda discutidos por estudiosos da poesia inglesa:
"Beleza é verdade, a verdade da beleza
É tudo o que há para saber e nada mais"
Considerado muito espirituoso, simpático e inteligente,
Keats circulou entre autores importantes da época como Leigh Hunt e Shelley.
Seus primeiros livros de poesia não foram aceitos pela crítica,
mas o próprio Keaton (como num presságio) considerou "coisas de momento"
- disse o poeta: "Acho que estarei entre os poetas ingleses depois da minha morte".
Suas cartas são consideradas de inteligência singular,
com informações sobre o que considerava poesia
como a famosa frase "se a poesia não surgir tão naturalmente quanto as folhas em uma árvore,
é melhor que não apareça mesmo".
Keaton morreu cedo, aos 25 anos, de tuberculose.


Endymion (trecho)
O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem do céus e alenta a nossa vida.


Endymion (trecho)

A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases;
it will never Pass into nothingness;
but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.
Therefore, on every morrow, are we wreathing
A flowery band to bind us to the earth,
Spite of despondence, of the inhuman dearth
Of noble natures, of the gloomy days,
Of all the unhealthy and o'er-darkened ways::
Made for our searching: yes, in spite of all,
Some shape of beauty moves away the pall
From our dark spirits. Such the sun, the moon,
Trees old and young, sprouting a shady boon
For simple sheep; and such are daffodils
With the green world they live in; and clear rills
That for themselves a cooling covert make
'Gainst the hot season; the mid forest brake,
Rich with a sprinkling of fair musk-rose blooms:
And such too is the grandeur of the dooms
We have imagined for the mighty dead;
All lovely tales that we have heard or read:
An endless fountain of immortal drink,
Pouring unto us from the heaven's brink.
KEATS, John. "From Endymion" / "Do Endymion".
In: CAMPOS, Augusto de. Byron e Keats: Entreversos.
Traduções de Augusto de Campos. Campinas: Editora Unicamp, 2009.




segunda-feira, 28 de junho de 2010

HANAMI - CEREJEIRAS EM FLOR

Sinopse
Apenas Trudi sabe que seu marido Rudi está sofrendo de uma doença terminal e ela precisa decidir se vai contar a ele ou não. O médico sugere que eles façam algo juntos, como realizar um velho sonho. Trudi decide não contar ao marido sobre a gravidade de sua doença e aceita o conselho do médico. Ela há muito tempo gostaria de ir ao Japão, mas primeiramente convence Rudi a visitar seus filhos e netos em Berlim. Quando chega na cidade, o casal percebe que os filhos estão tão ocupados com suas próprias vidas que não têm tempo para sair com eles. Na segunda viagem que Rudi aceita fazer com a esposa, ela morre repentinamente. Rudi fica devastado e não tem a menor idéia do que fazer. Através do contato com a amiga de sua filha, Rudi compreende que o amor de Trudi por ele havia feito com que ela deixasse de lado a vida que queria viver. Ele começa a vê-la com outros olhos e promete compensar sua vida perdida embarcando em uma última jornada, para o Japão, na época do festival das cerejeiras, uma celebração da beleza, da impermanência e de um novo começo.
www.mostra.org

Diretor
Doris Dörrie
Fotografia
Hanno Lentz
Música
Claus Bantzer
Elenco
Elmar Wepper, Hannelore Elsner, Aya Irizuki, Nadja Uhl, Maximilian Brückner, Birgit Minichmayr



Tive fim de semana "junino", com excelentes filmes:
"Mãos Talentosas" e "A Fita Branca". Assistam!

Entretanto, passei a tarde ontem com uma "velha" amiga,
tia do coração e pessoa de grande sensibilidade e carinho.
Com Tereza aprendi a olhar para a velhice com coragem e otimismo,
o que a faz certamente uma companhia maravilhosa.
Nós sempre conversamos muito sobre cinema,
pois temos essa paixão em comum.
Ela recomendou-me "As cerejeiras em Flor",
filme que assisti hoje e que recomendo.

É um filme alemão, mas que mostra a beleza da fotografia,
nas belíssimas paisagens do Japão.
A visão quase final do Monte Fuji, é algo deslumbrante.
Cenas cheias de beleza e emoção.
Um dos melhores filmes que já vi, intenso, dramático, melancólico,
profunda reflexão sobre o cotidiano, a vida familiar,
a ausencia e falta do tempo dos filhos na vida moderna,
a dor da perda, a morte, a velhice, o companheirismo, a solidão.
Um filme inesquecível!
As cerejeiras em flor são efêmeras, e o filme aborda justamente
a "efemeridade" da vida.
Difícil não se emocionar com o filme, quase impossível!
Leve uma caixa de lenços!

Os atores pricipais Elmar Wepper(Rudi), Hannelore Elsner(Trudi)
e Aya Irizuki, a japonesinha Yu, são excelentes, como o roteiro, a fotografia
e a excelente música, trilha sonora de primeiro top.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Woody Allen

Tudo Pode Dar Certo - Woody Allen

Há algum tempo não assistia uma comédia tão inteligente e divertida.
Woody Allen retorna as comédias Nova-Iorquinas,
mostrando o cotidiano de um personagem excêntrico,
hipocondríaco, mal-humorado, rabugento, neurótico,
mas incompreensivelmente muito engraçado.
Com tantas qualidades... confesso que o personagem encantou-me!
Boris Yellnikoff (Larry David), rouba a cena,
protagonizando um homem atual,
que não acredita na vida, nas relações e nas pessoas,
e que parece mesmo não ter possibilidades de se reorganizar.
A vida na mega cidade, a falta de crença nas pessoas, o isolamento,
a solidão, a identidade perdida,
tornam essa comédia contemporânea e curiosa.
É evidente durante o filme, a importancia da simplicidade na vida,
onde a delicadeza, cumplicidade e ternura nas relações,
tornam-se fontes de vida e de bom-humor.
A porta ao lado, não representa uma possibilidade para muitos,
sequer sabe-se que ela existe.
A falta de flexibilidade nos escraviza ainda mais,
frente ao cotidiano muitas vezes sem perspectivas e sem sucesso.
Com otimismo, tudo pode dar certo!
A vida certamente nos surpreende a cada dia.
Não deixe de ver, vale muito a pena!




Larry David, sucesso com o seriado "Seinfeld"
na TV anericana.







quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

CINEMA

"O FILME FALADO" , Manuel de Oliveira

Tive o prazer de assitir e recomendo.
Mesmo com atraso, já que foi lançado em 2003,
Quem não viu deve fazê-lo.
Uma verdadeira aula de história, política, tolerância e civilidade.


“Um filme falado” afirma a sabedoria das palavras
A mais recente obra de Manoel de Oliveira

pode parecer uma defesa da civilização branca e ocidental.
Mas é possível chegar à conclusão oposta.
O filme alerta para a necessidade de que a ação
seja orientada pela sabedoria da fala.
Seja ela ocidental ou oriental.

O filme descreve um cruzeiro marítimo de Rosa Maria (Leonor Silveira)

e sua filha, a menina Maria Joana (Filipa de Almeida),
por cidades do Mar Mediterrâneo.
Além de mãe, Rosa também é historiadora.
O que possibilita que também o espectador aprenda
através dos lugares históricos por que passam as personagens.
Além disso, muitas das perguntas da menina Joana
são daquelas que nos esquecemos de nos fazer mais vezes:
O que são lendas? O que é mito? O que é contemporâneo?
O recurso também é uma forma de nos provocar
e transmitir o recado do diretor.
O problema é que o recado corre o risco de ser mal interpretado.
Vejamos porque.
O início do filme, por exemplo,

passa pelo perigo de ser considerado uma defesa da visão européia de mundo.
O nevoeiro que dificulta avistar os monumentos no porto de Lisboa
simboliza o desaparecimento no passado das glórias de um Portugal imperial. Muitos podem enxergar na cena
a saudade dos antigos navegadores portugueses.
Aqueles que mais do que descobrir terras distantes,
abriram caminho para os massacres de quem nelas vivia pelos europeus.
Essa idéia também está perigosamente combinada

com a cena da leitura da placa, em Marselha.
Trata-se de uma placa fixada no chão,
assinalando a chegada dos gregos à cidade,
sete séculos Antes de Cristo.
As palavras gravadas afirmam que a vinda dos gregos
é a inauguração da própria civilização por aquelas paragens
e ponto de partida de sua difusão pela Europa.
Parece a tese hoje bastante combatida de que fora
e antes da civilização ocidental há um vazio.
Na melhor das hipóteses, habitado por bárbaros.
Aprendendo com pessoas normais e atravessando idiomas
Essa impressão fica mais moderada

quando a viagem estende-se até o Egito,
o que desloca a viagem para o continente africano,
ainda que continue perto do berço mediterrânico da sociedade ocidental.
É nesta cena também que Rosa explica a Joana
que trabalho escravo foi utilizado na construção das enormes pirâmides.
E que, portanto, as maravilhas ali presentes custaram vidas humanas.
E que a civilização é assim mesmo, contraditória e cheia de erros.
Essa consideração melhora a situação do filme.
O passeio por Istambul também ajuda,
quando a mãe explica à filha que os muçulmanos
têm o direito a sua religião,tal como os cristãos.
Outro aspecto do filme é a recuperação da idéia da viagem

como momento de conhecer pessoas e outras tradições
e não apenas ruínas, monumentos e curiosidades.
O fato de ser historiadora permite a Rosa Maria
passear pelos lugares turísticos sem precisar integrar
os rebanhos de turistas levados por seus guias tagarelas.
Mais uma vantagem da professora é seu domínio do inglês e do francês.

Isso também lhe dá a chance saber o que ignora com pessoas normais,
como o pescador em Marselha, o padre ortodoxo na Grécia
e o ator português no Egito.
Sem isso, o viajante fica como a pequena Joana,
excluída de algumas conversas.
Aliás, é como ficaria o público de muitos lugares do mundo
se o filme não trouxesse legendas. Até do Brasil.
Pode parecer exagero, mas há um razoável distanciamento

entre o português de vogais fechadas e consoantes ásperas dos lusitanos
e o modo brasileiro de falar.
Influenciados pelos indígenas e negros,
expandimos as vogais e suavizamos as consoantes.
Essa situação dá ao filme de Manoel de Oliveira
um sabor diferente para nós, que falamos português do lado de cá do oceano.
É o que ocorre, por exemplo, na tradução da frase
"o vulcão deitou lava e cinzas", mais literária,
pela forma mais técnica presente em "o vulcão expeliu lava...".
Esquemas não dão conta da riqueza simbólica das línguas
A sucessão de paisagens dá lugar

a um debate travado durante um jantar no restaurante do navio.
Envolvidos nele estão o comandante da embarcação (John Malkovich)
e três senhoras. Uma é italiana (Stefania Sandrelli),
outra é grega (Irene Papas) e a terceira é francesa (Catherine Deneuve).
O capitão é norte-americano,
como calha a quem representa a nação que dirige o mundo.
Falando cada um em sua língua natal,
eles se entendem perfeitamente.
Discutem amor, profissões, sonhos, frustrações etc.
A conversa é inteligente e delicada,
que é dominada por mulheres cultas e européias.
O momento que nos interessa é aquele em que Maria e sua filha

juntam-se ao grupo, convidadas pelo capitão.
Desta vez, as mulheres poliglotas admitem não dominar o português.
Talvez, a cena tenha como objetivo mostrar a marginalização de Portugal
em relação ao restante da Europa.
Algo que outro português procurou fazer na literatura.
Estamos falando de "A Jangada de Pedra", de José Saramago.
De qualquer maneira, Maria se dispõe a falar inglês.
Fica clara a atual condição universal do idioma inglês.
O incidente leva Helena, a senhora grega,

a lamentar a situação de sua língua natal,
fazendo uma comparação com o idioma português.
Esta última é falada pelos que dominaram o mundo nos séculos 16 e 17,
diz ela, tal como os gregos o fizeram na Antiguidade.
Mas, a língua lusitana está presente em vários continentes,
ao passo que o uso do grego ficou restrito a sua terra de origem.
No entanto, Helena consola-se com o fato de que palavras de seu idioma
estão presentes em praticamente todas as línguas ocidentais.
E lembra alguns exemplos como "telefone" e "quilômetro".
não lembrou de dizer "cinema" e "televisão".
Esta conclusão alegra a todos,

mas também serve para nos lembrar que a língua
e outras esferas da vida cultural são muito mais ricas e dinâmicas
do que querem alguns esquemas.
Não há uma relação mecânica entre a economia, por exemplo,
e a criação simbólica presente na linguagem.
É verdade que o inglês impera porque impera
a dominação anglo-americana no planeta há uns 200 anos.
No entanto, nos próprios Estados Unidos, já surgiu o "spanglish".
Uma mistura entre espanhol e inglês
que apareceu devido à enorme presença dos hispânicos em território ianque.
O fenômeno já está assustando os conservadores norte-americanos.
Um deles chegou até escrever um livro,
preocupado com a corrupção dos valores ianques
por elementos culturais que lhes seriam estranhos.
Trata-se de "Quem Somos: Desafios à Identidade Nacional Americana",
de Samuel P. Huntington.
É a força-de-trabalho barata e superexplorada
vindas dos sul que se vinga de seus exploradores
"contaminando" sua poderosa língua.
Se a vingança dos debaixo em terras americanas
vai ficar apenas na ameaça cultural ainda é uma questão em aberto.
A ação sem palavras é bruta e cega
Voltando ao filme, seu trágico final

corre o perigo de provocar uma leitura equivocada das intenções do diretor.
Há o risco de que a destruição do navio apareça
como mais uma ação bárbara contra os "civilizados".
Uma condenação do fanatismo oriental,
incapaz de reconhecer o saber
e a moralidade superiores do Ocidente.
Por outro lado, durante o debate entre as três senhoras e o capitão,

a União Européia também é lamentada por seus próprios defeitos.
E nem poderia ser diferente.
Nobre e culta como aparenta ser,
a Europa foi palco para monstros como Hitler, Mussolini, Franco e Salazar.
A tão decantada Grécia foi governada por uma ditadura sanguinária
em plena década de 60.
Hoje, a união do Velho Continente acontece
em um ambiente cheio de racismo e intolerância.
Tudo sob os olhos conservadores de Tony Blair
e a careta fascista de Berlusconi.
Além disso, a cena final do filme

também permite uma conclusão crítica às pretensões ocidentais.
Trata-se da cara assustada do capitão ao contemplar a explosão.
O rosto congelado do norte-americano
enquanto passa o letreiro final parece dizer algo para o imperialismo ianque
e seus apoiadores na Europa.
O capitão olha assustado, como devem fazê-lo muitos norte-americanos
e europeus ao observar seus governos
colocando em marcha a máquina da guerra.
Combatendo aqueles que consideram selvagens, imorais e diabólicos,
Bush e aliados tornam o mundo bárbaro à sua própria imagem e semelhança.
O contrário disso é a relação bonita entre mãe e filha

através de palavras cheias de sabedoria, amor e respeito.
Elas simbolizam o que a humanidade pode ser.
A bola de fogo que destruiu essa possibilidade no filme
é uma ameaça concreta na vida real.
É preciso agir contra ela. Mas a ação sem palavras é bruta e cega.
Sem o verbo não há ação criativa contra o silêncio da destruição e do caos.
É o que ensinam textos antigos do Oeste e do Leste.
Sérgio Domingues integra a equipe do NPC e escreve

para as páginas Mídia Vigiada e Revolutas

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

"Ter um blog é como estar no AA".


Bon Appetit!

Cada vez que assisto um filme com a Meryl Streep,
penso que é a sua superação.
Entretanto sou surpreendida a cada nova estréia.
Foi assim quando vi “As pontes de Madison”,“A Escolha de Sofia”,
“As Horas”, “Entre dois amores”,“ O diabo veste Prada”,
“A última noite”, “Júlia”, “A casa dos Espíritos’’ dentre muitos outros.
Além do filme “delicioso”, que é Julie&Julia, melhor ainda
é ver Meryl Streep vivendo um papel que parece escrito para ela.
Decididamente Meryl continua sendo minha atriz preferida.
Através da classificação de “comédia romântica”,
Julie&Julia é uma história de desafios e superação.
De forma muito delicada e simples,
fala da importância em se fazer as coisas com paixão.
A sua mensagem é de que a vida deve ser vivida
com leveza e alegria, sempre, inclusive na cozinha.
Há uma cena do filme, onde a Julia Child
tenta virar uma omelete na frigideira,
num programa culinário na TV,
e grande parte da omelete caí no fogão.
Ela junta o que caiu de volta a frigideira e comenta:
“Se você está sozinho na cozinha, não tem problema”.
Além de tudo, Paul Child o diplomata marido da Julia (Stanley Tucci)
e Julia Child (Meryl Streep) vivem um casal
onde a cumplicidade e o amor reafirmam o ideal dos relacionamentos.
O filme além de tudo é uma viagem gastronômica,
“Boeuf Bourguignon” , “Salada Verde”, “ Ovos Nevados” ,
"Omeletes", "Alcachofras ao creme" ,“Pato Desossado”
e muitas outras delícias......

Ainda encontrei uma receita de Julia Child,
que parece deliciosa, experimentem!

Crêpes da Julia Child [Mimos da Fer]

Ingredientes:
(Para 12 crepes de 16 cm)
1 xícara de água gelada 1 xícara de leite gelado 4 ovos grandes
1/2 colher (chá) de sal 2 xícaras de farinha de trigo
4 colheres (sopa) de manteiga derretida
Bata todos os ingredientes no liqüidificador
em velocidade alta por 1 minuto.
Leve à geladeira por pelo menos 2 horas.
Unte levemente uma panquequeira de teflon ou ferro com óleo.
Leve ao fogo médio até começar a sair fumaça.
Retire do fogo e despeje cerca de 1/4 de xícara da massa,
inclinando a panquequeira de modo que a massa
alcance toda a superfície e que fique bem fina.
Volte ao fogo e deixe por cerca de 1 minuto.
Ele estará pronto quando soltar facilmente
ao mexer a panquequeira.
Vire o crepe e deixe o outro lado por 30 segundos.
Esse lado deve ser o que fica pra dentro.
Repita o processo com o restante da massa.

Fonte: The French Chef Cookbook [Julia Child].

domingo, 19 de julho de 2009

CINEMA - "A ALEGRIA DE EMMA"

Baseado no livro da escritora alemã Claudia Schreiber,
este filme alemão, de 2006, é imperdível.
Fala do amor, da essencia desse sentimento sublime
que facilmente nos tira do ar, e nos leva por caminhos que nunca imaginávamos ir.
Amar traz-nos também a possibilidade do sofrimento, da dor, do abandono,
mas nem assim o evitamos, pois amar também nos engrandece, nos transforma, nos rejuvenesce, nos faz melhores pessoas, nos completa.
É um filme alegre, terno, engraçado, que nos emociona e faz-nos surpreender a cada cena.
Mostra a simplicidade do amor, a entrega e nos remete a velha pergunta, o que é o amor?
É preciso vê-lo, simplesmente!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

PALAVRA EN(CANTADA), 8.06.2009

A amiga Tania, pela força e entusiasmo das "palavras",
que me levaram hoje ao cinema,
apesar do "tempo ruim".

Impossível esquecer o en(canto) das palavras deste filme,
ou documentário, ou os dois!
Um olhar especial para a relação entre poesia e música.
De Helena Solberg e Marcio Debellian, mais uma obra prima
do cinema brasileiro, que nasce do desejo da diretora de ir às raízes do Brasil.
Palavra en(cantada) deixa-me orgulhosa do Brasil,
faz-me refletir sobre o "doce som" das palavras,
da música e da poesia, que tantas vezes vi
nos olhos portugueses en(cantados).
Brasil,de tantas contradições e encantos,
onde pulsa forte nossa miscigenação,
mistura que faz a beleza,
riqueza do povo,
forte, sedutor, provocante, verdadeiro,
sofrido e tão corajoso, guerreiro,
frágil e de alma esperançosa,
"a solta", com grilhões a romper,
com tantas faces do mundo! (Carmen Bastos)

"Criou-se no Brasil uma situação que não existe em nenhum outro país: uma canção popular fortíssima, que ganhou uma capacidade de falar e cantar para auditórios imensos, e levar para esses auditórios poesia de densa qualidade, com a leveza que a canção tem", observa no filme o músico e professor de literatura da USP, José Miguel Wisnik.

Tarde de junho, vento, chuva, inverno,
não há frio!
Carrego literalmente as "meninas" para o cinema,
presente para mim e para nós,
Esquecemos por pouco tempo a cerâmica, arte mãe, maior,
para ouvir as palavras en(cantadas).









Gleice, Darlene, Silvia e Carmen,
en(cantadas)!










































Pausa para olhar as belíssimas flores,
para fazer do momento especial!