quarta-feira, 11 de maio de 2011

IVES SAINT LAURENT

No Blog da estilista paulista Adriana Rodrigues ( http://adrianarodriguesdesign.blogspot.com/),
encontrei esta síntese perfeita.
História e vida de YSL, escrita com muita sensibilidade e conhecimento,
de quem fala de moda com amor.
Parabéns Adriana!

POSTADO POR ADRIANA RODRIGUES



Yves Henri Donat Mathieu Saint Laurent
Se, de Nova York a Paris e de Sidney a Pequim, mais de dois milhões de visitantes admiraram suas criações no museu, seu estilo é expresso em primeiro lugar através da cor, da vida, do movimento e da história das mulheres, que ele acompanha com amor desde 1958, data de sua primeira coleção na Christian Dior, que o tornou célebre no mundo inteiro. Nascido em Oran, na Argélia, em 1956, ele tem apenas vinte e um anos quando o chamam de Christian II. Ele funda sua maison de costura em 1962 com Pierre Bergé, e lança em 1966 sua linha de prêt-à-porter "Rive Gauche", permitindo a milhares de mulheres conjugar elegância e conforto. Assim, a saharienne (1967) ou o terninho (1968) vão se tornar clássicos do guarda-roupa contemporâneo.
"Uma mulher feliz é uma mulher de saia preta, com um pulôver preto, meias pretas, uma jóia de fantasia e um homem que a ame ao lado".
Para se impor como o maior costureiro de sua época, esse esteta soube, mais do que ninguém, transcrever seus sonhos inspirados pelos pintores:
Andy Warhol, Mondrian e Tom Wesselrnan nos anos 60, Picasso nos anos 70, Van Gogh e Bonnard nos anos 80. Suas criações causaram escândalo, sejam as primeiras blusas transparentes (1968), ou o perfume Opium, lançado em 1977. Mas a sua força está também em encarnar ao mesmo tempo o classicismo absoluto, tendo como embaixatriz Catherine Deneuve. Herdeiro de Chanel e Balenciaga, ele se mantém fiel a essas linhas que não possuem qualquer detalhe em excesso:
"a elegância é urna maneira de se mover".
Grande colecionador, apaixonado por ópera, Yves Saint-Laurent é um dos últimos grandes estetas deste final de século. De Cyrano de Bergerac a A Águia de duas Cabeças, ele criou inúmeros figurinos para o teatro, sua primeira paixão. Sua arte é depurada e, de um sopro de musselina, ele recria sonhos dignos de um Botticelli, para dizer melhor:
"O mais belo ornamento de um homem ou uma mulher é o amor".


Primeiro costureiro a vestir as mulheres com transparências, Yves Saint Laurent também foi o primeiro a entrar, ainda em vida, para o museu. Foi em 1983, no Metropolitan Museum de Nova York. Seu nome é uma lenda. Sua griffe, um império. Seus desfiles, rituais.
Quarenta anos depois de sua coleção Trapézio, que lhe valeu o apelido de "o mais novo nome da alta costura", Yves Saint Laurent permanece um enigma, um anarquista bilionário capaz de declarar:
"Só lamento uma coisa, não ter inventado o jeans."
Primeiro costureiro a lançar um blusão negro (em 1960, na Maison Dior), e substituir os escarpãs por botas longas, ele é também um dos últimos a se submeter, com uma grande humildade, à obrigação que se impôs desde os anos de aprendizagem na Maison Dior...
"Todos os meus vestidos nascem de um gesto. Um vestido que não reflete ou não faz pensar em um gesto não é bom. Uma vez encontrado esse gesto, pode-se escolher a cor, a forma definitiva..."
YSL foi o primeiro costureiro a constituir sua própria coleção particular. Outro paradoxo, para aquele cujas roupas são feitas em primeiro lugar para as mulheres, e as que as vestirão: "Com Yves Saint Laurent a gente sente que existe um desenho por trás da roupa. Existe a mão, o olho, o espírito, esse gosto que encontramos nas operárias que conhecem o nosso corpo. O vestido existe porque elas observaram você, e elas sabem...", observa uma cliente.


Ex-primeira costureira do ateliê, Madame Renée desvenda, sem revelar, o mistério dos drapeados de Saint Laurent:


"A gente tenta captar o movimento de um sari, preservar o lado flexível do esboço. Quando eu experimento os modelos nas manequins, faço com que se movimentem pelo ateliê. É importante que elas se sintam ao mesmo tempo seguras e leves. O Sr. Saint Laurent detesta entraves. Ele tem horror à idéia de que uma mulher seja bloqueada ao caminhar."


Os escândalos YSL
Em 1966, sua see-through blouse provocou o maior escândalo nos Estados Unidos. Dois anos mais tarde, uma cliente que chegava a um restaurante em Nova York numa túnica-pantalona de jersey é proibida de entrar. Ela reaparece só de túnica (que virou um mini-vestido), e é aceita...


"Eu quero encontrar para as mulheres o equivalente do terno masculino", explicava ele em 1967, liberando a moda de suas histórias de comprimentos e cores, para fazê-la alcançar a época. Seu grande escândalo terá sido o de exaltar o corpo, de substituir a palavra elegância por sedução, acendendo o fogo do desejo, nos locais em que só cabiam conveniência e respeitabilidade.
A andrógina de Tom Ford não poderia ter nascido sem a amazona de YSL, declarando em 1966 o ano da coleção de prêt-à-porter Rive Gauche:


"A beleza? Nenhum interesse. O que conta é a sedução, o choque. O que se sente. É o puramente subjetivo. Pessoalmente, sou mais sensível ao gesto do que ao olhar, à silhueta ou a qualquer outra coisa..."


Foi ele quem quebrou as regras do jogo, falando de cores mais do que de "coloridos", esbanjando seus vermelhos, seus azuis e seus verdes, fazendo a costura oscilar no universo oriental dos bazares, dos souks temperados de visões. Desconhecidas, suas seis coleções na Maison Dior, entre 1958 e 1960, revelam em filigrana as obsessões de um jovem costureiro preocupado em dar continuidade à obra de seu mestre, e atraído pela época que se abre para ele, década de todas as liberações, segundo seu amigo Andy Warhol.


O vestido trapézio de 1958, que rompia com o modelo da mulher apertada, espremida do pós-guerra, anuncia a transição que será seguida por muitos outros: o caban (1962), o smoking (1966), a saharienne e os ternos masculinos (1967), o jumpsuit (macacão, 1968), e os vestidos transparentes (1969). Ela marca o fim dos diktats, cujas linhas sazonais da alta costura eram a tônica. Inspirada nos mercados das pulgas 2, a coleção de 1940 (1971), marcará a intrusão da "rua" na moda, fazendo de cada costureiro um antiquário em potencial


"O preto é meu refúgio, diz YSL, o preto é um risco numa página em branco".


Do preto, ele fez uma cor, um camaleão capaz de atravessar o dia e a noite, de romper a primavera e o inverno com a mesma força. Desse preto reservado às "cerimônias", ele fez um clássico cotidiano. Mas ele é também o costureiro da luz, aquele de quem os tons rosa - Toureiro, Magenta, Amor, Aurora - vibram e cintilam sobre a pele nua, fazendo de suas mulheres umas heroínas. Ao negro que simplifica, condensa, purifica opõem-se com ele, cor de todas as cores, esses vestidos de mil e uma noites, pousados como ornamentos sobre ídolos com corpo de ébano.


O costureiro camaleão


Aos vinte e um anos, ele parecia ter ficado velho. "Sua juventude foi completamente quebrada em 1958", diz sua mãe, Lucienne Mathieu Saint Laurent. Escondido por trás dos óculos, ele se revela nos anos 70, sob o porte de um adolescente, no papel de manequim para a coleção Rive Gauche para homem, chegando até a posar nu para as lentes de Jean-Loup Sieff, no lançamento de seu perfume. Uma estréia. Dândi em dufffle-coat à moda de Cocteau, Gatsby em terno branco, Swann em smoking, ele confunde, colorindo os cabelos, engorda, emagrece.


Primeiro a fazer da moda um espetáculo (coleção Ópera Balés Russos, 1976), ele foi o primeiro a prezar a solidão como um ídolo, a se deixar envelhecer, até mesmo para se proteger dos outros e dele mesmo. "Estou cada vez mais só. Não posso sair. Tenho medo do mundo exterior, da rua, da multidão. Só fico bem em casa, com meu cachorro, meus lápis e meus papéis..." afirma hoje YSL. Em sua solidão ele vê, critica a rua parisiense, prefere a ela "a energia de Nova York: essa maneira de misturar o esporte e a cidade, de não se desmoronar por trás de sua parka..."


As vertigens da arte


Em 1959, na Maison Dior, YSL celebra em suas coleções pintores como Goya, cujas "infantes", de rosto envolto em tule "ponto de espírito", são as heroínas. A coleção Mondrian e seus vestidos como "móbiles no espaço" (1965) será o prelúdio de uma nova aventura que faz de YSL o "Beatle da rua Spontini", criador da coleção Pop Art, inspirado por Andy Warhol e Tom Wesselman. Nos anos 70, as referências à arte, que serviam para inseri-lo na vida, o consumo dos tempos modernos torna-se um refúgio, uma espécie de ideal, território sagrado de todas as alquimias, ali onde a dor se torna beleza.


Yves Saint Laurent torna-se uma imagem, uma espécie de ícone, rodeado por uma muralha de ouro e silêncio. Da coleção Ópera Balés Russos à coleção "Picasso", a vertigem não cessará de aumentar, ali onde a moda, campo do efêmero, do transitório, roça a História, e suas obras-primas. Apresentados num clima dominado pela especulação do mercado de arte, as Iris e os Girassóis inspirados em Van Gogh, esses ternos cujos bordados farão deles os mais do mundo, mostram ainda a dupla tentação de YSL: acompanhar seu tempo, e ao mesmo tempo suspendê-lo. Ser o único capaz de ousar dizer, a propósito da mulher contemporânea:


"Eu inventei seu passado, ofereci-lhe seu futuro e isso durará até bem depois de minha morte."


A elegância segundo YSL: simplicidade e originalidade


ADRIANA RODRIGUES

terça-feira, 10 de maio de 2011

L'Amour Fou

 O Louco Amor de Yves Saint Laurent

Yves Saint Laurent - Pierre Bergé, l'amour fou
França , 2010 - 98 min.
Documentário
Direção: Pierre Thoretton
Elenco: Yves Saint-Laurent, Pierre Bergé, Betty Catroux,
Loulou De La Falaise, Jack Lang, Frédéric Chambre,
Boujemaa Lahbali, Catherine Deneuve, Laetitia Casta

Filme melancólico, sombrio, mas de uma beleza extraordinária,
principalmente pela “preciosa” coleção de obras de arte
que YSL e Pierre Bergé possuíam e que ao lado das peças
que revolucionaram a alta costura, desfilavam sob nossos olhares.



A magnífica residência em Paris e as casas da Normandia e Marrakesh deslumbram, tanto pela arquitetura, beleza, poesia,
como pelo bom gosto da decoração, das peças de arte,
desde vasos chineses, até quadros de Matisse, Picasso, Cezanne,
Mondrian, e uma rara escultura do romeno Brancusi
Com a morte de Yves em 2008, Bergé decidiu vender a coleção.
Foi arrecadado 370 milhoes de euros, o “leilão do século”,
como ficou conhecido.


O documentário foi narrado pelo próprio Pierre Bergé,
com quem YSL viveu durante cinqüenta anos.
Existem cenas emocionantes, principalmente as do último desfile de Yves Saint Laurent (janeiro de 2002, quando ele anunciou sua aposentaria), e de seu funeral, em Paris, quando Bergé faz em público a sua declaração de amor.
É uma belíssima história de amor.
Através de Bergé, conhecemos um Ives Saint Laurent mais humano, tímido, depressivo, e com a auto estima balançada.
Entretanto era homem de enorme sensibilidade, amante das artes,
da poesia, mudando após Dior, o panorama da moda em todo o mundo.

Bergé disse à rádio France Info:

"Chanel deu liberdade às mulheres.
Yves Saint Laurent lhes deu poder".

Segue abaixo a cópia na íntegra,
do discurso de Ives Saint Laurent.


Dia 7 de janeiro de 2002, Yves Saint Laurent
anunciou em Paris o seu afastamento da moda.
A imprensa mundial foi convidada a comparecer à maison do estilista,
no número 5 da avenida Marceau, onde Saint Laurent,
com 65 anos, leu o texto abaixo:


Senhoras e Senhores,


Convidei vocês para virem hoje a esta casa a fim de lhes dar uma notícia importante, que diz respeito à minha vida pessoal e ao meu trabalho.


Eu tive a oportunidade de me tornar aos 18 anos assistente de Christian Dior, de sucedê-lo aos 21 anos e de encontrar o sucesso desde a minha primeira coleção, em 1958. Em poucos dias, serão já 44 anos desde que tudo isso começou.
Depois, eu vivi para o meu trabalho e em nome de meu trabalho.
Eu quero homenagear aqueles que me influenciaram, que me guiaram na minha atividade e me serviram de referência.
Antes de todos, Christian Dior, o meu mestre e o primeiro que me levou a descobrir os segredos e os mistérios da alta costura. Balenciaga, Schiaparelli. Chanel, claro, que me deu tantas coisas e, como se sabe, liberou as mulheres. O que me permitiu, anos mais tarde, dar a elas o poder e, de uma certa maneira, liberar a moda.


Ao abrir, em 1966, pela primeira vez no mundo, uma butique de prêt-à-porter com a marca de um grande costureiro, criando sem me referir à alta costura, tenho consciência de haver feito progredir a moda de meu tempo e de haver permitido às mulheres acederem a um universo até então reservado.


Como Chanel, sempre aceitei a cópia e me orgulho muito que as mulheres de todo o mundo vistam tailleurs-pantalons, smokings, cabans e trench-coats. Digo a mim mesmo que criei o guarda-roupa da mulher contemporânea, que participei da transformação de minha época. Eu o fiz com roupas, o que é certamente menos importante do que a música, a arquitetura, a pintura e várias outras artes, mas, seja como for, eu o fiz.


Creio que serei perdoado por contar vantagens, mas, desde há muito tempo, eu acreditei que a moda não era apenas para embelezar as mulheres, mas também para lhes dar confiança, certeza, permitir que elas se assumissem.


Sempre fui contra os fantasmas de alguns que satisfazem seu ego através da moda. Ao contrário, eu quis me colocar a serviço das mulheres. Quer dizer, servi-las. Servir seus corpos, seus gestos, suas atitudes, sua vida. Quis acompanhá-las no grande movimento de liberação que conheceu o último século.


Tive a oportunidade de criar em 1962 minha própria maison de costura. Já faz 40 anos.
Eu quero agradecer àqueles que, desde o início, tiveram confiança em mim.
Michel de Brunhof, que me conduziu até Christian Dior. Mack Robinson, que acreditou no meu destino e permitiu que eu abrisse minha maison. Richard Salomon, a quem eu devo tanto.
Como poderia esquecer os jornalistas, como John Fairchild, Carmel Snow, Diana Vreeland, Nancy White, Eugenia Sheppard, Edmonde Charles-Roux, Françoise Giroud?


Mais próximo de mim, quero agradecer a Pierre Bergé, claro, mas será que vale a pena insistir nisso? Anne-Marie Munoz, Loulou de La Falaise. É impossível para mim citar todos os Premiers e Premières de ateliê que me acompanharam desde o início. Contudo, o que eu teria feito sem eles, sem o seu grande talento, que eu gostaria de saudar? Todos os operários e operárias, cujo devotamento admirável me ajudaram tanto e aos quais quero exprimir minha profunda gratidão, como também ao conjunto dos funcionários da minha maison.


Quero agradecer às mulheres que vestiram minhas roupas, as célebres e as desconhecidas, que me foram fiéis e me deram tanta alegria.
Tenho consciência de ter feito, durante longos anos, o meu trabalho com rigor e exigência. Sem concessões. Sempre coloquei acima de tudo o respeito por esse trabalho, que não é de fato uma arte, mas que precisa de um artista para existir.
Penso que eu não traí o adolescente que mostrou os primeiros croquis a
Christian Dior com uma fé e uma convicção inquebrantáveis. Essa fé e essa convicção nunca me abandonaram.


Todo homem, para viver, precisa de fantasmas estéticos. Eu os segui, procurei, persegui. Passei por muitas angústias, às vezes por infernos. Conheci o medo e a solidão terrível, os falsos amigos que são os tranquilizantes e os estimulantes. A prisão da depressão e das casas de saúde. De tudo isso, um dia eu saí maravilhado, mas desiludido.
Marcel Proust me ensinou que "a magnífica e lamentável família dos nervosos é o sal da terra". Sem sabê-lo, eu fiz parte dessa família. É a minha. Eu não escolhi essa linha fatal, contudo é graças a ela que eu me elevei ao céu da criação, que eu me aproximei dos fabricantes do fogo, dos quais fala Rimbaud, que eu me achei, que eu compreendi que o encontro mais importante da minha vida deveria ser comigo mesmo.


Apesar de tudo, eu escolhi dizer adeus, hoje, a esse trabalho que eu tanto amei.
O próximo desfile, para o qual eu convido os senhores, em 22 de janeiro, no Centro Georges Pompidou, será em grande parte uma retrospectiva de minha obra.
Muitos de vocês já conhecem os modelos que desfilarão. Eu tenho a ingenuidade de acreditar que eles podem desafiar os ataques do tempo e assegurar seu lugar no mundo de hoje. Eles já provaram isso. Outros modelos desta saison os acompanharão.


Quero agradecer igualmente ao sr. François Pinault e manifestar a ele a minha gratidão por permitir que eu colocasse harmoniosamente um ponto final a esta maravilhosa aventura e por ter acreditado, como eu, que a alta costura desta maison deveria se interromper com minha partida.


Enfim, quero agradecer a vocês, que estão aqui, e àqueles que não estão, por terem sido fiéis aos encontros que tivemos ao longo de tantos anos. Por terem me apoiado, compreendido, amado.


Eu não os esquecerei.


(Tradução de Alcino Leite neto).


                                Ives Saint Laurent e Pierre Bergé

terça-feira, 3 de maio de 2011

TEMPO BOM

Embarcação

Sim, foi que nem um temporal
Foi um vaso de cristal
Que partiu dentro de mim
Ou quem sabe os ventos
Pondo fogo numa embarcação
Os quatro elementos
Num momento de paixão
Deus, eu pensei que fosse Deus
E que os mares fossem meus
Como pensam os ingleses
Mel, eu pensei que fosse mel
E bebi da vida
Como bebe um marinheiro de partida, mel
Meu, eu julguei que fosse meu
O calor do corpo teu
Que incendeia meu corpo há meses
Ar, como eu precisava amar
E antes mesmo do galo cantar
Eu te neguei três vezes
Cais, ficou tão pequeno o cais
Te perdi de vista para nunca mais

                         Francis Hime e Chico Buarque

Existem poucas gravações no youtube desta pérola composta por Francis Hime e Chico Buarque, assim foi difícil postar e compartilhar uma música que emociona sempre!

http://www.youtube.com/watch?v=62-wnfIc_QQ

quarta-feira, 20 de abril de 2011

SAVEIROS E A BAHIA!

Saveiros



Nem bem a noite terminou
Vão os saveiros para o mar
Levam no dia que amanhece
As mesmas esperanças
Do dia que passou
Quantos partiram de manhã
Quem sabe quantos vão voltar
Só quando o sol descansar
E se os ventos deixarem
Os barcos vão chegar
Quantas histórias pra contar
Em cada vela que aparece
Um canto de alegria
De quem venceu o mar


(Dori caymmi e Nelson mota)


A música fez sempre parte integral da minha vida.
Durante o dia, na escola, todas as atividades eram entremeadas pela música.
Tínhamos um coral, um conjunto musical, uma banda e um coro na igreja.
A noite em casa, a música na vitrola do meu pai,
e como se não bastasse,
disputava os minutos para assistir os "festivais da música popular brasileira".
Em 1966 Nana caymmi cantava "Saveiros",
no Festival Internacional da canção , e era vaiada.


Em 2010, a Associação Viva Saveiro, contando mais uma vez
com patrocínio da Secretaria de Turismo do Estado da Bahia,
realiza em Salvador, a 3ª Semana do Saveiro.
O evento, que tem como objetivo preservar
a identidade histórica e cultural dos saveiros de vela de içar,
traz à cidade uma programação cultural diversificada,
que inclui palestras, exposições, exibição de vídeos,
visitação das embarcações, passeios, regatas
e até o lançamento de um livro sobre embarcações tradicionais
da costa brasileira. http://www.vivasaveiro.org/site/

Apesar de sua importância para a Bahia,
onde já foi o principal meio de transporte
da produção do Recôncavo para Salvador,
e no sentido contrário também,
o saveiro passou por um processo de esquecimento ao longo do tempo. Durante o século passado, as embarcações foram ficando em um estado
cada vez mais precário até o abandono,
resultando numa sensível redução do número de barcos:
enquanto no Século XIX havia mais de mil saveiros no estado,
hoje, esse número se resume a 22 unidades, em precárias condições.
Para reverter este quadro foi criada a Associação Viva Saveiro, que,
entre as atividades desenvolvidas realiza anualmente a Semana do Saveiro, que presenteia a cidade com uma série de atividades
em prol da preservação dessa tradicional embarcação.
Leia mais e participe:
 


















Fotos de passeio de saveiro, verão, fevereiro de 2011.

sábado, 16 de abril de 2011

E O SOL AINDA SE PÕE................. BOIPEBA!

Dois Rios

 (samuel Rosa - Lô Borges - Nando Reis)

O céu está no chão
O céu não cai do alto
É o claro, é a escuridão
O céu que toca o chão
E o céu que vai no alto
Dois lados deram as mãos
Como eu fiz também
Só pra poder conhecer
O que a voz da vida vem dizer
Que os braços sentem
E os olhos vêem
Que os lábios sejam
Dois rios inteiros
Sem direção
O sol é o pé e a mão
O sol é a mãe e o pai
Dissolve a escuridão
O sol se põe se vai
E após se pôr
O sol renasce no Japão
Eu vi também
Só pra poder entender
Na voz a vida ouvi dizer
Que os braços sentem
E os olhos vêem
E os lábios beijam
Dois rios inteiros
Sem direção
E o meu lugar é esse
Ao lado seu, meu corpo inteiro
Dou o meu lugar pois o seu lugar
É o meu amor primeiro
O dia e a noite as quatro estações
Que os braços sentem
E os olhos vêem
E os lábios Sejam
Dois rios inteiros
Sem direção

http://www.youtube.com/watch?v=HMapj1aDzVg
  









 
carnaval/ março /2011

sexta-feira, 15 de abril de 2011

ANTONIO LÔBO ANTUNES

Tudo o que nos abandona precisa de muito tempo para desaparecer

8:15 Quinta feira, 24 de Mar de 2011

Porque razão não voltaste a telefonar e me deixas assim, suspensa, à tua espera? Nem para o emprego
(conheces o número do emprego)
nem para casa, sabes que estou sozinha, não recebo ninguém, uma amiga de tempos a tempos que não impede que ligues, quando muito saio uma hora ou duas ao sábado para visitar a minha mãe, nunca vou ao cinema, nunca janto fora, como qualquer coisa por aqui, leio uma revista
(nem leio uma revista, folheio, vejo as fotografias e é tudo, ou antes nem vejo as fotografias, fico a pensar em ti)
poiso a revista, abro a televisão, fecho a televisão, vou à janela espreitar a rua, penso que é o teu carro a estacionar lá em baixo e nunca é o teu carro a estacionar lá em baixo, nunca és tu a fechar a porta com o comando eléctrico e as luzes do automóvel a acenderem-se e a apagarem-se, nunca são os teus dois toques de campainha, nunca é o teu aceno no capacho nem o embrulhinho de biscoitos de que não gosto e me forço a comer e a fazer dieta no dia seguinte dado que os biscoitos engordam, nunca é a tua mão no meu ombro
- A minha menina
o teu perfume, a tua maneira de acomodar o rabo no sofá, a tua aliança que apesar de normal me parece sempre enorme e me dói, não tenho coragem de te confessar que me dói mas dói, conforme me doem as tuas mentiras
- Há anos que não há nada entre nós
que me obrigam a perguntar, calada, se entre nós há alguma coisa, vinhas uma ou duas ocasiões por mês, não ficavas nunca e, no entanto, bastava-me, não peço muito à vida, não peço seja o que for à vida, acostumei-me, não tenho motivos para lamentar-me, o que ganho chega, graças a Deus a saúde não me tem faltado apesar do problema da coluna, tomo as injeções no posto médico e as coisas vão andando, o creme que me receitaram na farmácia ajuda, o apartamento claro que não é grande mas para mim sozinha chega e sobra, não existe uma prestação por pagar, arranjo sempre um dinheirito ao fim do mês, volta e meia compro um vestido, uns sapatos, os vizinhos não fazem barulho, há agora um bebé no primeiro direito mas sossegado, tenho saudades tuas, Ernesto, mesmo com a aliança tenho saudades tuas, no outro dia vi-te com a tua mulher no supermercado e apesar disso consegui fazer as compras todas, uma pessoa da minha idade, talvez maior, mais bonita, achei esquisito não haver nada entre vocês há anos e embora ache esquisito acredito em ti
- És a minha menina
preocupo-me com o teu coração sempre que levas a mão ao peito, tiras um comprimido de uma caixinha, me pedes água, me ofereces um sorriso pobre
- Ferrugem na máquina
e a seguir melhoras, suponho que o comprimido limpa a ferrugem toda, aflijo-me com a tua palidez, com o dedo a medir a pulsação julgando que não noto, como podia não notar, tudo o que te aflige assusta-me, não te aborreço
- Que ferrugem na máquina?
para que não te sintas velho ou inútil, suponho que tens sessenta anos e portanto uma vida inteira à frente, o emprego deve cansar-te, as maçadas, quando menos se espera descais-te num suspiro
- A minha filha não há maneira de ter juízo
e ignoro o que, na tua ideia, não ter juízo seja, fico calada, é evidente, trago-te aquele licor fraquinho que tu gostas, faço-te festas no pescoço, a medo, com receio de maçar-te, não reclamo seja o que for, não mendigo seja o que for, só desejava que de tempos a tempos te lembrasses de mim, há sete meses que nem uma palavra, inquieta-me que a ferrugem haja aumentado e estejas na sala de espera de uma consulta, emagrecido, pálido, digo
- Ernesto
em voz alta como se dizer
- Ernesto
te melhorasse, comove-me que andes a perder cabelo, que o nó da tua gravata um bocadinho torto, que uma tremura no queixo, pode ser que mais de sessenta anos, sessenta e cinco, setenta e apesar de setenta a vida inteira à tua frente à mesma, o que eu não dava para te ter aqui um momento, um minutinho, um instante, na tua última visita trazias dentes novos que te tornavam mais vigoroso apesar de mal pegados à gengiva e a incomodarem-te que se percebia por estares constantemente a empurrá-los com a língua, oxalá encontres um pó que segure a placa, a minha mãe usa um pó que segura lindamente a placa, repara-se que placa mas firme como uma lapa no queixo, mastiga de tudo, não te agradava ficar um momento comigo no sofá, não te anima o licorzinho, a quantidade de vezes que digo em voz alta, aqui em casa
- Ernesto
na esperança de um sorriso teu, mesmo pobre, mesmo aflito, na esperança de
- A minha menina
e eu, sem coragem de responder
- O meu rapaz
digo
- O meu rapaz
para dentro, não me sai, não consigo, faço tanta cerimónia, não me atrevo a procurar-te, a tentar saber de ti, a incomodar, a protestar
- Que aliança tão grande, Ernesto
eu que não casei nunca, uns namoricos, umas cartas cerimoniosas, um domingo, durante uma excursão no norte, um
(desculpa)
beijo, estava guardada para ti desde sempre, guardada para ti, Ernesto, seria incapaz de me imaginar com outro homem, continuo à tua espera, sabias, que arrumes o carro, subas, me garantas
- A minha menina
enquanto verificas se trazes a caixinha dos comprimidos no bolso, pode parecer-te parvo mas adorava acariciar a caixinha, não te rias de mim, ou antes não levantes na minha direção o teu sorriso pobre e a tua desculpa
- A ferrugem
mesmo que fosses um parafuso todo escuro adorava-te, guardada para ti desde sempre, a comer qualquer coisa sozinha, a folhear uma revista, a fechar a televisão, a deitar-me, guardada para ti, Ernesto, podes ter a certeza, desde o princípio do mundo.

INESQUECÍVEL BOIPEBA......

Fotos no primeiro dia 4/03/2011,
Encantada com a beleza da natureza
E a quietude do lugar!