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sexta-feira, 15 de abril de 2011

ANTONIO LÔBO ANTUNES

Tudo o que nos abandona precisa de muito tempo para desaparecer

8:15 Quinta feira, 24 de Mar de 2011

Porque razão não voltaste a telefonar e me deixas assim, suspensa, à tua espera? Nem para o emprego
(conheces o número do emprego)
nem para casa, sabes que estou sozinha, não recebo ninguém, uma amiga de tempos a tempos que não impede que ligues, quando muito saio uma hora ou duas ao sábado para visitar a minha mãe, nunca vou ao cinema, nunca janto fora, como qualquer coisa por aqui, leio uma revista
(nem leio uma revista, folheio, vejo as fotografias e é tudo, ou antes nem vejo as fotografias, fico a pensar em ti)
poiso a revista, abro a televisão, fecho a televisão, vou à janela espreitar a rua, penso que é o teu carro a estacionar lá em baixo e nunca é o teu carro a estacionar lá em baixo, nunca és tu a fechar a porta com o comando eléctrico e as luzes do automóvel a acenderem-se e a apagarem-se, nunca são os teus dois toques de campainha, nunca é o teu aceno no capacho nem o embrulhinho de biscoitos de que não gosto e me forço a comer e a fazer dieta no dia seguinte dado que os biscoitos engordam, nunca é a tua mão no meu ombro
- A minha menina
o teu perfume, a tua maneira de acomodar o rabo no sofá, a tua aliança que apesar de normal me parece sempre enorme e me dói, não tenho coragem de te confessar que me dói mas dói, conforme me doem as tuas mentiras
- Há anos que não há nada entre nós
que me obrigam a perguntar, calada, se entre nós há alguma coisa, vinhas uma ou duas ocasiões por mês, não ficavas nunca e, no entanto, bastava-me, não peço muito à vida, não peço seja o que for à vida, acostumei-me, não tenho motivos para lamentar-me, o que ganho chega, graças a Deus a saúde não me tem faltado apesar do problema da coluna, tomo as injeções no posto médico e as coisas vão andando, o creme que me receitaram na farmácia ajuda, o apartamento claro que não é grande mas para mim sozinha chega e sobra, não existe uma prestação por pagar, arranjo sempre um dinheirito ao fim do mês, volta e meia compro um vestido, uns sapatos, os vizinhos não fazem barulho, há agora um bebé no primeiro direito mas sossegado, tenho saudades tuas, Ernesto, mesmo com a aliança tenho saudades tuas, no outro dia vi-te com a tua mulher no supermercado e apesar disso consegui fazer as compras todas, uma pessoa da minha idade, talvez maior, mais bonita, achei esquisito não haver nada entre vocês há anos e embora ache esquisito acredito em ti
- És a minha menina
preocupo-me com o teu coração sempre que levas a mão ao peito, tiras um comprimido de uma caixinha, me pedes água, me ofereces um sorriso pobre
- Ferrugem na máquina
e a seguir melhoras, suponho que o comprimido limpa a ferrugem toda, aflijo-me com a tua palidez, com o dedo a medir a pulsação julgando que não noto, como podia não notar, tudo o que te aflige assusta-me, não te aborreço
- Que ferrugem na máquina?
para que não te sintas velho ou inútil, suponho que tens sessenta anos e portanto uma vida inteira à frente, o emprego deve cansar-te, as maçadas, quando menos se espera descais-te num suspiro
- A minha filha não há maneira de ter juízo
e ignoro o que, na tua ideia, não ter juízo seja, fico calada, é evidente, trago-te aquele licor fraquinho que tu gostas, faço-te festas no pescoço, a medo, com receio de maçar-te, não reclamo seja o que for, não mendigo seja o que for, só desejava que de tempos a tempos te lembrasses de mim, há sete meses que nem uma palavra, inquieta-me que a ferrugem haja aumentado e estejas na sala de espera de uma consulta, emagrecido, pálido, digo
- Ernesto
em voz alta como se dizer
- Ernesto
te melhorasse, comove-me que andes a perder cabelo, que o nó da tua gravata um bocadinho torto, que uma tremura no queixo, pode ser que mais de sessenta anos, sessenta e cinco, setenta e apesar de setenta a vida inteira à tua frente à mesma, o que eu não dava para te ter aqui um momento, um minutinho, um instante, na tua última visita trazias dentes novos que te tornavam mais vigoroso apesar de mal pegados à gengiva e a incomodarem-te que se percebia por estares constantemente a empurrá-los com a língua, oxalá encontres um pó que segure a placa, a minha mãe usa um pó que segura lindamente a placa, repara-se que placa mas firme como uma lapa no queixo, mastiga de tudo, não te agradava ficar um momento comigo no sofá, não te anima o licorzinho, a quantidade de vezes que digo em voz alta, aqui em casa
- Ernesto
na esperança de um sorriso teu, mesmo pobre, mesmo aflito, na esperança de
- A minha menina
e eu, sem coragem de responder
- O meu rapaz
digo
- O meu rapaz
para dentro, não me sai, não consigo, faço tanta cerimónia, não me atrevo a procurar-te, a tentar saber de ti, a incomodar, a protestar
- Que aliança tão grande, Ernesto
eu que não casei nunca, uns namoricos, umas cartas cerimoniosas, um domingo, durante uma excursão no norte, um
(desculpa)
beijo, estava guardada para ti desde sempre, guardada para ti, Ernesto, seria incapaz de me imaginar com outro homem, continuo à tua espera, sabias, que arrumes o carro, subas, me garantas
- A minha menina
enquanto verificas se trazes a caixinha dos comprimidos no bolso, pode parecer-te parvo mas adorava acariciar a caixinha, não te rias de mim, ou antes não levantes na minha direção o teu sorriso pobre e a tua desculpa
- A ferrugem
mesmo que fosses um parafuso todo escuro adorava-te, guardada para ti desde sempre, a comer qualquer coisa sozinha, a folhear uma revista, a fechar a televisão, a deitar-me, guardada para ti, Ernesto, podes ter a certeza, desde o princípio do mundo.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Crónica da Rapariga à Chuva

"Tantas dores. É estranha, a dor: custa menos do que se pensa,
a partir de certa altura a gente afasta-se dela,
deixa de pertencer-nos.
O que nos pertence é o vazio, uma indiferença esvaída".
5 de Ago de 2010


Há bocadinho fui espreitar à janela e estava uma rapariga lá em baixo, à chuva.
Isto às onze da manhã, a rua deserta e ela imóvel diante da agência de viagens,
sem gabardina sequer, à chuva. Cabelos curtos, sapatos de ténis,
os braços ao comprido do corpo, sozinha como uma estátua.
Não volto à janela porque não quero encontrá-la,
parece acusar-me de uma falta que desconheço,
afigura-se-me um remorso vivo. À chuva.
Não acaba, este inverno, esta solidão magoada, desconfortável.
Faz três anos andava eu à brochinha com o cancro,
sangue por todos os lados, a emagrecer, a sentir-me mal,
a teimar que era uma bactéria qualquer que trouxera do México.
Guadalajara, Guadalajara: deram-me a chave de oiro da cidade:
está lá para dentro, no seu estojo, numa gaveta de armário.
A chave de oiro de uma cidade não abre nada a não ser portas interiores:
e para além das portas interiores quartos vazios na sombra,
cada qual com a sua rapariga à chuva que aliás agora parou,
veio uma suspeita de sol.
Não tarda nada o sol vai-se e a chuva recomeça.
Até quando? Dá ideia que para sempre, nunca mais vai cessar de chover.
E a rapariga ali quieta, não à espera, não por teimosia,
ali apenas, se calhar para sempre também.
Vinte, vinte e cinco anos, sozinha.
Na agência de viagens iluminada empregadas a secretárias, cartazes:
Bermudas, Marrocos, Porto Rico.
O vento feio sacode árvores feias.
Os prédios feios, os automóveis feios, tudo feio.
Não me lembro de um inverno assim sujo, escuro, na minha cidade outrora cheia de luz.
Galhos depenados, nem um pombo, nem um pardal para amostra:
o que sucedeu aos pássaros?
Escrevo isto de luz acesa, com a morte na alma.
Quando estive doente ao menos havia sol, um sol inútil para mim mas sol.
Enfim, julgo que sol ou então eram aquelas lâmpadas todas na minha cara:
- De que vais morrer, António?
- De cancro
e as lâmpadas a aumentarem de intensidade na minha cara.
Tantas dores. É estranha, a dor: custa menos do que se pensa,
a partir de certa altura a gente afasta-se dela, deixa de pertencer-nos.
O que nos pertence é o vazio, uma indiferença esvaída.
Levanto-me da mesa: a rapariga foi-se embora não imagino para onde,
deixou-me sozinho neste apartamento.
O que faço sem ela ali em, baixo, junto à agência de viagens,
Bermudas, Marrocos, Porto Rico?
Fotografias de gente na praia, camelos, palmeiras.
Aqui são tipuanas magras, atormentadas, a água cinzenta a escorrer para as valetas,
ramos com uma única folha, não verde, amarela, quase a soltar-se,
ramos sem nenhuma folha, tortos, magros.
Não fui às Bermudas nem a Marrocos nem a Porto Rico, que conheço eu do mundo?
Janelas fechadas, ninguém a pendurar roupa nas varandas.
Martelam no andar de cima, talvez estejam a crucificar alguém.
Pela aflição dos galhos percebe-se que o vento aumenta.
Daqui a nada estou no restaurante do costume: o
empregado empresta-me um jornal desportivo,
imensos guarda-chuvas numa espécie de vaso junto à porta,
a máquina de vender cigarros a zumbir.
Ligo a ternura eléctrica do calorífero que queima mais do que aquece e me frita a perna.
A ementa não varia, como sempre a mesma coisa: tanto me faz.
Pressa de voltar aqui a fim de continuar a escrever.
Leio a última frase e avanço aos solavancos, este é um ofício esquisitíssimo.
Quando lerem nem sonham o que penei nas frases.
Quer dizer, espero que nem sonhem o que penei nas frases.
Tem de parecer fluido, fácil.
Que dia é hoje? Sei lá, tanto faz. Tanto faz? Tanto faz.
Um relâmpago e logo a seguir sons de penedos enormes a caírem uns por cima dos outros.
Se tivesse quinze anos outra vez jantava com os meus pais, os meus irmãos.
Tenho saudades disso, de fazer parte de uma família.
Esperar, aflitinho, diante do quarto de banho fechado.
Se batiam à porta avisava-se
- Está gente
num berro que os azulejos ampliavam.
Pode parecer ridículo mas adorava voltar a fazer cocó em Benfica.
A banheira com patas de leão, o esquentador pré-histórico,
os perfumes da minha mãe numa mesa, o cheiro da laca dela,
a brilhantina do meu pai, o pente sempre gorduroso,
a escova com que alisava o cabelo apertando-o nas têmporas.
Era o único de nós que fazia a barba.
Acho que também não visitou as Bermudas nem Marrocos nem Porto Rico.
Saía para o hospital de manhã, voltava ao fim do dia e tudo cheirava a cachimbo.
Achava esquisito que tratasse o meu avô por pai, pai era ele, o meu avô era avô.
Esse fazia a barba também. O mundo inteiro fazia a barba menos eu.
Sinto a falta da rapariga lá em baixo, à chuva,
preocupo-me com o que lhe terá acontecido.
Nem quero pensar que a água das valetas a levou,
de mistura com as folhas caídas.
ANTONIO LÔBO ANTUNES