domingo, 22 de novembro de 2009

"O valor das coisas não está no tempo que elas duram,
mas na intensidade que elas acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."


Os Imutáveis Sentimentos (Lia Luft)

"Quantas vezes podemos amar na vida?
Sempre que nos sentirmos demais sozinhos
e a vida nos oferecer esse milagre, e nós
tivermos as condições e a coragem de concretizá-lo"

A palestra seria para uns 300 empresários, homens e mulheres.
Depois viriam as perguntas e, finalmente, o almoço.
Chegando lá, vi que estava enganada: eu falaria enquanto eles almoçavam.
Escritores habituaram-se a falar em público
– é uma espécie de moda a gente ser convocado para entrevistas ou palestras
sobre os temas mais variados: psicologia, sexo, política, religião e por aí vai.
Mas me incomodou a idéia de pessoas manejando talheres e copos,
mastigando e quem sabe conversando enquanto eu falasse.
Não havia como voltar atrás: a culpa era da minha desatenção,
de não haver entendido direito o convite.
Todos sentados, feitas as apresentações, dados os avisos,
comecei a fala achando que todos percebiam meu desconforto.
O tema da palestra era "Transgressões positivas".
Eu não podia cometer a primeira, levantar da cadeira e ir embora?
Não, não podia. Ninguém tinha culpa da minha trapalhada.
Agora era cumprir meu dever, e fazer isso com a mesma simpatia
com que aquelas pessoas me olhavam.
Transgressão positiva, comecei então, podia ser, por exemplo,
vencer o espírito de manada e a coerção da superficialidade
que nos esmagam neste nosso mundo.
Um pouco de frivolidade é necessária:
que os deuses nos livrem de sermos solenes.
Mas de vez em quando, acrescentei,
pode-se usar a superfície da vida como trampolim para algum mergulho de reflexão,
de reavaliação e quem sabe de reinvenção da nossa vida.
O problema inicial é que estamos acorrentados a muitos deveres,
sobretudo empresários cheios de responsabilidades com funcionários,
operários, acionistas e toda uma complexa engrenagem da qual eu,
escritora, confessava ter apenas uma idéia difusa.
O que era certo era a morte estar empoleirada em nosso ombro,
espiando com seu inquietante olho de coruja:
o que é que a gente podia fazer com tal inquilina?
Talvez a primeira boa transgressão, continuei,
seria aproveitar o susto para pensar.
Falamos muito em ética, mas, com mais freqüência do que o confessável,
escutamos a conversa de nossa mulher ou marido na extensão do telefone.
Falamos em justiça social,
mas eventualmente pagamos o menor salário possível à nossa empregada
e lhe servimos um prato feito.
Segui por esse caminho, num trote pouco amigável – em voz mansa.
De repente me dei conta de que alguns pararam de comer,
mas não se mostravam ofendidos com minhas alusões.
Ao contrário, pareciam compreender que eu me incluía em tudo aquilo.
Entre nós circulava aquela cumplicidade de iguais
a que eu me habituara com leitores,
mas não esperava de homens de negócios.
Terminei a palestra ainda vagamente intrigada, mas as palmas foram cálidas.
Um empresário venerando pediu a palavra.
"Esse vai me trucidar", pensei.
Ele me olhou direto nos olhos e indagou no silêncio atento que se abria:
"Quantas vezes a senhora acha que a gente pode amar na vida?"
Respondi, surpresa:
"Sempre que nos sentirmos demais sozinhos
e a vida nos oferecer esse milagre,
e nós tivermos as condições e a coragem de concretizá-lo".
Senti que, naquele momento,
as palmas foram não para mim, mas para ele.
Para a vida que ali se expressava com tal dignidade.
Saí dessa experiência com mais um dos meus preconceitos destruídos.
Numa dessas contradições animadoras, o que começou mal acabou bem
– principalmente porque um homem
se postou diante de todos com a tranqüilidade dos sábios,
sem receio de enfrentar seus pares,
de se mostrar vulnerável,
de assumir sua real grandeza: a de ser uma pessoa como qualquer outra.
Vi confirmada, mais uma vez,
minha suspeita de que no fundo o que prevalece em todos nós,
centro de nosso desejo e raiz de nossos temores,
nossa glória e possibilidade de nossa danação,
são os velhos e imutáveis sentimentos humanos.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

É verão!
Bom sinal!
Já é tempo
De abrir o coração
E sonhar.. (Roupa Nova)

Palavras,
Ditas, bem ditas e pronunciadas,
Mal ditas,
Partidas e idas,
Longe.....
Desejo,
nunca e quando,
Voo infinito sem regresso,
Longe ou perto,
Memórias de ausência,
Idas incompletas,
Olhar ausente,
de mim, de ti.
Oh! dor.





O mar que tanto diz,
Parece maior ainda,
Como posso deixar de amá-lo
Com esse azul infinito........
































ITACIMIRIM (BAHIA)







******************

O balneário de Itacimirim,
que em tupi-guarani significa Formiga Pequena,
encanta pelos rios, mangues, piscinas naturais de águas mornas
e ondas de até três metros de altura.
Cerca de um quilômetro de praias compõem o cenário desse paraíso,
formado a partir de uma vila de pescadores.
Das cinco praias existentes, a primeira é a da Barra,

formada pela foz do Rio Pojuca.
A água doce e morna do rio,
divisor entre os municípios de Camaçari e Mata de São João,
desemboca no mar
e proporciona um local bastante agradável para banho.
Em seguida, vem a praia das Ondas e do Porto.
Mais adiante está a famosa Praia da Espera,

onde o turista pode encontrar corais, na maré baixa,
além de uma excelente oportunidade para mergulho
e observação de várias espécies de peixes.
Entre os meses de dezembro e fevereiro,

pode-se observar a desova das tartarugas marinhas
e no período de agosto a setembro,
o mergulho das baleias Jubarte.
Ainda na Espera,
foi instalada uma escultura em homenagem a Amyr Klink,
navegador paulista que no dia 18 de setembro de 1984
completou uma viagem solitária de mais de 100 dias,
depois de há três meses, ter deixado a África do Sul.
Ele chegou a Itacimirim após ter cruzado o Oceano Atlântico,
em um percurso de aproximadamente 7 mil quilômetros,
em um barco a remo.
Melhor ainda,
ITACIMIRIM fica a apenas 50Km de Salvador
e 7 Km da Praia do Forte.

domingo, 15 de novembro de 2009

AINDA VINICIUS DE MORAIS!!!


Onde Anda Você

E por falar em saudade onde anda você
Onde andam seus olhos que a gente não vê
Onde anda esse corpo
Que me deixou louco de tanto prazer
E por falar em beleza onde anda a canção
Que se ouvia na noite dos bares de então
Onde a gente ficava,
onde a gente se amava
Em total solidão
Hoje eu saio na noite vazia
Numa boemia sem razão de se
Na rotina dos bares,
que apesar dos pesares,
Me trazem você
E por falar em paixão, em razão de viver,
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares, na noite, nos bares
A onde anda você?

E para quem não viu,fica a indicação:
O filme documentário sobre a vida de Vinicius de Morais.
Um filme de Miguel Faria Jr., que conta a vida,
os amigos e os amores de Vinicius,
autor de 400 poesias e cerca de 400 letras de música.
E na contra capa dos 2 CDS,
o encarte com o "soneto da separação",
presente de profunda poesia.


SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

"Ai, quem me dera ver-te
quem me dera morar-te..."

"Amar é querer estar perto, se longe;
e mais perto, se perto."

"Ser feliz é viver morto de paixão."

"E de te amar assim, muito a amiúde,
é que um dia de repente hei de morrer de amar mais do que pude."

"E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais..."

"Pra quê chorar, se o sol já vai nascer,
se o dia vai amanhecer.
Pra quê chorar,
se há sempre um novo amor em cada amanhecer".

Eu Sei Que Vou Te Amar

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Prá te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida"

Samba da Bênção

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba nã
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Morais,
poeta e diplomata,
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá!
A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Chega De Saudade

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz
Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Mas, se ela voltar
Se ela voltar que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calada assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De você viver sem mim
Não quero mais esse negócio
De você longe de mim
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim...

O que tinha de ser

Porque foste na vida
A última esperança
Encontrar-te me fez criança
Porque já eras meu
Sem eu saber sequer
Porque és o meu homem
E eu tua mulher
Porque tu me chegaste
Sem me dizer que vinhas
E tuas mãos foram minhas com calma
Porque foste em minh'alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser


Libelo

De que mais precisa um homem
senão de um pedaço de mar
- e um barco com o nome da amiga,
e uma linha e um anzol pra pescar?
E enquanto pescando, enquanto esperando,
de que mais precisa um homem senãode suas mãos,
uma pro caniço, outra pro queixo,
que é para ele poder se perder no infinito,
e uma garrafa de cachaça pra puxar tristeza,
e um pouco de pensamento pra pensar até se perder no infinito...
De que mais precisa um homem senão de um pedaço de terra
_ um pedaço bem verde de terra _ e uma casa,
não grande, branquinha, com uma horta e um modesto pomar;
e um jardim - que um jardim é importante - carregado de florde cheirar ?
E enquanto morando, enquanto esperando,
de que mais precisa um homem senão
de suas mãos para mexer a terra
e arranhar uns acordes de violão quando a noite se faz de luar,
e uma garrafa de uísque pra puxar mistério,
que casasem mistério não vale morar...
De que mais precisa um homem
senão de um amigo pra ele gostar,
um amigo bem seco, bem simples,
desses que nem precisa falar
_ basta olhar _ um desses que desmereça um pouco da amizade,
de um amigo pra paz e pra briga,
um amigo de paz e de bar ?
E enquanto passando, enquanto esperando,
de que mais precisa um homem senão
de suas mãos para apertar as mãos do amigo
depois das ausências, e pra bater nas costas do amigo,
e pra discutir com o amigo
e pra servir bebida à vontade ao amigo ?
De que mais precisa um homem
senão de uma mulher pra ele amar,
uma mulher com dois seios e um ventre,
e uma certa expressão singular ?
E enquanto pensando, enquanto esperando,
de que mais precisa um homem
senão de um carinho de mulher
quando a tristeza o derruba,
ou o destino o carrega emsua onda sem rumo ?
Sim, de que mais precisa um homem
senão de suas mãos e da mulher
_ asúnicas coisas livres que lhe restam
para lutar pelo mar, pela terra, pelo amigo ...


POEMA DOS OLHOS DA AMADA

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.


Soneto de Orfeu

São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar, que atua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música,luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita
Uma mulher que é como a própria lua
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.




Praça Vinicius de Morais
Itapoan, Salvador - Bahia



http://www.youtube.com/watch?v=IcdEJtMZC44&feature=related - Vinicius/depoimentos

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vinícius de Moraes
Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes,
ou Vinicius de Moraes, (1913 - 1980) foi um diplomata,
jornalista, poeta e compositor brasileiro.

"A gente não faz amigos, reconhece-os".

"Amar, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido".

"Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia".

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida".

"Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval".

"Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém..."

"Por mais longa que seja a caminhada o mais importante é dar o primeiro passo".

Ai de quem ama

Quanta tristeza
Há nesta vida
Só incerteza
Só despedida
Amar é triste
O que é que existe?
O amor
Ama, canta
Sofre tanta
Tanta saudade
Do seu carinho
Quanta saudade
Amar sozinho
Ai de quem ama
Vive dizendo
Adeus, adeus

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

E finalmente ..........................
Quem nunca viveu um grande amor.................

PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso,
muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher;
pois ser de muitas, poxa! é de colher...
— não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro
e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for.
Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada
e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo",
que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor.
É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado,
pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade
de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor.
Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade,
dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel,
ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito;
é preciso também ter muito peito — peito de remador.
É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada
e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista
— muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor.
Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo;
depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos,
strogonoffs — comidinhas para depois do amor.
E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha
com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser,
se possível, um só defunto — pra não morrer de dor.
É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente,
pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor.
Há que ser bem cortês sem cortesia;
doce e conciliador sem covardia;
saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!)
e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada
não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor










Salvador- Bahia
(Ondina)

domingo, 8 de novembro de 2009

Tenho os olhos cansados de olhar para o além......
E a esperança no futuro!

Samba em preludio
(Baden Powell e Vinicius de Moraes)


Eu sem você não tenho porquê
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz, jardim sem luar

Luar sem amor, amor sem se dar
Eu sem você sou só desamor
Um barco sem mar, um campo sem flor
Tristeza que vai, tristeza que vem
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém
Ah, que saudade
Que vontade de ver renascer nossa vida
Volta, querida
Os meus braços precisam dos teus
Teus abraços precisam dos meus
Estou tão sozinho
Tenho os olhos cansados de olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém
Eu sem você não tenho porquê
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz, jardim sem luar
Luar sem amor, amor sem se dar
Eu sem você sou só desamor
Um barco sem mar, um campo sem flor
Tristeza que vai, tristeza que vem
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém
Ah, que saudade
Que vontade de ver renascer nossa vida
Volta, querida
Os meus braços precisam dos teus
Teus abraços precisam dos meus
Estou tão sozinho
Tenho os olhos cansados de olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém


http://www.youtube.com/watch?v=I67Qmye5OYY&feature=PlayList&p=198291CA6618E48B&playnext=1&playnext_from=PL&index=30

sábado, 7 de novembro de 2009

Miguel Torga para amigos...


"A vida afectiva é a única que vale a pena.
A outra apenas serve para organizar na consciência
o processo da inutilidade de tudo"


Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.
Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...
in 'Diário VII'



Frustração

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dia dos Mortos

(...) este tormento
Quotidiano;
(....) este lume secreto que nos queima
E que, mesmo apagado ou dominado, teima".
Miguel Torga


Doem-me mais os mortos que ainda vivem.......
Ah! como doem!
Ah que cavalos sao aqueles que fazem sombras no mar?