segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Na minha terra
há uma estrada tão larga
que vai de uma berma à outra
Feita tão de terra
que parece que não foi construida.
Simplesmente descoberta.
Estrada tão comprida
que um homem pode caminhar sozinho nela
É uma estrada
por onde não se vai nem se volta
Uma estrada
feita apenas para desaparecermos.

Mia Couto, nasceu na Beira, Moçambique.
É professor, biólogo, escritor.
Está traduzido em diversas linguas.
"Terra Sonâmbula" foi considerado por um juri,
criado para o efeito pela Feira Internacional do Livro do Zimbabwe,
como um dos melhores livros africanos do século XX.

No inicio
eu queria um instante.
A flor
Depois
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incendio partilhado.
O fruto.
Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.











Cabo da Roca/ Portugal





domingo, 18 de outubro de 2009

A poesia, assim como a arte, é infinita!
Quando pretensiosa penso que já conhecí quase tudo,
adentro o universo desta poetisa portuguesa,
de uma alegria contagiante e sensibilidade impar.

FERNANDA DE CASTRO (1900-1994)
Poetisa, romancista, dramaturga e tradutora
Fernanda de Castro estreou-se aos 19 anos com o livro de poesia Ante-Manhã.
Vence nesse ano (1919) o Primeiro Prémio
no concurso de originais do Teatro Nacional,
com a peça Náufragos.
Com o romance Maria da Lua (1945)
foi a primeira mulher a obter o prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa.
Em 1969 é-lhe atribuido o Prémio Nacional de Poesia.
Foi também tradutora de Rilke (Cartas a um Poeta),
de Katherine Mansfield (Diário), de Sófocles, Pirandello, Maeterlinck e Jonesco.
“Ela foi a primeira, neste país de musas sorumbáticas e de poetas tristes,
a demonstrar que o riso e a alegria também são formas de inspiração,
que uma gargalhada pode estalar no tecido de um poema,
que o Sol ao meio-dia, olhado de frente,
não é um motivo menos nobre do que a Lua à meia-noite”.
David Mourão Ferreira

Três Poemas da Solidão
I
Nem aqui nem ali: em parte alguma.
Não é este ou aquele o meu lugar.
Desço à praia, mergulho as mãos no mar,
mas do mar, nos meus dedos, fica a espuma.
Meu jardim, minha cerca, meu pomar.
Perpassa a Ideia e mói, como verruma.
Falar mas para quê? Só por falar?
Já nada quer dizer coisa nenhuma.
Os instintos à solta, como feras,
e eu a pensar em velhas primaveras,
no antigo sortilégio das palavras.
Agora é tudo igual, prazer e dor,
e a tua sementeira não dá flor,
ó triste solidão que as almas lavras.

II
Tão só!
Cada vez são mais longos os caminhos que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas, as ideias em jaulas.)
Ah, não fujam de mim! Não mordo, não arranho.
Direi: — «Pois não! Ora essa! Tem razão».
Entanto, na gaiola, cantarão em silêncio os sonhos,
as ideias, como pássaros mudos.

III
Solidão.
A multidão em volta
e o pensamento à solta como alado corcel.
E as ideias dispersas, em tropel,
como folhas ao vento pétalas do Pensamento.
Solidão.
A angústia da Cidade,
a impossível procura da Unidade,
o clamor do silêncio interior,
mais pungente, estridente,
que os bárbaros ruídos que ferem,
dilaceram os nervos e os sentidos.
Fernanda de Castro, in "E Eu, Saudosa, Saudosa"


Distância

Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te

Estas saudades que não tinham fim.
Não vás para tão longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.
Não vás para tão longe!
Tenho medo

Do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!
Não vás para tão longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.
Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!
Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento
Que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...
Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe!...
Fernanda de Castro, in "Antemanhã"
Lisboa, um m0mento fugidio.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

" Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas "
Mia Couto
*************
Eram 17:30,
final de um dia quente, longo, cheio de significantes, poesia,
dúvidas e certezas!
O sol estonteante, firme, sabe bem certeiro ao alvo .
Exito, olho, voltam as reminiscências,
Perto ainda, quentes, pulsam, doem,
Vem o poeta, sublime ,
inspira-me, pede a palavra,
embriaga a alma.






Por do sol, farol da Barra,
Salvador, Bahia, Brasil














DESDE SEMPRE .................

"Desde = a começar de
Sempre = em todo o tempo, eternamente, todo tempo passado ou futuro".


"Herdei uns olhos claros, sem pecado,
toda uma tradição, todo um passado,
de inocência, de amor e de perdão.
Um desejo de paz, de vida calma,
uma alma capaz de só ser alma,
E um doloroso, humano coração."
Fernanda de Castro

Tempo, Mudança,
Possibilidades,
Sempre!
"Na minha terra ..há uma estrada tão larga.. que vai de uma berma à outra..
É uma estrada..por onde não se vai nem se volta..
Uma estrada feita apenas para desaparecermos..... " MIA COUTO



Não a conheço ainda.
Íngreme talvez, escorregadia,
Pontiaguda, tortuosa,
Inevitável caminho,
Inconfundível solidão,
Não sei se vou ou se volto,
Sei que sou,
Só,
Eu.



Cabo da Roca, PT

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono".
- Guimarães Rosa

terça-feira, 6 de outubro de 2009

04.10.2009 Mercedes Sosa

Fiquei mais triste, morreu Mercedes Sosa.
Tinha exatamente desessete anos quando conhecí sua música,
e nunca deixei de ouví-la.
Depois de longo exílio, Mercedes voltou a Argentina em 1983,
após os duros anos da ditadura,
uma voz que entretanto nunca se calou apesar de tudo.
Se pudesse colocaria aqui todas as músicas
que me encantavam quando ouvia a voz de Mercedes.
Foi com "Gracias a la vida", "Volver a los 17", "Todo cambia",
"Duerme negrito" , "Alfonsina y el mar",
que compreendí a força e a poesia desta mulher.
Com ela muitas vezes aprendí o verdadeiro sentido da luta pela liberdade,
uma liberdade de sentir e de pensar,
e admirei imensamente aquela mulher forte,
tenaz e que possuía um carisma inigualável.

Em particular lembro quando em 1980
Mercedes Sosa veio a Salvador pela primeira vez
e assiti na primeira fila do Teatro Castro Alves um show inusitado,
algo que nunca havia visto antes,
uma mulher, com tamanha força e capacidade de levantar toda a platéia.
Chamou a todos para subir ao palco e fui lá.
Jamais a esquecí, e junto com Violeta Parra,
iniciei a colecionar discos e músicas.
Volto a revê-la ano passado, com a mesma força e emoção.

De tantas músicas que gosto, posto aqui
uma que me encanta particularmente
e se a ouvírem com certeza entenderão.

http://www.youtube.com/watch?v=yzUAUv16x6k&feature=player_embedded#

"Como La Cigarra"

Tantas veces me mataron,
tantas veces me morí,sin embargo estoy aquí resucitando.
Gracias doy a la desgracia y a la mano con puñal,
porque me mató tan mal,y seguí cantando.
Cantando al sol,como la cigarra,

después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.
Tantas veces me borraron,

tantas desaparecí,
a mi propio entierro fui, solo y llorando.
Hice un nudo del pañuelo,
pero me olvidé después
que no era la única vez
y seguí cantando.
Cantando al sol, como la cigarra,

después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.
Tantas veces te mataron,

tantas resucitarás
cuántas noches pasarás desesperando.
Y a la hora del naufragio
y a la de la oscuridad
alguien te rescatará,para ir cantando.
Cantando al sol, como la cigarra,

después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.


"Tinha que ser um domingo, quando tudo parece se deter
e por algumas horas o mundo fica mais reconcentrado
no que realmente importa: os afetos, os que estão e os que se já se foram.
E um domingo se foi a voz da América Latina,
a voz que sustentou punhos em alto, que acompanhou levantes,
que impulsionou esperanças, que balançou as faixas nas passeatas,
que empunhou as armas da libertação deste continente dolorido.
“La Negra Sosa”, como era carinhosamente conhecida,
foi muito mais do que uma cantora única,
com um timbre de voz inconfundível
e uma interpretação que a elevava a co-autoria das músicas
que apresentava mundo afora, foi o ícone,
a assinatura melodiosa de uma época que sem a sua voz,
perderia muito do seu significado histórico/político.
Sabemos que o Che Guevara carregava na mochila
nos seus últimos dias na Bolívia,
um exemplar do Canto General de Pablo Neruda.
Sabemos de estudantes, operários,
e intelectuais que iam para as lutas ou para os calientes debates dos anos 60, 70 e 80 munidos dos seus livros “de combate”
e as suas músicas de vanguarda revolucionária.
Pois bem, a voz de Mercedes Sosa acompanhou,
como um espírito constante e eficaz, como um anjo da guarda mestiço,
uma Virgem dolorosa do sul, uma mãe dos humildes,
uma necessária Pachamama cantora, cada momento,
cada caída e cada alegria nessa persistente luta pelos direitos humanos, impulsionando sempre a História através do seu canto de outra dimensão que quando tomava o microfone baixava à terra para fazermo-nos sentir que éramos algo mais que simples homens, motores da máquina capitalista.
O prodígio da sua voz e seu escolhido repertório
do melhor que o continente produziu
em termos de composições que afundaram suas raízes na terra americana, continuará ressoando em cada recanto do mundo e especialmente,
nesta nossa Abya Yala, do Atlântico ao Pacífico,
do rio Bravo à Terra do Fogo, até o fim dos tempos,
porque essa voz, esse som do âmbito do inexplicável,
só pode vir de algum lugar de onde agora Mercedes Sosa,
continuará cantando assim:
“Tantas vezes me mataron, tantas me morí, sin embargo estoy aqui, resucitando...”. " (Carlos Pronzato é poeta e cineasta/documentarista).