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domingo, 12 de setembro de 2010

PAIXÃO

Belíssimo texto de Betty Milan,
com excepcional interpretação de Natália Timberg!


“Se digo que te amo é para que me digas o mesmo,
para saber se entre nós há reciprocidade,
se é tua a minha fissura.
Sendo, eu me torno indispensável
e posso momentaneamente esquecer de mim”.

O trecho acima faz parte da primeira cena de "Paixão",
encenada pela atriz Nathalia Timberg.
Com direção de Wolf Maia e música de Júlio Medaglia,
a montagem é um concerto da palavra
que fala sobre o amor e há mais de uma década,
faz parte do repertório da atriz, que tem 50 anos de carreira.
A peça é baseada em um dos capítulos do livro E o Que é o Amor?,
da psicanalista Betty Milan.
A atriz interpreta poemas de Adélia Prado, Bocage,
Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa,
Camões, Manuel Bandeira, Florbela Espanca
e outros poetas brasileiros e portugueses.

A peça vai da ilusão do amor à desilusão
e mostra que sem o sentimento amoroso nós não existimos.
E que ao morrermos para o amor, nós nos despedimos de nós mesmos.
Paixão foi concebida para ser encenada num só ato,
durante o qual o ator dará voz ao amor.
Na primeira parte do espetáculo, Natália Timberg encena o texto,
endereçando-se ao amado.
Na segunda, a atriz dá voz ao monólogo interior evocando o amor.
Já na terceira e última parte,
a atriz mantém a sua fala voltada para o público,
buscando a sua cumplicidade.
Em Paixão, a atriz consegue dar voz ao amor cujo discurso é universal.
O amor pela arte de interpretar de Natália Timberg
pode ser comparado a outro trecho do monólogo
onde a atriz verbaliza:
“a tudo eu prefiro amar, disso dependo não para ser quem sou,
e sim o que quero ser, sonhar comigo outro, vagar embora,
navegar sem leme em alto-mar, esquecido do chão onde de fato piso”.

Vamos esperar o retorno de Natália com a peça abaixo,
Já em cartaz e São Paulo.
Natália Timberg também está em cartaz,
com o espetáculo Sopros de Vida,
de autoria do britânico David Hare (As Horas (2003) e O Leitor (2009),
que pela primeira vez é encenado no Brasil.
Nesta versão brasileira, o texto que tem direção de Naum Alves,
Natália Timberg divide o palco com a atriz Rosa Maria Murtinho
proporcionando uma reflexão de forma humorada
sobre como é a vida na velhice.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

FERNANDA MONTENEGRO E SIMONE DE BEAUVOIR


" Viver sem tempos mortos, gozar a vida sem entraves"

Revista BRAVO! Maio/2009

“A vida é um Demorado Adeus”

Às vésperas de comemorar 80 anos,
Fernanda Montenegro leva para os palcos
o legado da escritora Simone de Beauvoir
e reflete e reflete sobre a morte recente do marido, o ator Fernando Torres
Armando Antenore

Passava um pouco das 21 horas quando, naquele sábado de Aleluia,
Fernanda Montenegro disse as últimas frases do monólogo Viver sem Tempos Mortos.
Por 60 minutos, a atriz carioca interpretara Simone de Beauvoir (1908-1986) .
Entre os que aplaudiam, destacava-se Wilson Ademar, negro de 93 anos,
sapateiro aposentado, que nunca presenciara uma peça antes.
Tão logo tomou conhecimento do espectador inusitado,
Fernanda se comoveu e indagou publicamente:
"O que o senhor imaginava toda vez que pensava num palco?".
Wilson, tímido, respondeu: "Eu não imaginava".
Pois é sobretudo com a imaginação da plateia que a atriz parece contar
enquanto incorpora a filósofa e escritora parisiense,
ícone do feminismo e parceira de outro célebre filósofo,
o existencialista Jean-Paul Sartre.
Na mais despojada produção que estrelou em seis décadas de carreira,
Fernanda vira Simone sem lançar mão de elementos
que remetam fisicamente à personagem.
Não há sotaque, não há trejeitos característicos,
não há nem mesmo um figurino afrancesado.
Com uma camisa social branca e uma calça preta,
a atriz senta-se numa cadeira igualmente preta, único objeto em cena,
e permanece lá durante toda a montagem, sob um persistente foco de luz.
Narra, então, os principais momentos da intensa trajetória de Simone.
Fala sempre na primeira pessoa, usando depoimentos da própria romancista,
extraídos de livros e cartas.
O monólogo dirigido por Felipe Hirsch, desembarca agora em São Paulo
como parte de um evento maior, batizado de Caminhos da Liberdade.
A iniciativa prevê que, antes do espetáculo, o público assista a Uma Mulher Atual, documentário de Dominique Gros sobre Simone, e, depois,
participe de um debate conduzido pela socióloga Rosiska Darcy de Oliveira,
especialista no legado da filósofa.
A atriz, que completa 80 anos em outubro, no percurso, perdeu o marido,
o também ator Fernando Torres.
Quem vê Simone discorrer sobre Sartre ao longo do monólogo
dificilmente deixa de cogitar que talvez exista um subtexto ali
— que talvez Fernanda esteja refletindo sobre o próprio companheiro,
um modo delicado de absorver e superar a morte dele.
No domingo de Páscoa, a artista recebeu a equipe de BRAVO!
para uma conversa de quatro horas.
BRAVO!: Quando você entrou em contato com Simone de Beauvoir e os existencialistas?
Fernanda Montenegro : Logo depois da Segunda Guerra, no fim dos anos 40 e início dos 50.
Era um período em que Simone e Jean-Paul Sartre despontavam como celebridades,
como popstars. Todo mundo do meio artístico e intelectual queria entender o que pensavam. Eu, à época, trabalhava para a Rádio Ministério da Educação,
a lendária Rádio MEC, que já se localizava no centro do Rio de Janeiro.
Ingressei ali em 1945, ainda adolescente, por causa de um projeto
que recrutava novos locutores, redatores e atores.
Fiz o teste, uma leitura de poema, sem botar fé que me chamariam.
Mas me chamaram e acabei passando uma década na emissora.
Jamais imaginei que encontraria por lá um universo tão rico culturalmente.
Tínhamos aulas de português e de declamação,
além de palestras sobre os assuntos que abordávamos no ar.
Por longo tempo, desfrutei do privilégio de apresentar
o programa dominical Douce France (Doce França).
Em função disso, pude me aproximar ainda mais das teses de Sartre e Simone.
Qual o primeiro livro dela que você leu?
Foi O Segundo Sexo, que saiu em 1949
e se transformou num clássico da literatura feminista,
sobretudo por apregoar que as mulheres não nascem mulheres, mas se tornam mulheres.
Ou melhor: que as características associadas tradicionalmente à condição feminina
derivam menos de imposições da natureza e mais de mitos disseminados pela cultura.
O livro, portanto, colocava em xeque a maneira como os homens olhavam as mulheres
e como as próprias mulheres se enxergavam.
Tais ideias, avassaladoras, incendiaram os jovens de minha geração
e nortearam as nossas discussões cotidianas.
Falávamos daquilo em todo canto, nos identificávamos com aquelas análises.
Simone, no fundo, organizou pensamentos e sensações que já circulavam entre nós. Contribuiu, assim, para mudar concretamente as nossas trajetórias.
De que modo alterou a sua?
Sou descendente de italianos e portugueses, um pessoal muito simples,
muito batalhador, e me criei nos subúrbios cariocas.
Desde cedo, conheci mulheres que trabalhavam.
E reparei que, entre os operários, na briga pela sobrevivência,
os melindres do feminino e as prepotências do masculino se diluíam.
Era necessário tocar o barco, garantir o sustento da família
sem dar bola para certos pudores burgueses.
Nesse sentido, a pregação feminista de que as mulheres deviam ir à luta profissionalmente
não me impressionou tanto.
Um outro conceito me seduziu bem mais: o da liberdade.
A noção de que tínhamos direito às nossas próprias vidas,
de que poderíamos escolher o nosso rumo e de que a nossa sexualidade nos pertencia.
Eis o ponto em que o livro de Simone me fisgou profundamente.
Lembro-me de quando vi pela primeira vez a cena da bomba atômica explodindo.
Ou de quando me mostraram as imagens dos campos de concentração nazistas.
O impacto negativo que aquilo me causou foi parecido com o impacto positivo
que O Segundo Sexo exerceu sobre mim.
Garota, já suspeitava que não herdaria o legado de minha mãe e de minhas avós,
que não caminharia à sombra masculina.
O livro de Simone me trouxe os argumentos para levar a suspeita adiante.
Sua mãe trabalhava fora?
Não. Era uma ótima dona de casa, uma administradora emérita do lar.
Cuidava com carinho e eficiência de meu pai, um modelador mecânico, e das três filhas. Quando ficou viúva, caiu em depressão.
Tinha mais de 80 anos e procurou uma psicanalista.
Expôs as angústias à terapeuta e depois a ouviu, ouviu, ouviu.
De repente, interrompeu a conversa e revelou:
"Doutora, sabe do que gostaria mesmo? De liberdade".
Veja bem: minha mãe precisou chegar à extrema velhice
para conseguir expressar o que de fato almejava.
Escutei testemunhos similares — e tardios —
de outras mulheres idosas, como a minha sogra.
Elas integravam uma geração que suportava a dor em silêncio, sem reclamações.
"Caráter e espinha", proclamava minha mãe
quando lhe indagavam quais os principais atributos femininos.
Espinha para se curvar, compreende?
Os existencialistas teorizaram bastante sobre a liberdade humana.
Diziam que "o homem será antes de mais nada o que desejar ser".
Você concorda?
Concordo. Somos os senhores de nossos atos, de nossas opções.
"Deus ajuda quem cedo madruga", ensina o ditado popular.
Se o homem não inventar o próprio destino, Deus não irá interferir.
Você crê em Deus? Simone não acreditava.
Ora acredito, ora desacredito.
Ninguém me demonstrou a presença de Deus.
Tampouco demonstrou o contrário.
Eu talvez cultive uma fé imensa em meio à dúvida.
Por outro lado, creio plenamente no acaso.
O homem nasce livre, mas o acaso tem a última palavra, dizia Simone.
Exato. O acaso se põe acima de qualquer teoria.
É o grande mistério e a principal razão para a misericórdia.
Os homens deveriam se irmanar justamente porque se sujeitam, todos,
às leis insondáveis do acaso.
O que me fez entrar na Rádio MEC com 15 anos?
O que me fez superar a timidez juvenil e concorrer às vagas de locutora e atriz?
Foi o acaso, em parte. Havia a minha vontade e havia o imponderável.
Se tomasse outro rumo naquela ocasião, em quem iria me transformar? Não sei.
Sei apenas que hoje me encontro onde sempre quis. Vivi sem tempos mortos.
Um slogan de maio de 1968: "Viver sem tempos mortos, gozar a vida sem entraves". Você pinçou um trecho dele para batizar sua peça, não?
É que realmente vivi sem tempos mortos, algo de que me orgulho.
Mergulhei com avidez na existência que ganhei de Deus, da natureza ou do acaso.
Realizei uma profissão que considero importantíssima —
subir no palco para converter meu corpo em instrumento de discussões.
Nunca roubei, nunca matei.
Se impedi alguém de alcançar a felicidade,
não me dei conta e peço desculpas. Peço perdão até.
Não me julgo perfeita. Longe de mim!
Tenho as minhas zonas escuras.
Que zonas escuras?
Sou rancorosa. Lógico que rejeito o sentimento e me policio: "Vamos largar de besteira!".
No entanto... Ressinto-me igualmente de não ter mais disponibilidade para os amigos e a família. Às vezes, exagero na reclusão. Distancio-me de meus afetos.
Quando penso nos colegas que se foram e na atenção insuficiente que lhes dediquei...
Flávio Rangel, Renato Consorte, Paulo Gracindo, Lélia Abramo, Zilka Salaberry,
Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Autran...
Convivi tão pouco com o Autran... Sorte que, às vésperas de morrer,
ele me mandou uma carta, comovido. Falava de coisas doces.
Foi provavelmente a última carta que redigiu.
A vida não passa disso, de um demorado adeus.
Em setembro de 2008, você assistiu à morte de seu marido, o ator e produtor Fernando Torres, companheiro de quase seis décadas. Como lidou com o fato?
Não lidei. Continuo lidando...
Jamais a sensação do absurdo se mostrou tão palpável, tão nítida.
Você não aceita aquele virar de página. Você nega a partida.
O engraçado é que só me toquei de minha finitude depois de perder o Fernando.
Claro que, antes, me observava no espelho e acusava a passagem dos anos.
Mas não percebia que meu tempo está se esgotando, uma constatação terrível.
Experimentar o desmonte psíquico, o desmonte muscular, o desmonte existencial...
Não me parece fácil. Por enquanto, tudo vai bem.
Disponho de vitalidade e ânimo para prosseguir.
Consigo trabalhar 14, 18 horas por dia.
Noto, porém, que algumas pessoas já me olham com assombro:
"Ainda fala! Ainda se locomove!".
Tornei-me um estranho fenômeno de resistência, como outros de minha idade.
Mesmo assim, acho que a pior tragédia é morrer jovem.
Não há nada mais triste do que a vida interrompida precocemente.
Fernando concordava com as ideias defendidas por Simone em O Segundo Sexo?
Sim, totalmente. Era um homem de tutano, de fibra,
um homem libertário que recusava o machismo.
Enfrentou meu sucesso e minha personalidade forte à maneira de um gigante.
Em nenhum momento me castrou.
Pelo contrário: me incentivou muito e, na função de produtor,
buscou criar as melhores condições para meu progresso como atriz.
Certas vezes, me vendo no palco, chorava de emoção.
Se minhas conquistas o incomodavam, não deixou transparecer
— atitude que considero de uma grandeza absoluta.
Infelizmente, sofreu por 20 anos em razão de uma isquemia cerebral que, primeiro,
lhe trouxe depressões violentíssimas e, depois, lhe prejudicou os movimentos.
Um quadro tão terrível quanto inesperado. Uma armadilha do acaso.
Meses antes de morrer, fez questão de me aguardar no aeroporto
quando retornei de uma viagem à Itália.
Estava contente e me acenou da cadeira de rodas.
Segurava um buquê de flores. Perguntei: "Por que as flores, Fernando?".
E ele: "Porque nosso terceiro neto acabou de chegar".
Recebi a notícia do nascimento de Antônio assim, com flores.
Simone e Sartre protagonizaram uma relação aberta e se cercaram de vários parceiros sexuais. Você e Fernando viveram um casamento semelhante?
Não. Firmamos um pacto de fidelidade, que deveria se manter até onde desse. E deu!
No meu caso, deu. Todas as minhas fantasias extraconjugais resolvi em cena,
sem amargar qualquer frustração.
Se por ventura não deu para o Fernando, respeito.
Fomos transgressores à nossa moda, percebe?
Qual a maior subversão que um casal pode praticar nos dias de hoje? Permanecer junto!
Nós permanecemos — com altos e baixos, mas permanecemos.
Simone não teve filhos. Você gerou dois, a atriz Fernanda Torres
e o cineasta Cláudio Torres. Maternidade e feminismo combinam?
Certamente. Mesmo orbitando em torno do ideário feminista,
sempre desejei uma família. Nunca desprezei "o orgulho da carne".
E não me arrependo: acima de tudo, sou a mãe de meus filhos.
Mais que atriz, mais que a viúva do Fernando, sou a mãe de meus filhos.
Por que você resistiu à plástica, seguindo na contramão de tantos artistas?
O feminismo a influenciou nesse terreno?
Não me oponho às cirurgias estéticas nem condeno quem as faça,
mas receio perder minha cara.
Óbvio que, à beira dos 80, gostaria de exibir um pescoço maravilhoso,
eliminar as bolsas abaixo dos olhos, implodir a papada sob o queixo.
O problema é que não me reconheceria sem tais "defeitos".
Fora que, aderindo à plástica, ganharia uns dez anos e,
em vez de ostentar 80, recuaria para 70. Qual a vantagem?
Você se julga bonita?
Ultimamente, quando espio fotos em que apareço jovem,
enxergo certa graça ali.
Eu fugia muitíssimo do padrão.
Não me equiparava às beldades daquele momento: Doris Day, Marilyn Monroe,
Tônia Carrero, Maria Della Costa.
O curioso é que nem por isso me sentia inferior.
Numa ocasião, a companhia de Henriette Morineau
me contratou para assumir o papel de uma feiosa em um espetáculo
— não lembro o nome da peça.
Minha personagem rivalizava com uma prima linda e fogosa,
um anjo exterminador, um furacão que seduzia o tio,
os namorados alheios, o diabo.
Num dos ensaios, arrumei coragem e confessei que não queria interpretar a feiosa.
Queria encarnar o anjo exterminador.
O resto do elenco me chamou de louca.
Pois acabei pegando o papel e afirmo, com enorme alegria,
que ninguém protestou na plateia.
Ninguém ousou dizer que aquele estrepezinho não seria capaz de enfeitiçar deus e o mundo.
Já idosa, Simone declarou que não se deixaria escravizar pelo passado.
Você também parece não se prender às glórias de outros tempos
e abdica de títulos que a colocam em pedestais,
como o de "primeira dama do teatro brasileiro". Por quê?
Entenda: prezo tudo que realizei, mas o passado é o passado. Terminou.
Não pretendo me entregar às divagações do tipo "ah, meus verdes vales...".
Rechaço a melancolia nostálgica e, à semelhança de Simone, frequentemente me pergunto: "Que espaço o passado reserva para a minha liberdade hoje?".
Quanto à classificação de "primeira dama", não me ofendo. Em absoluto!
Só avalio que o rótulo não me cabe. Vi e vejo atrizes extraordinárias na estrada.
Não é possível que apenas uma envergue a coroa. Precisamos dividir os louros.
Sem contar que a mídia e os críticos mencionam sempre as damas e nunca os lordes.
Cadê os lordes? Nossos palcos estão repletos deles.
Na verdade, títulos do gênero são a herança de um teatro romântico, heroico
— um teatro que jamais busquei.
Uma vez, a Nandinha, minha filha, filmou no México com o Anthony Hopkins
e me escreveu de lá: "Mamãe, ele é igualzinho a gente".
Correto! O ofício não nos tira do âmbito humano.
Continuamos falíveis como qualquer indivíduo.
Mesmo as divas tropeçam em cena, sofrem acessos horríveis de tosse,
esquecem o texto, temem não dar conta do recado.
Você teme?
Muito! Desde moça, temo que me falte o sopro, o mistério da criação.
Há artistas que perdem a chama de repente, sem saber o porquê.
Não tenho consciência se já a perdi. Sinceramente não tenho. E talvez nem deseje ter.

A PEÇA Viver sem Tempos Mortos.
Monólogo sobre Simone de Beauvoir.
Direção: Felipe Hirsch.
Direção de arte: Daniela Thomas.
Com Fernanda Montenegro.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Dizia Schopenhauer que "a arte é uma flor
que nasce em nossa vida para suavizá-la".

Muito bom falar da genialidade de Wagner Moura ao interpretar Hamlet.
Ainda sob efeito da beleza e magia do espetáculo,
que apesar da simplicidade do cenário e do figurino,
traz o que de mais rico nos agrada, a interpretação visceral de Wagner Moura.
A montagem é pouco usual, um palco sem grandes cenários,
o telão que projeta imagens filmadas em tempo real,
os atores assistindo a trama e denotando nas suas fisionomias
o encantamento pelo trabalho.
A produção é do próprio Wagner,
que divide a tradução com o diretor Aderbal Freire Filho
e a professora de inglês Barbara Harrington.

Veja trechos da entrevista com Wagner Moura sobre seu Hamlet:

“Nossa tradução não privilegia o literário.
Buscamos a humanidade.
Deixamos o texto mais comunicativo”, explica Wagner.

"Não há na nossa tradução nenhum traço de coloquialismo.
Aderbal foi um mestre em passar o jogo de palavras do inglês shakespeariano para a nossa língua, sem tanto prejuízo.
A nossa peça tem texto direto.
É despojado sem abrir mão da poesia", completou.

# Como foi o processo de criação? Como define o Hamlet de Wagner Moura?
A maior preparação é o ensaio, a ação.
Chegar todo dia naquele horário e ir descobrindo a peça e o personagem
junto ao diretor e colegas. Cada dia entendo mais o termo work in progress,
que se aplica tão bem a qualquer trabalho em teatro.
A vida é um work in progress.
Duvido muito do crítico que vem com teorias
acerca da psicologia de Hamlet (embora os psicólogos o amem).
Stanislavski não se aplica a Shakespeare.
Adoro pensar que o bardo antecipou Brecht.
Hamlet não faria assim, Hamlet não agiria assado, Hamlet é deprê,
Hamlet não pode rir, qualquer coisa que se diga
é uma simplificação boba dos "inteligentes"
que querem dizer que conhecem bem Hamlet.
Eu tenho convivido com ele e adorado conhecê-lo aos poucos,
me surpreendendo a cada noite,
nessa onda que Tonico Pereira batizou de "solidão de protagonista".
Conhecê-lo e surpreender-me com ele é conhecer-me
e surpreender-me também comigo.

# Você disse que produziu Hamlet por "absoluta necessidade"... Não por ser um clássico. Mas certamente a emoção do teatro é diferente de qualquer outra coisa.
Escolhi Hamlet porque nele está o que há de melhor em Shakespeare.
É um grande personagem por quem sou apaixonado desde os 15 anos.
E porque sou velho pra Romeu e novo para Lear.
Hamlet é um personagem muito engraçado.
Apesar da tragédia que é a peça,
tudo que ele diz é muito espirituoso e irônico.
Ele é um muito mais inteligente e bem-humorado do que eu.

# Qual é seu trecho preferido de Hamlet?
O monólogo de Hécuba.
É uma fala que exorta o poder dos atores e do teatro,
dita por atores, num teatro, me emociona muito.
O teatro como revelador da verdade.
É com o teatro que Hamlet agarra a consciência de Claudios.
Que coisa linda! Isso me emociona muito.

A peça Escrita por William Shakespeare na virada do século 17,
a tragédia de Hamlet permanece como a peça mais celebrada
em toda a história do teatro mundial.
Ela se passa no Castelo de Elsinor, na Dinamarca,
onde o fantasma do Rei Hamlet aparece para seu filho, o príncipe Hamlet,
e exige uma vingança.
O espectro diz ter sido envenenado pelo próprio irmão, Claudio,
enquanto dormia.
Claudio acaba se casando com a Rainha Gertrudes, mãe de Hamlet,
roubando de seu pai a um só tempo a vida, a coroa e a mulher.
Paralelamente, Hamlet se apaixona pela jovem Ofelia, filha de Polonio, conselheiro de Claudio e Gertrudes, e irmã mais nova de seu amigo Laertes.

Ficha Técnica
Texto: William Shakespeare
Tradução: Aderbal Freire-Filho com Barbara Harrington e Wagner Moura
Direção: Aderbal Freire-Filho
Elenco: Wagner Moura, Tonico Pereira, Carla Ribas, Georgiana Góes, Caio Junqueira, Cláudio Mendes, Fábio Lago, Felipe Koury, Gillray Coutinho e Marcelo Flores
Cenário: Fernando Mello da Costa e Rostand Albuquerque
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurinos: Marcelo Pies
(Fonte: O Que a Bahia Quer Saber)
Teatro Castro Alves,
Final da peça,
26.07.2009

sábado, 18 de julho de 2009

PARATY - CHINA

"A literatura chinesa estreia na FLIP
com o escritor Ma Jian e a jornalista Xinran,
ambos radicados na Inglaterra,
cujos livros fazem retratos críticos de uma China
pouco condizente com a imagem de liderança global a que o país aspira.
Para a escritora Xinran, autora de "As boas mulheres da China",
as novas gerações estão desconectadas da história e das tradições do país.
Ela criticou a sede de novidade,
consumo e transformação por que passa o país.
Xinran comparou o país a um “retrato de Picasso”,
em que os elementos estão fora do lugar, como numa colagem.
Seu livro mais recente, Testemunhas da China,
traz depoimentos de chineses que viveram
a Revolução Cultural de Mao Tse-tung". (Blog FliP)

"As boas mulheres da China" é o título do livro
da jornalista chinesa Xinran
que foi apresentadora de um programa de rádio em Nanquim
até por volta de 1997, denominado "Palavras na brisa noturna".
Nele, discutia aspectos do cotidiano e dava conselhos aos ouvintes.
Fez tanto sucesso que começou a receber inúmeras cartas de mulheres,
contando os dramas pessoais. Xinran reuniu, nessa obra, algumas das histórias que chegaram ao conhecimento a partir daquelas correspondências.
São narrativas contundentes e chocantes a respeito da condição feminina
na China, sob o regime socialista.Em época de Revolução Cultural,
do presidente Mao Tse Tung, para um reafirmamento das ideias marxistas.
Trata-se do primeiro livro da autora, que é, atualmente,
professora na Universidade de Londres. (Wikipédia)

Assistí em pré-estreia a peça de Fabio Porchat,
"Palavras na Brisa Noturna" baseada no livro da escritora Xinran.
Apesar do teatro improvisado, a peça foi surpreendente.
A força, determinação e entusiasmo de Fabio Porchat e elenco,
foram emocionantes.
Encontrei duas das atrizes nas ruas de Parati e fiz-lhes o elogio merecido,
falando do meu entusiasmo com a força da interpretação.
Quem vê Fabio Porchat fazendo comédia em Zorra Total,
surpreende-se com o intimismo apresentado na peça.



"Fábio Porchat é ator, diretor e autor.
Com apenas 25 anos, formado pela CAL,
tem desenvolvido uma carreira ligada ao humor
com especial ênfase no estilo Stand up Comedy.
É roteirista da TV Globo há três anos.
Apesar da pouca idade, Fabio Porchat é ator de teatro,
roteirista do programa global “Zorra Total”,
apresentador e comediante do espetáculo “Comédia em Pé”,
que completa dois anos em agosto".

"
Flip 2009: Lágrimas para fazer pensar
O rosto lambuzado de lágrimas, Mayra Villela balançava a cabeça em sinal afirmativo enquanto ouvia as palavras de Xinran Xue.
Mayra é assistente de direção da peça "Palavras na brisa noturna",
um texto do carioca Fábio Porchat livremente inspirado no livro

"As boas mulheres da China" (Companhia das Letras).
A equipe da peça, se reuniu ontem com Xinran
numa pousada de Paraty para falar sobre as histórias recolhidas
e escritas por ela, fortes relatos sobre as vidas de mulheres chinesas
vítimas de violência. O que seria uma breve conversa de uma hora
virou um encontro emocionado, que se estendeu pelo almoço
e terminou com a escritora convidando todos a viajarem para a China.
Xinran disse que o importante do seu trabalho

é abrir uma possibilidade de mudança.
- Nunca me sinto como uma heroína por ter feito esse trabalho -

disse a jornalista, que teve que deixar a China por causa das histórias.
- O que sinto é que fiz muitas amigas, e, como amiga,
consegui fazer com que algumas dessas mulheres vivessem mais,

e vivessem melhor.
Quando você está angustiado, precisa de um amigo.
Muitas mulheres nunca tiveram isso. Por isso tantas se mataram.
Anteontem à noite, ela assistira a uma pré-estreia da peça em Paraty,
e ficara ela mesma abalada. Tanto que, depois, quando andava pela cidade,
um policial veio lhe perguntar se estava tudo bem.
- Mas o importante não é só o choro - disse.
- O choro é importante, porque lava a alma.
Mas há uma postura muito segura, de encarar isso apenas como histórias tristes que aconteceram com algumas mulheres na China.
Acho que, como elas, as mulheres do Brasil também precisam dessa atenção.
Mais do que fazer as pessoas chorar, temos que fazê-las pensar.
Fazendo as vezes de tradutor do encontro, Porchat,
que além de autor é diretor da peça,
respondeu que ela não era apenas um espetáculo,

mas tinha uma intenção política.
A produção, contou, está combinando apresentações seguidas de debates para associações de mulheres vítimas de violência.

Além de tentar explicar como entende seu trabalho,
Xinran quis saber das atrizes da peça quais histórias

eram mais importantes para elas.
- Quando eu estava lendo seu outro livro, "Enterro celestial",
eu ficava chorando tanto que meu marido falou para eu parar de ler -

riu Regina Gutman, que faz um dos cinco monólogos da peça.
Depois de ouvir as atrizes,
Xinran disse que pretendia ir ao Rio para acompanhar os ensaios
e conversar ainda mais sobre as histórias e a China.
Em seguida, disse que precisava das medidas do elenco,
porque pretendia ajudar com o figurino,
e sugeriu algumas mudanças na trilha musical.
- Cometemos algum erro na música? - Porchat perguntou.
- Acho que sim, pequenos, mas é inevitável.
Vocês não têm como conhecer minuciosamente a China,
assim como eu venho ao Brasil com uma imagem do país,
mas na verdade existem vários países dentro do Brasil - Xinran respondeu.
Ela prometeu também álbums de fotos da China:
- Estudando as imagens vocês podem aprender detalhes

sobre a postura corporal das mulheres chinesas.
Diferenças de classe. Como os ombros de uma mulher bem educada,
por exemplo, são diferentes dos de uma mulher do campo.
Porchat conta que leu o livro de Xinran há dois anos,

mas quem teve a ideia de transformá-lo numa peça foi sua mulher,
Patrícia Vasquez, que faz parte do elenco.
- Imediatamente comecei a pensar em quem chamar, como montar.
Nos meses seguintes escrevi os cinco monólogos,
partindo sempre dos enredos da Xinran.
Discuti os textos com o enredo e quanto eles estavam prontos
enviei uma versão em chinês para ela.
Mas ela nunca respondeu esse email e eu comecei a ficar preocupado,
achando que ela tinha odiado.
Quando nos encontramos aqui em Paraty, foi um alívio enorme".

(Miguel Conde, de Paraty)












Mirante do Leme, RJ






RIO DE JANEIRO - ESTRÉIA 05.07.2009
O Rio nos esperava na volta de Paraty.
Difícil pensar que a beleza de Paraty e os dias cheios de calma e poesia
Poderiam ter tão forte concorrente!
Assim foram os dias no Rio de Janeiro,
de muito acolhimento e carinho,
como se estivéssem0s em casa.

Karla e Lilinha, "hospedeiras" maravilhosas,
amantes do Rio, e por isso também, excelentes anfitriães.
Somente o sentimento de amor nos faz tão inteiras no que fazemos.
Obrigada meninas, por nos fazerem ver o RIO,
"CIDADE MARAVILHOSA", ainda.
O Rio é lindo e continuará lindo, sempre!
Continua em mim o deslumbramento com a cidade,
os recortes da baía da Guanabara, e os morros que sobem e descem,
como se ao longe ouvíssemos Tom, Vinicius, Garota de Ipenema, Copacabana;
Também o mar e o luar dos mais belos que já ví.
Confiram os momentos maravilhosos e as ótimas companhias, é claro!





Galeão.














Karla, Carmen, Lilinha,
Tania e Milu.












COPACABANA, princesinha do mar!















IPANEMA e as "GAROTAS".





Envolví Drumond com meu sobretudo
e dei-lhe a ternura que sentí ao ler seus poemas.
Ouví que será ele o homenageado da próxima Flip.












João, Carmen e Milú,
encontro luso, com certeza!













Carla levou-nos para ver
"O Estrangeiro" com seu amigo Guilherme Leme.
Beleza de espetáculo e interpretação.
Texto Albert Camus /direção Vera Holtz










Lagoa Rodrigo de Freitas,
um lugar para se estar.












Na praia vermelha,
o luar desenhava o maior espetáculo da natureza.
















Ao observar a lua,
momentos de solidão e tristeza!













Até breve Rio!